Pescas e Aquacultura

Arte de salto e vara em conferência mundial

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Vai decorrer nos próximos dias 16 e 17 de outubro, na cidade da Horta, ilha do Faial, o primeiro encontro internacional sobre a pesca de atum com recurso à arte de salto e vara.

A conferência que decorrerá no edifício “Sociedade Amor da Pátria”, reunirá os líderes mundiais envolvidos no setor da pesca de atum com arte de salto e vara e linha de mão para partilhar as melhores práticas, discutir soluções, avaliar a dinâmica social e económica das pescarias individuais e explorar formas de colaboração para o desenvolvimento do setor. Este será o primeiro encontro mundial entre todos os intervenientes deste setor de atividade, nomeadamente pescadores, comerciantes, governantes, investigadores e ONGs, com o objetivo de estreitar relações preparando-se para as crescentes exigências de mercado.

A pesca do Atum

As várias espécies de atum são migradoras e assumem um papel fundamental nos ecossistemas costeiros e oceânicos sendo reconhecidas como fonte de alimento e de sustento para comunidades pesqueiras ao redor do globo.

Há cinquenta anos atrás, a maior parte do atum comercializado por todo o mundo era capturado com técnicas de pesca de baixo impacto, contudo o desenvolvimento das técnicas e meios de pesca elevou a pesca do atum para níveis industriais. Atualmente, a maior parte do atum comercializado no Mundo é capturado com redes de cerco e por grandes embarcações palangreiras. Embora estes métodos sejam mais eficazes ao nível da quantidade capturada, eles  induzem graves perturbações nos ecossistemas marinhos.

Contudo, algumas pescarias de salto e vara persistem e estão na vanguarda do movimento sustentável do consumo de pescado.

A Pesca de Salto e Vara

Esta arte, designa-se corretamente “pesca de salto e vara com isco vivo” devido às características das artes utilizadas e porque utiliza pequenos peixes pelágicos vivos como isco (chicharro, sardinha, cavala, carapau, etc). Como o nome indica, implica uma vara (que varia de tamanho e forma) e a técnica do salto, que consiste em puxar o peixe para bordo com um só movimento, fazendo-o saltar. Claro que esta manobra é tanto mais difícil quanto maior for o tamanho do peixe.

Atuneiro Condor
O atuneiro CONDOR de 1994, com 25m de comprimento, desloca 138 toneladas, navegando ao serviço da COFACO, ao largo da ilha de Santa Maria, em 2011

É uma pesca activa e dinâmica que procura os cardumes de atum na superfície atraindo-os para junto da embarcação com isco vivo. Dois factores são extraordinariamente importantes neste tipo de pesca: a grande voracidade que os atuns apresentam quando estão a alimentar-se, chegando a entrar em frenesim, e a habilidade que o pescador possui em iludir o atum, atraindo-o ao seu anzol.

Aspecto de grande interesse na pesca de atum nos Açores é o facto desta depender directamente de outra pescaria, a captura do isco vivo. Nos Açores, esta é feita com pequenas redes de cerco, ou “enchelavares”, que capturam os pequenos peixes na costa, e os armazenam em grandes tanques (tinos) na embarcação. Sem estes pequenos exemplares não seria possível atrair à superfície os grandes cardumes de atum.

Os Açores, exemplo de respeito pela proteção dos ecosistemas marinhos

Desde a década de 50s que os Açores pescam atum com salto e vara. Estas pescarias fazem atualmente parte integrante da economia local, tornando-se por isso num local perfeito para a realização da primeira conferência internacional de salto e vara do mundo.

O Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia, Gui Menezes, salientou a necessidade de “sensibilizar a comunidade internacional para a importância de defender o salto e vara como uma arte ambientalmente sustentável”, acrescentando que esta pesca “deve receber um tratamento distinto da pesca industrial, na medida em que salvaguarda a preservação do atum e respeita o ecossistema marinho”, não afetando animais marinhos como, por exemplo, os golfinhos.

A sustentabilidade das pescarias de atum tem sido uma preocupação do Governo dos Açores que, junto da Comissão Europeia e da Comissão Internacional para a Conservação dos Atuns do Atlântico (ICCAT), tem defendido a implementação de medidas mais restritivas à pesca industrial desta espécie, que se desenvolve essencialmente utilizando redes de cerco e tecnologias de agregação de peixe, bem como a criação de corredores marítimos livres deste tipo de dispositivos.

A conferência

Este evento vai reunir líderes governamentais de vários países, bem como armadores, pescadores, associações do setor, comerciantes, indústria, investigadores e membros de organizações não governamentais, pretende “valorizar uma técnica artesanal, amiga do ambiente, também utilizada nos Açores para a captura de atum”.

Logo Tuna Conference
Logo da One by One Tuna Fisheries Conference

A primeira Conferência Internacional de Salto e Vara tem como objectivos principais a  partilha das melhores práticas, a identificação dos desafios relacionados com a utilização de artes de pesca artesanais em diferentes regiões e a avaliação do potencial que representam em termos de valorização do pescado.

“Esta iniciativa reveste-se de grande importância para todas as regiões que utilizam o salto e vara e, em particular, para os Açores, onde os pescadores utilizam esta técnica desde os anos 50 do século XX”, afirmou Gui Menezes, acrescentando que a Região, ao promover a realização desta conferência, assume “uma posição de liderança no contexto mundial na defesa desta técnica de pesca artesanal”.

A Conferência Internacional de Salto e Vara, organizada pelo Governo dos Açores em parceria com a Fundação Internacional de Salto e Vara (PNLF), já tem confirmados participantes de uma dezena de países para além de Portugal, nomeadamente dos EUA, África do Sul, Reino Unido, Espanha, Senegal, Cabo Verde, Japão, Maldivas, Alemanha e Bélgica.

Fontes:

www.azores.gov.pt

www.madeinazores.eu

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Foi colaborador da Revista da Armada, onde ganhou o prémio em 1997.