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Artur Manuel Pires

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Do you know Portuguese?     No, I don’t.    That´s a pity.

Somerset Maugham, The Narrow Corner

– Depois de uma escala na Madeira e outra em S.Tomé, a nossa fragata finalmente chegou a Lourenço Marques, depois de termos zarpado há bastante do Alfeite, e atracámos ao início da manhã de um dia que tinha nascido com sol e ia acabar com lua.

Fragata no porto de Lourenço Marques, cerca de 1960. (Fotografia de Artur Monteiro de Magalhães restaurada por António Botelho de Melo – The Delagoa Bay World)

Disse-me o meu companheiro de mesa do lado esquerdo, e continuou.

– A escala ia ser de dois ou três dias, porque dali rumávamos para a Índia. E por isso mesmo tinha que ser muito bem aproveitada, para voltar a equilibrar a tripulação, depois daquele tempo todo sujeito a um horizonte flutuante.

Nas primeiras segundas feiras de cada mês, a Secção de Transportes da Sociedade de Geografia de Lisboa, reúne-se num almoço de convívio e trabalho. Sempre que me é possível compareço, para passar uns momentos agradáveis, e sair com pena das vezes em que não consigo ir.

 

 

A Secção é o espelho fiel da própria Sociedade de Geografia. Um grupo de pessoas com interesses comuns, com uma cultura substancialmente acima da média, oriundas da Academia, das Forças Armadas, do quadro superior do funcionalismo público, das profissões liberais, do mundo empresarial, alguns com experiência governativa. Em suma, elevação sem pretensiosismo. E sobretudo, possuidores de estórias interessantíssimas, como tudo indicava que seria a do meu companheiro de mesa.

Conhecia-o de vista de outros almoços, onde era tratado por Almirante, o que ali era particularmente vago, levando-me a pensar em certos almoços se estava a almoçar com a Secção ou com o Almirantado. Tínhamos acabado de comer o segundo prato, um ensopado de borrego bastante satisfatório, e preparávamo-nos para atacar a sobremesa, que seriam duas musses, de chocolate para ele e de manga para mim.

– Pouco tempo depois de concluída a atracação, o comandante apareceu no convés impecavelmente de branco tropical. Ou seja de calções. Teve a magnanimidade de explicar que ia passar a tarde ao Clube dos Caçadores de Lourenço Marques, o sítio mais seleto a sul do equador, e até deu a entender que teria um encontro combinado. E ia em grande estilo. Não só requisitou o acompanhamento de um ordenança, como se virou para o imediato e perguntou:

“O cão é fiável?”

–  Cão ? – Disse eu.

– Cão. Andava embarcado um labrador branco, enorme, bonito, estimadíssimo por toda a tripulação, vagamente pertença do imediato, e que lhe tinha dado o nome de Herr Hasselbacher.

– Como ? Disse eu, e julgo que cheguei a dar um pulo na cadeira. 2

– Herr Hasselbacher. Se não se recorda, sempre lhe digo que é o nome de um dos personagens do delicioso romance O nosso agente em Havana, de Graham Greene. Mas claro, como era um nome impronunciável, toda a gente o tratava por Rum. Lembrava Havana, era suficientemente prussiano, e fácil de berrar. E sobretudo, o cão parecia dar-se muito bem com ele.

Começámos as musses, e como estivesse a adorar a estória, fui retardando a minha.

“Uma seda”, respondeu o imediato. “Então também o levo”, disse o comandante. E rematou: “Que esteja com as necessidades feitas e escovado, a seguir ao almoço.”

Atacámos as musses, e o meu companheiro prosseguiu.

– Efectivamente pouco depois do almoço o trio abandonou o navio. Por ordem, o Rum à frente, preso por uma trela que o comandante segurava, e logo atrás, à distância regulamentar, o ordenança.

Mais uma colher de musse para os dois.

– E pouco faltava para o escurecer quando estavam de regresso, e não exactamente por aquela ordem. Primeiro apareceu o ordenança, com cara de caso, e que se limitou a dizer que tinha acontecido qualquer coisa. Depois apareceu o Rum, que naturalmente não disse nada, e daí a um bocado o comandante. Sem um dos galões, todo amarfanhado, e creio que descalço. E a única coisa que disse foi: “Quero toda a gente daqui a meia hora no tombadilho, para um conselho de guerra. É preciso mandar fuzilar o cão”. Pediu um uísque e trancou-se no camarote.

– A propósito – disse eu – e se fizéssemos a mesma coisa, e fossemos lá para baixo beber dois uísques. Quando o meu companheiro disse que era uma excelente ideia, já estávamos a descer a escada.

Pedimos dois uísques. Com duas pedras de gelo para ele, e com água lisa para mim.

whiskey

– Aos poucos o ordenança foi contando o que é que tinha sucedido. A entrada do trio no clube tinha provocado o efeito previsto e desejado. À frente o Rum, impecável na sua labradorice, atrás o comandante, irrepreensível, e a fechar o ordenança, perfeitamente à altura da situação. E o clube, um requinte, onde parecia que o universo se tinha ordenado por mesas. Numas, as senhoras jogavam canastra, e noutras os cavalheiros jogavam bridge. Sentados em cadeirões, dormitavam cavalheiros, com livros abertos aos pés, e no meio, criados a trazer aquilo que os sócios pretendessem. E calhou que numa das mesas das senhoras, uma delas tivesse ao colo uma cadelinha caniche.

Aqui chegados, o resto da descrição do ordenança, era supérflua. Continuámos as bebidas, e ficámos um tanto tempo a gozar a cena. A equipagem a ouvir a estória do ordenança, e ao lado o Rum, com ar comprometido, mas simultaneamente firme, como que a demonstrar que voltava a fazer tudo da mesma maneira, se voltasse a encontrar aquela cadelinha.

– A cadelinha soltou-se do colo da dona, e o ordenança, antes de decidir raspar-se, contou cinco voltas inteirinhas do Rum à volta do salão, por baixo de todas as mesas, sempre com o nosso comandante agarrado à trela, e portanto a fazer os mesmíssimos percursos, havendo contudo sítios onde o Rum passava bem, mas o comandante nem por isso.

A bebida apenas melhorou a estória. E o meu vizinho prosseguiu:

– Naquela altura a estória do ordenança já podia ser acompanhada pela rádio, porque a emissora oficial local transmitia de hora a hora, novos pormenores. Comportamento inaceitável de oficial da Armada, prejuízos avultados, e uma cadelinha caniche operada de urgência por abuso de um labrador ensandecido.

Mais uns goles.

– Daí a pouco reuniu-se o conselho, debaixo de uma lua redonda e perlada, de onde se desprendia uma esteira de luar, pelo Índico fora. O comandante apareceu novamente impecável, e via-se que o uísque tinha produzido efeito. O conselho, para satisfação do comandante votou pela conduta altamente reprovável do Rum. Mas também referiu que os dias passados a navegar, aquele isolamento, não provocavam sensibilidades emocionais apenas nos homens, mas também nos animais. O imediato, que era quase dono do Rum, e que como sabemos era dado à literatura, falou na voz do instinto, o chamamento da natureza, e citou mesmo o apelo da selva de Jack London.

O meu companheiro, acabou o seu uísque, soltou uma gargalhada, e prosseguiu.

– O comandante amaciou, e daí a pouco estava a sorrir, e logo a seguir à gargalhada, quando tentou descrever o que é que tinha acontecido à caniche, quando o Rum finalmente a encurralou a um canto.

Depois calou-se. Estava quase a acabar mais um almoço na Sociedade de Geografia.

– E como é que tudo terminou ? – Perguntei quando também acabei o meu uísque.

– Ora, acabou bem. Ou acha que eu ia desperdiçar a nossa conversa, com uma estória desagradável ?. O Rum era um devasso, libidinoso, mas era um cão da Armada, e a Armada nunca abandona os seus. No regresso a tripulação levou um louvor, houve promoções, e o comandante até chegou a Almirante.

Agora eu tinha a certeza absoluta de que a minha simpática companhia, tinha andado de rojo, pelo chão do Clube dos Caçadores. Ainda teria os joelhos esfolados?.

O “Rum”

– E o Rum?

– Ficou para sempre na companhia do quase dono, que lhe tinha dado o nome. Quando deixou de poder andar embarcado, nunca se adaptou à vida em terra, sobretudo à estabilidade desta, e o dono teve que lhe construir um lago e instalar a casota em cima de uma jangada, onde o bom do Rum pode morrer sereno, embebido numa melancolia docemente agitada.