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Fernando Paiva Leal

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Para que a memória não se perca

Passadas que foram as festividades sanjoaninas das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, os barcos rabelos que participaram na sua habitual regata anual regressaram ao letargo a que estarão condenados até às festividades do novo ano, altura em que poderão, novamente, “dar um ar da sua graça”.

Longe vão os tempos em que víamos essas emblemáticas embarcações do rio Douro navegarem a todo o pano, carregados de pipas do néctar produzido nas “terras quentes” do Alto Douro, a partir de uvas cultivadas em socalcos construídos à força de braços, que constituem ainda hoje panoramas soberbos, imponentes e impressionantes da paisagem ribeirinha, fazendo-nos esquecer que outrora foram autênticas “Terras do Demo”.

Rio Douro no Pinhão (foto do autor)

Para quem viveu nesses tempos de heroicas navegações, rio abaixo arrostando os perigosos rápidos e remoinhos que se formavam quando as águas selvagens encontravam algum penedo que lhes servia de empecilho, e cujo expoente máximo de perigosidade era o célebre Cachão da Valeira onde pereceu afogado o Barão de Forrester e onde Maria Adelaide Ferreira, a “Ferreirinha”, quase milagrosamente se salvou, ou rio acima, puxados à sirga quando o vento resolvia fazer greve e não enfunava as velas, não deixa de sentir alguma nostalgia. Pobre juventude hodierna que nunca pôde presenciar os barcos rabelos autênticos, não as suas cópias que estão hoje expostas na Ribeira de Gaia, como leões de circo domesticados, as velas brancas de linho cru substituídas pelas velas coloridas das caves de vinho do Porto!

Hoje já não é como outrora. A evolução das vias de comunicação e dos transportes fez os rabelos caírem paulatinamente em desuso; e as barragens que domesticaram o rio deram-lhes o fatal “golpe de misericórdia”. Ao fim e ao cabo, foram sofrendo a sorte de tantas outras embarcações tradicionais que desapareceram. Quem, nos nossos dias, pretender estudar estas emblemáticas embarcações, poderá apenas contar com os seus clones estacionados em frente aos armazéns das caves de vinho do porto na Ribeira de Vila Nova de Gaia ou no Museu do Douro na Régua. O próprio saber-fazer também, na prática, se desvaneceu, com o desaparecimento dos artífices que os construíam em qualquer praia das margens do rio próxima das povoações. Resta o estaleiro de Vila Nova de Gaia que conserta os existentes e que constrói os modernos rabelos que transportam os turistas em passeatas pelo Douro, entre o Freixo e o Cabedelo… quanto a saveiros, valboeiros, rabões e outras embarcações da mesma família… hoje nem vê-los!

Cachão da Valeira (foto do autor)

As imagens dos rabelos, nos seus melhores tempos, em que davam vida às águas do Douro, só se veem em fotografias, postais, livros antigos ou pinturas, nomeadamente azulejares, pois hoje, deles, só temos uma longínqua recordação. Das suas representações pictóricas felizmente restam, para memória, algumas belíssimas reproduções azulejares que ornamentam algumas estações de caminho-de-ferro da Linha do Douro, embora também exista uma reprodução, que infelizmente está muito degradada, num dos jardins principais da cidade de Lamego. Esta, com a agravante de se encontrar num deplorável estado de conservação e ser da autoria de quem decorou o átrio da sala de visitas da cidade do Porto, a estação de São Bento, ou executou os painéis do pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa… Jorge Colaço!

Desaparecidas estas embarcações emblemáticas, cuja origem não foi ainda estabelecida com absoluta certeza, torna-se mister dá-las a conhecer pelos registos que alguns pintores nos legaram, e que fábricas, algumas já desaparecidas, produziram.

Jorge Colaço foi um desses pintores, que de forma exímia dominou o desenho que utilizou na pintura e, muito em especial, no azulejo. Nasceu no Consulado de Portugal em Tânger, Marrocos, no dia 26 de fevereiro de 1868, tendo falecido em 23 de agosto de 1942 em Caxias. Estudou Arte em Madrid e em Paris, onde foi discípulo de Ferdinand Cormon. Trabalhou na fábrica de Louça de Sacavém desde os finais do século XIX até 1932 e colaborou depois na Fábrica Cerâmica Lusitânia, em Lisboa, que ficava próxima de onde hoje está o Campo Pequeno, as duas já desaparecidas. Foi da fábrica de Sacavém que saiu a azulejaria com que foi decorado o átrio principal da Estação de São Bento, no Porto. São cerca de 20.000 azulejos que cobrem uma superfície de cerca de 550 metros quadrados, instalados entre 1905 e 1906.

Não importa aqui mencionar os muitos sítios para onde trabalhou ou as técnicas de pintura inovadora que utilizou, mas referir apenas o que aos rabelos diz respeito.

Estação de São Bento, Porto (foto de Béria L. Rodríguez)
http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Beria

Em São Bento, Jorge Colaço soube casar de forma exemplar o revestimento azulejar com a arquitetura do átrio principal do edifício, nele avultando as cenas de carácter historicista, nas superfícies maiores, “casadas” com as cenas de carácter rural ou popular e, encimando todo o conjunto, um friso retratando a história dos transportes. Sublime, no entanto, é a forma como utilizou os vários matizes de azul nos azulejos que animam soberbamente o espaço.

Entre as cenas de carácter rural com que deparamos, logo de frente para quem entra, está o magnífico quadro representando os barcos típicos do rio Douro, os rabelos. Mas, curiosamente, estes figuram num plano recuado quando, logo em primeiro plano, se vê um exemplar, não de um rabelo, mas de uma outra embarcação, que um estudioso destas tipologias de barcos, Lixa Filgueiras, classificaria como o “barco das padeiras”, um barco afim dos rabelos. Sim, das padeiras, pois eram tripulados pelas padeiras que de Avintes vinham vender as suas “broas de Avintes” à cidade do Porto e que, no dizer de alguns, pediam meças aos homens no manejo dos barcos.

Jardim da República – Lamego (foto do autor)

Já em Lamego, no Jardim da República, mesmo em frente da Câmara Municipal, vamos encontrar mais uma bela série de azulejos decorando os encostos dos bancos incrustados nos muros de vedação, com cenas de carácter histórico intercalados com outros referentes a usos e costumes. Serão, talvez, dos primeiros tempos em que Colaço colaborou na fábrica Lusitânia de Lisboa, que se situava nas proximidades do Campo Pequeno e hoje desaparecida, pois o azulejo que representa um rabelo carregado de pipas e com vários indivíduos em cima da apegada está datado de 30 de Agosto de 1932, portanto do mesmo ano em que deixou Sacavém. É uma pena, porém, que esta belíssima série esteja tão danificada, a pedir urgentes obras de restauro!

Mas nem só Jorge Colaço pintou rabelos, e nem só em Lamego ou na estação de São Bento do Porto vamos encontrar reproduzidas estas emblemáticas embarcações, não sendo, por conseguinte, as únicas representações azulejares que delas nos ficaram. Na estação dos caminhos-de-ferro de Rio Tinto, já em plena Linha do Douro, voltaremos a marcar encontro com duas belas representações de rabelos, agora em plena navegação. Desta vez, deparámo-nos com azulejos de João Alves de Sá, datados de 1936 e executados na fábrica da Viúva Lamego de Lisboa.

Estação de Rio Tinto (foto do autor)
Estação de Rio Tinto (foto do autor)

 

 

 

 

 

Se um destes painéis nos mostra um rabelo de velas enfunadas pelo vento navegando num troço em que o rio se alarga, muito provavelmente entre Melres e Entre-os-Rios, trecho em que o rio se nos apresenta com estas características, o outro mostra-nos as embarcações mesmo em frente do Palácio do Freixo, obra-prima de Nicolau Nazoni já nos arredores próximos do Porto. Aqui, enquanto um rabelo navega a todo o pano, já no outro se arria a vela… Em qualquer dos casos, carregados com os inevitáveis barris de vinho generoso.

Finalmente, seria imperdoável não referir o magnífico revestimento em painéis de azulejo da estação de Caminho-de-ferro do Pinhão, em pleno coração da região demarcada das terras do “vinho do Porto”.

Estação do Pinhão (foto J. Gonçalves)

Não faltam aqui evocações não só desta região, como das vindimas e, como não poderia deixar de ser, dos barcos rabelos, quer em navegação quer em “faina de carrego”.

Se nas estações do Porto e de Rio Tinto as representações etnográficas se encontram intercaladas com cenas de carácter histórico ou historicista, regionais ou não, no Pinhão, pelo contrário, é a região que se celebra; e estes painéis, em tons fortes de azul debruado a amarelo da autoria de J. Oliveira e encomendados à Fábrica Aleluia de Aveiro em 1937, constituem um autêntico hino à paisagem do Alto Douro Vinhateiro, classificada como Património cultural pela UNESCO em 1 de junho de 2001.

Rio Douro no Pinhão (foto do autor)

Nestes painéis se retrata com felicidade esta zona particularmente representativa da paisagem da Região Demarcada do Douro, a mais antiga região vitícola regulamentada do mundo, onde a paisagem combina a natureza monumental do vale do rio Douro, de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a ação ancestral e contínua do Homem.

Esta relação umbilical da atividade do Homem com a natureza permitiu criar um ecossistema onde as características do terreno são exemplarmente aproveitadas, preservando-o da erosão ao modelá-lo em socalcos que lhe permitiram o cultivo da vinha onde se produz a uva que se transformará no celebrado Vinho do Porto.

Aqui, se num quadro o barco nos aparece quase confundido com a majestosa paisagem ribeirinha, em outro é-nos apresentado em todo o seu esplendor, de velas enfunadas pelo vento. E nem as fainas de carregamento de pipas são esquecidas nestes painéis, a par das paisagens agrestes do Alto Douro.

Carregando pipas – Estação do Pinhão (foto do autor)
Estação do Pinhão (foto do autor)

São, enfim, representações das paisagens de que Miguel Torga nos fala quando escreve que olha “de um dos seus altos mirantes este meu Doiro, único rio emblemático de Portugal, e a sucessão tumultuosa de montes que vai sulcando…” e do rio que descreve como “magro e viril, que ainda não há muito desci de barco rabelo e de credo na boca, a saltar de sorvedoiro em sorvedoiro …”É assim trazida à memória das gentes a existência de uma embarcação praticamente extinta, se não considerarmos os exemplares modernos que hoje se veem junto à Ribeira de Vila Nova de Gaia, e de uma época em que os rabelos davam vida a este importante curso de água. São cenas que deixam alguma nostalgia a quem viu ou conviveu com estas embarcações… cenas e embarcações que os jovens de hoje já não presenciarão na plenitude da sua faina.

Infelizmente!