Autor

José António Rodrigues Pereira

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Na cidade do Porto, 5000m2 dedicados à História da Expansão Marítima Portuguesa

A cidade do Porto dispõe, desde Abril de 2014, de uma nova instituição museológica dedicada à expansão marítima portuguesa dos Séculos XV e XVI. Refiro-me ao World of Discoveries ou Mundo das Descobertas, um Museu interactivo e parque temático, uma iniciativa do empresário Dr. Mário Ferreira, mais conhecido do público pelos seus navios de cruzeiro no rio Douro (empresa Douro Azul).

Este espaço definido como museu interactivo e parque temático, proporciona-nos em mais de 5.000 m2 uma viagem aos locais, espalhados pelo Mundo e por onde os portugueses se expandiram. O nosso primeiro olhar, quando entramos naquele espaço é logo para o pessoal que, vestido à época, nos recebe e acompanha.

Mapa do parque temático (WOD)

A introdução

A visita inicia-se numa sala onde nos são mostrados os modelos dos tipos de navios utilizados nas navegações portuguesas daquele dois séculos; da pequena barca ao grande galeão. Está ali representada, em modelo, a barca, o tipo de navio em que Gil Eanes passou para Sul do Cabo Bojador, então considerado o limite do mar navegável. Também o barinel, o tipo de navio em que Afonso Baldaia continuou as navegações para Sul do Bojador ali se encontra representado através de um pormenorizado modelo. A caravela latina, o navio por excelência dos descobrimentos e maioritariamente utilizada nas expedições ao longo da costa ocidental africana entre 1440 e 1489, ou seja entre os Cabos Branco e da Boa Esperança, não poderia faltar nesta galeria de modelos de navios. A caravela redonda, um tipo de navio híbrido entre a nau e a caravela e preparada para enfrentar o tormentoso Cabo da Boa Esperança, também ali marca presença. A nau, o navio de comércio por excelência da chamada Carreia da Índia e o galeão, o poderoso navio de guerra dos Séculos XVI e XVII, também ali se encontram representados, permitindo-nos obter uma visão completa do que eram os navios portugueses utilizados naquela época.

A sala dos modelos de navios. (foto do autor)

Na mesma sala podemos ainda observar as réplicas dos instrumentos de navegação utilizados pelos portugueses naquele período histórico, tais como a agulha magnética, o quadrante, a balestilha e o conhecido astrolábio náutico.

A agulha magnética, vulgarmente chamada bússola, é um instrumento originário do Extremo-Oriente que chegou à Europa no Século XIII e permitia manter o navio a navegar numa determinada direcção, mesmo quando não havia referências em terra.

Quando, no segundo quartel do Século XV os portugueses sentiram necessidade de calcular a latitude dos navios no alto-mar, utilizaram inicialmente o quadrante para fazer as observações das estrelas; obtendo o ângulo entre o horizonte e uma estrela – geralmente a chamada estrela Polar – conseguiam, depois, efectuar o cálculo do valor da latitude. Mais tarde, quando a estrela Polar foi substituída pelo Sol, passou a utilizar-se o astrolábio náutico e a balestilha. O primeiro era uma simplificação do astrolábio astronómico muito utilizado na astronomia; o segundo era um aperfeiçoamento do kamal,  instrumento utilizado no Oceano Índico pelos navegadores muçulmanos e hindustânicos.

Numa segunda sala são-nos mostrados, em globos digitais, exemplares das cartografia antiga, permitindo ao visitante saber como os nossos antepassados evoluíram no seu conhecimento geográfico da Terra. Utilizando uma projecção sobre um meio globo de vidro, o visitante pode observar a evolução da cartografia náutica desde os mapas de  inspiração ptolemaica e os portulanos europeus medievais atá às cartas náuticas do Atlântico e do Índico, desenhados pelos cartógrafos portugueses a partir do Século XV com um rigor que ainda hoje nos espanta. Nessa sala, fundamentalmente um centro multimédia, podemos ainda observar vários painéis com referência a personalidades e factos daquele período histórico. Como exemplo podemos conhecer as biografias de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães que descobriram, respectivamente, o Cabo da Boa Esperança, o Caminho Marítimo para a Índia e a ligação entre o Atlântico e o Pacífico.

As viagens de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã. (foto do autor)

Ainda antes de deixar esta sala podemos observar uma visualização digital das mais importantes viagens lusitanas, com as suas derrotas e escalas até ao seu destino e onde não foram esquecidas as viagens por terra dos enviados de D. João II ao Oriente, Afonso de Paiva e Pero da Covilhã, cujas informações se destinavam a preparar a viagem de Vasco da Gama.

Passamos depois para uma zona representativa do interior de um navio da Carreira da Índia, onde encontramos a sua carga, os seus alojamentos e o armamento, não faltando uma peça de artilharia da época e a sua palamenta. Ali é feita uma referência ao escorbuto, uma doença grave que vitimava as tripulações da época por falta daquilo a que hoje chamamos vitamina “C”.

O rinoceronte transportado a bordo. (foto do autor)

Entre a carga transportada naquele navio, surge-nos um rinoceronte, que representa o episódio do animal daquela raça que, vindo da Índia, D. Manuel I enviou de presente ao Papa e ficaria imortalizado no desenho que dele fez Albrecht Dürer, sem alguma vez o ter visto.

Seguimos depois para o estaleiro onde os carpinteiros navais preparam mais uma embarcação para navegar. Ali podemos observar os vários componentes do casco dos navios – cavernas, balizas, etc –diversos componentes do seu aparelho – cabos e aparelhos de força – enquanto o manequim de um carpinteiro naval trabalha arduamente no corte de uma peça de madeira.

O estaleiro naval. (foto do autor)

A viagem

A próxima paragem é no cais de embarque; aí somos convidados a entrar numa pequena embarcação e somos transportados por um longo canal passando sucessivamente pelos vários locais onde se fez sentir a presença portuguesa. Logo que embarcamos avistamos a Torre de Belém que, apesar de só ter sido construída em 1514 (e concluída em 1519) está ligada ao imaginário dos Descobrimentos e da Expansão. Depois, Ceuta – a primeira conquista portuguesa fora da Europa – e o Mar Tenebroso, onde as imagens e os sons nos transportam para o imaginário dos temporais no alto mar.

A conquista de Ceuta. (foto WOD)

Sucessivamente vão-nos surgindo as paisagens do Deserto do Sáara, da savana africana e das florestas tropicais com as suas riquezas de fauna e flora que os navegadores portugueses foram sucessivamente encontrando ao longo das suas viagens até chegarem à Índia.

A floresta tropical. (foto do autor)

A referência à chegada de Gama à Índia está ali representada pela entrevista do navegador com o Samorim de Calecute, imortalizada por Camões, e pelo mercado das especiarias, afinal a razão do esforço português para atingir aquela remota região.

Vasco da Gama com o Samorim. (foto do autor)

Há ainda as referências aos diversos locais onde os portugueses aportaram e onde estabeleceram relações comerciais: Timor, China e Japão; não faltam as referências às actividades de pirataria do mar da China e à introdução da espingarda no Japão.

A entrega da primeira espingarda no Japão. (foto do autor)

A descoberta e colonização do Brasil também nos é mostrada em vários quadros, como o da primeira missa celebrada naquele território, os engenhos de açúcar e as danças.

Os cenários são realistas e muito bem concebidos, e o excelente acompanhamento audio (através de um audio-guia) fazem-nos sentir como se realmente tivéssemos voltado cinco séculos atrás e acompanhássemos os nossos navegadores nas suas viagens.

A colocação de um padrão, o símbolo da presença portuguesa no Mundo. (foto do autor)

Depois da visita poderemos ainda deliciarmo-nos com uma bela refeição no Mundo dos Sabores, o restaurante daquele museu situado no último piso. Antes de sair é indispensável uma visita à Sphera Mundi, a loja onde, entre outras recordações, poderão procurar e adquirir as fotos da sua navegação pelo Parque Temático.

Esta é uma breve descrição do World of Discoveries, Museu Interactivo e Parque Temático, que propositadamente não alongo. Faço votos para que ela e as fotos que se juntam vos faça visitar aquele local; garanto-vos que não se irão arrepender.