1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>
Domingo 28 Maio

Pesadelo no Pacífico Norte

PDF Versão para impressão Enviar por E-mail


Esta história aborda um dos mais graves desastres marítimos, relacionados com a Marinha Mercante americana, após a segunda guerra mundial. Teve lugar durante um dos períodos mais conturbados da história moderna dos Estados Unidos, a guerra do Vietname, tendo sido sem dúvida alguma, o mais grave acidente sofrido por qualquer navio americano, durante aquele sangrento e longo conflito.

Tudo começou no dia 9 de Dezembro de 1969, na grande base naval de Bangor, uma das maiores bases de apoio logístico da Marinha dos Estados Unidos, situada na península de Kitsap no estado de Washington. A origem desta base remonta a 1942, quando se tornou uma das principais plataformas logísticas para o esforço bélico das operações no Pacífico, durante o último conflito mundial. Mais tarde, a sua importância manteve-se intacta durante a guerra da Coreia e continuou a ser preponderante durante todo o conflito do Vietname, até 1973, altura em que se transformou na "homeport" do primeiro esquadrão de submarinos nucleares da classe Tridente.

Voltemos àquele fatídico mês de Dezembro, ao encontro de um dos seus protagonista, o navio "Badger State", construído em plena 2ª guerra mundial, em simultâneo com outros milhares, não só para dar resposta ao pedido dramático de ajuda feito pela Inglaterra no início do conflito, ao ver dia após dia, a sua Marinha Mercante a ser dizimada a um ritmo alucinante, bem como, depois da entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1942, para este país poder ter a capacidade necessária para responder de forma adequada às mais diversas solicitações, nos inúmeros cenários em que se viu envolvido, especialmente na longa e duríssima campanha do Pacífico.

Badger1

O "Badger State" era um navio do tipo C2, construído em 1944 na Carolina do Norte. Fez parte de um lote de 180 navios construídos no mesmo período, que apresentavam, como características principais, uma arqueação bruta da ordem das 8200 toneladas Moorsom, com cinco grandes porões de carga, um comprimento entre perpendiculares de 140m, uma boca a rondar os 19,5m, além de um calado a chegar quase aos 7m.

Vários desses navios, durante a sua construção, foram convertidos em transporte de tropas de ataque, para o que foram equipados com duas turbinas a vapor General Electric a poderem debitar 6000hp, o que não só lhes proporcionava uma velocidade de cruzeiro acima da média, a rondar os 17 nós, podendo mesmo alguns chegar aos 19 nós, que era notável para a época, como também lhes conferia um alto rendimento no consumo de badger03combustível.

Após esta conversão, os navios ficaram com uma capacidade de transporte até 1500 homens, apoiados por uma tripulação fixa de 350 homens, simultaneamente, foi - lhes conferido um armamento suplementar que lhes proporcionou algum poder de fogo defensivo, especialmente contra aeronaves. O "Badger State" foi exactamente um desses navios C2, que foi seleccionado para sofrer esse tipo de conversão, foi nessa condição de navio misto, com o nome de "Starlight" e com o código militar na amura de AP-175, que iniciou a sua comissão de serviço, no Verão de 1944, a partir da famosa base de Pearl Harbour. Deu apoio a inúmeros desembarques anfíbios de tropas, nos mais variados e importantes cenários de guerra do Pacífico, nomeadamente ilhas Carolinas, Marshall, Guam, Nova Guiné, Leyte, Salomão etc. No final de todas estas missões, e ao ter conseguido abater 6 aviões inimigos, após o termino do conflito, a sua folha de serviço registava quatro "battle stars", para orgulho de toda a sua tripulação.

Depois deste breve olhar sobre o seu inestimável desempenho durante a segunda guerra mundial, se continuarmos a seguir o histórico deste heróico navio, vamos encontrá-lo em 1948, após a sua desmobilização dos serviços militares, a ser adquirido por uma das mais antigas e mais bem sucedidas empresas americanas, ligadas ao shipping, a famosa empresa Luckembach Steamship Co., que assim pôde reforçar a sua já poderosa frota com mais um belíssimo cargueiro misto, que passou então a chamar-se "Florence Luckembach" e tendo N.York como porto de registo.

Nos doze anos seguintes, vamos vê-lo a assegurar bons e prestáveis serviços aquela firma, na rendível linha costa a costa, N.York, S. Francisco, Los Angeles, até ser de novo vendido, em 1960 à firma States Marine Lines de N.York, a qual lhe deu a sua derradeira identificação "Badger State".

Após este rápido preâmbulo sobre o histórico do "Badger State" e da base naval de Bangor, regressemos novamente a 1969, ao conturbado período da guerra do Vietname e relembrar o desenrolar desse drama.

Naqueles dias, a situação militar no Vietname começava a tornar-se cada vez mais insuportável, em particular para as forças americanas, as quais na altura contavam com cerca de 540.000 homens no terreno. Depois de terem visto a estratégia militar do presidente Johnson, de bombardear massivamente todo o Vietname do Norte, na vã tentativa de separar as tropas Vietcongs, das suas bases rurais, ter fracassado completamente, estavam então a ver, o presidente Nixon, quase à beira de um ataque de nervos, a ter de continuar a mesma estratégia do seu antecessor, só que dessa vez, o alvo eram as famosas trilhas de Ho Chi Minh, que, nascendo no Laos e Cambodja, serviam como verdadeiras auto-estradas de abastecimento às tropas Vietcongues. Como é fácil perceber, para responder a todo esse esforço colossal de guerra, em que a principal arma utilizada continuava a ser os intensos e permanentes bombardeamentos aéreos, levados a cabo pela força aérea, tudo isto vai obrigar a que um outro exército, o da logística, não menos importante que aquele que está nas trincheiras, se movimente. É precisamente neste ponto que a Marinha Mercante dos Estados Unidos, mais uma vez respondeu presente e em força, quando em tempo útil, conseguiu estabelecer uma ponte gigantesca de abastecimento, especialmente entre os portos de Bangor, Seatle nos USA e Saigão e Danang no Vietname, tendo mobilizado para tamanha tarefa mais de 300 navios.

O "Badger State" era um destes navios, que naquele dia de Inverno de 1969, estava à carga na base de Bangor, tendo já carregado entre diversa carga geral, cerca de 10 toneladas de lubrificante, 11.000 barris de fuel-oil, 620 toneladas de água, e perto de 8900 bombas para força aérea de vários tamanhos, contendo estas no total, cerca de 2000 toneladas de TNT.

badger04Antes de zarpar de Bangor, o capitão do navio, Charles T. Wilson, expressou a sua preocupação a um dos encarregados da estiva do navio, o terceiro piloto Willie Burnette, fazendo-lhe ver que a carga de apenas 5000 toneladas que o navio no momento continha a bordo, o ia tornar muito instável, mais ainda, em particular, naquela época do ano, em que se sabia que tempestades violentas eram comuns naquelas bandas do oceano. Por esta razão, ordenou-lhe que contactasse urgentemente o serviço que regulava a distribuição das cargas nos navios, a fim de lhe poderem disponibilizar, pelo menos, mais 2000 toneladas de carga. Depois de ter sabido que já não havia mais carga destinada ao seu navio, o capitão Wilson, ordenou então que a carga fosse distribuída, o melhor possível, nos cinco enormes porões, obrigando para isso a utilização de várias toneladas de madeira, com a intenção de travar as centenas de paletes, em aço, que suportavam as famigeradas bombas "napalm" e não só.

Depois de ter despendido mais de cinco dias a distribuir a carga, a melhorar a estiva e a inspeccionar tudo o que era para inspeccionar, o capitão Wilson, na tarde do dia 14 de Dezembro de 1969, deu finalmente a ordem para suspender ferro, não sem antes ter traçado a rota, cuja primeira perna seria navegar na direcção das ilhas Aleutas, para em seguida e mantendo um rumo sudoeste, dirigir-se ao estreito de Luzon, entre Taiwan e o norte das Filipinas. Ninguém podia prever, naquele dia, que iriam todos começar a viver o maior pesadelo das suas vidas, do qual só uma minoria iria ser capaz de sobreviver. No dia seguinte a terem zarpado de Bangor, as condições de tempo foram-se degradando, cada vez mais, naquelas bandas do oceano. Na altura, o navio encontrava-se a cerca de 1500 milhas a noroeste do Hawai, e o seu casco começava já a ser violentamente fustigado por vagas alterosas, dando a entender à tripulação que a missão iria ser deveras penosa. Naquele dia, os nervos do capitão Wilson começaram realmente a serem postos à prova, quando começou a ver o seu navio a ser fortemente fustigado por ventos fortes e mar bastante alteroso, vindos do sector da popa, obrigando o navio a "caturrar" fortemente, bem como, simultaneamente, a ter de enfrentar vagas com cerca de 6 metros de altura, a entrarem pela amura de estibordo, para logo a seguir chegarem pela amura oposta. Este tipo de mar obrigava constantemente o timoneiro a horas extras, ao ter de mover a roda de leme, quer a um bordo quer a outro, permanentemente, na tentativa de colocar, da melhor maneira, a proa à vaga. Todo este esforço não impedia contudo, que o navio rolasse cada vez mais, chegando a marcar no inclinómetro, muitas vezes, marcas incríveis entre os 40º e os 45º, a ambos os bordos. Após várias horas de luta contra a intempérie, o capitão Wilson foi informado de que havia uma fuga de óleo nos mecanismos do leme, que acabavam de ceder, perante o esforço extra a que estavam a ser submetidos, há já longas horas, obrigando-o por isso, a reduzir ainda mais a velocidade do navio, de modo a permitir que fosse efectuada a necessária reparação de emergência.

Durante o período em que o principal objectivo era reparar aquela arreliadora avaria, o navio, ao ter de reduzir a velocidade drasticamente, foi duramente batido pelo mar cada vez mais alteroso. Perante este perigoso panorama e desesperado por encontrar melhores mares, o capitão Wilson decidiu fazer rumo mais a sul, só que os seus planos falharam, não tendo visto o tempo melhorar, antes pelo contrário, o navio rolava cada vez mais, perante ondas gigantescas que chegavam a ter 10m e muitas vezes 12 m de altura, fazendo com que algumas bombas, no porão nº3, começassem a soltar-se dos apoios, e, ao rolarem livremente, fossem martelar perigosamente o casco do navio. Perante este cenário dantesco, a tripulação foi obrigada a ir para dentro do porão, a fim de tentar estabilizar a carga, tentando substituir os calços de madeira que se iam estilhaçando, bem como as cintas de aço que arrebentavam a toda a hora. Lutando desta forma, mantiveram-se quase até à exaustão, durante os dois dias seguintes. Entretanto, o calendário marcava 19 de Dezembro, com o navio ainda a meio caminho, entre Seattle e o Japão, o capitão Wilson continuava a manter o rumo no quadrante sul, mas ao observar que o tempo, nessa direcção, não melhorava, como era suposto, contactou o Instituto Meteorológico da Marinha, em Alameda, Califórnia, tendo-lhe este respondido que, caso optasse pelo rumo oeste, iria encontrar melhores condições de tempo. O Capitão Wilson depois de ter seguido a indicação vinda de terra, após algumas horas de navegação com a agulha da bitácula na marcação oeste, observou, cada vez mais preocupado, que aquela opção não tinha sido a melhor, pois o tempo estava cada vez pior, com vagas de 12m a varrerem o navio de ponta a ponta, fazendo com que este rolasse cada vez mais, ao ponto de já terem destruído duas das baleeiras. Foi quando soube pelo imediato, que muitas das bombas, que deviam estar apoiadas nas suas paletes, estavam nessa altura soltas, em todos os cinco porões, chocando umas contra as outras, numa dança frenética e mortal, para em seguida martelarem incessantemente o casco do navio com um barulho ensurdecedor, provocando deste modo perigosas infiltrações, o que ia obrigando a tripulação a um esforço redobrado, ao terem de estar permanentemente a escorar os buracos, com madeira e cimento. Perante todo aquele cenário dantesco, o pobre do capitão Wilson começou a temer o pior para o seu navio e para a sua abnegada tripulação.

Entretanto, chega a véspera daquele negro Natal de 1969 para aqueles homens, depois de nove longos e terríveis dias de luta no mar. O capitão Wilson, ia vendo a sua tripulação completamente exausta, dentro daqueles imensos porões, há já vários dias sem dormir sempre a tentar, escorar bombas a pesarem 250kg, 350kg e mais, que a cada hora que passava, maior era o número delas a rolarem livremente em todas as direcções. Perante o agravamento drástico da situação a bordo, o capitão Wilson viu-se obrigado pela primeira vez, a pedir permissão de poder divergir o seu navio para o porto mais próximo da sua actual posição, com o propósito de tentar restabelecer o equilíbrio do navio há muito perdido, bem como a presença de um navio de socorro. Isso tornava-se imperioso, pois ele cada vez mais estava convencido que o fim do seu navio podia estar para muito breve. A resposta a este pedido, chegou rápida e lacónica, apontando a base de Pearl Harbor como o porto de destino a seguir. O dia 25 de Dezembro chegou com a pior prenda vinda dos céus, se é que tal ainda era possível acontecer aquela pobre tripulação, mas um segundo furacão acabava de passar por cima daquele infeliz navio, obrigando o capitão Wilson, perante o agravar sistemático da sua situação, a divergir para a ilha de Midway, uma vez que a base de Pearl Harbor, encontrava-se ainda a 1600 milhas a sudoeste da sua actual posição.

Perante o aumento incrível do balanço a que o navio estava agora a ser sujeito, o capitão Wilson ordenou a toda a sua tripulação para sair de dentro dos porões, afim de evitar algum possível esmagamento, uma vez que as bombas nessa altura, rolavam livremente no fundo dos porões, como se de simples bolas de praia se tratassem. Pediu-lhes em seguida, para que através das escotilhas, atirassem todo o tipo de materiais, como paletes de madeira, colchões, sofás, cadeiras etc. a fim de servirem como obstáculos, e deste modo pudessem travar ou abrandar o baile mortal das bombas, que todos estavam a presenciar, completamente aterrorizados. Simultaneamente, o capitão Wilson, compreendendo que a situação a bordo estava já fora de controle, e acreditando que o fim do seu navio era uma questão de tempo, viu-se obrigado a emitir a ordem que nenhum comandante gosta de dar, a de ordenar o seu radiotelegrafista para que este, de imediato, lançasse um pedido de SOS. Além das estações de terra da Marinha e da Guarda-Costeira, que de imediato responderam ao pedido de socorro, enviando para a zona um rebocador e um avião HC-130 de busca e salvamento, vários foram também os navios mercantes, que após os alarmes de bordo terem sido activados pelo pedido de socorro do capitão Wilson, imediatamente desviaram as suas rotas, e a máquinas esforçadas naquelas condições de tempo, navegaram o mais depressa possível na direcção do "Badger State", nomeadamente, os cargueiros americanos "American Dragon", "Flying Dragon", "Columbia Beaver" e outros. Porém vai ser o "Khian Star", um cargueiro grego que naquela altura se dirigia para o Japão, ao encontrar-se apenas a 30 ou 40 milhas do "Badger State", que irá ter o maior protagonismo em todos os acontecimentos que se desenrolaram em seguida. Entretanto, a bordo do "Badger State", continua toda a tripulação em desespero, a lançar para dentro dos porões tudo o que tinha à mão, a fim de minimizar os embates das bombas, que a ondulação cada vez mais forte provocava. O capitão Wilson antevendo que qualquer daquelas bombas que corriam livremente nos porões, poderiam deflagrar a qualquer instante, e transformar em seguida o navio numa gigantesca bola de fogo, mandou reunir a tripulação, e comunicou-lhes que gostaria de ficar com quatro voluntários a bordo, a fim de tentar salvar o navio. Quanto à restante tripulação tinha autorização para abandonar o navio, uma vez que o "Kian Star" já se encontrava à vista no horizonte e seria uma questão de duas ou três horas até ser recolhida. A resposta veio vigorosa e pronta, todos os seus elementos se ofereceram para ficar no navio ao lado do seu capitão. Só que o inevitável aconteceu, uma das maiores bombas carregadas a bordo, pesando cerca de 1000Kg, acabava de explodir no porão nº 5, depois de ter embatido fragorosamente de encontra o casco, lançando na atmosfera toda a espécie de estilhaços através da escotilha arrebentada e de ter aberto um buraco no casco de 4m por 2m, por onde o mar, na sua fúria destruidora, já estava a penetrar. O capitão Wilson, após esta explosão, e acreditando que outras adicionais poderiam ocorrer a qualquer momento, deu de imediato a ordem de abandonar o navio. O chefe de máquinas Bordash correu até à praça das máquinas, deu ordens para que esta fosse de imediato desligada e em seguida todos deveriam ocupar o único salva-vidas ainda intacto a bordo, aquele que se situava à ré, por estibordo.

Trinta e cinco homens, depois de terem colocado os respectivos coletes salva-vidas, saltaram nervosamente para dentro da única baleeira ainda operacional, das quatro que inicialmente havia a bordo.

O capitão Wilson, o imediato Leonard Cobbs, e o terceiro piloto Burnette na companhia de mais dois homens, ficaram a bordo, com o propósito de ajudar a arrear a baleeira. Ao fim de longos e penosos minutos, a experimentarem enormes dificuldades, devido às ondas alterosas que por vezes assaltavam o navio, sempre acompanhadas de fortíssimas rajadas de vento, lá conseguiram colocar a baleeira no mar, não sem esta ter chocado várias vezes contra o casco do navio, tendo numa dessas ocasiões, o electricista Konstantinos Mpoutalis ficado gravemente ferido numa perna.

Incrivelmente, o azar continuava a perseguir aqueles homens, de tal modo que a baleeira empurrada pelos ventos fortes e pelo mar alteroso, foi-se colocar junto à linha de água do navio, mesmo por baixo do enorme buraco escancarado no costado, ocasionado por aquela grave explosão ocorrida a bordo instantes antes, para logo a seguir o impensável acontecer, quando através daquela enorme abertura, uma outra bomba de 1000kg saiu projectada, devido ao forte balanço que o navio continuava a sofrer, indo em seguida acertar em cheio na infeliz baleeira, onde vários homens foram literalmente esmagados, tendo os restantes sido projectados ao mar, depois da baleeira se ter afundado. O capitão Wilson e os restantes quatro homens que tinham ficado a bordo do "Badger State", assistiram a tudo aquilo completamente horrorizados. Viram os seus camaradas a lutar contra ondas que chegavam a ter 8m de altura, com uma temperatura a rondar os10ºc, a única coisa que podiam fazer na altura, era atirar ao mar jangadas insufláveis, na vã tentativa que alguma pudesse ficar perto dos seus desventurados companheiros, mas nem isso eles conseguiram, pois o vento forte logo se encarregou de as afastar para bem longe dali.

badger05

Entretanto no "Khian Star", onde a tripulação tinha presenciado a explosão meia hora antes, depois de chegar à cena do desastre e ao acercar-se cuidadosamente do "Badger State", rapidamente começaram todos a presenciar um verdadeiro filme de terror, pois além dos oito homens que ainda lutavam contra os elementos em fúria, agarrados desesperadamente aos destroços da baleeira, localizaram outros a tentar desesperadamente afastarem-se do "Badger State" pensando que este poderia explodir a qualquer minuto, para em seguida desaparecerem no mar revolto, vencidos pelo cansaço e pelo frio. O clímax de todo aquele filme tenebroso, chegou de uma forma que ninguém podia prever, nem mesmo os mais veteranos, quando estupefactos repararam que um bando de enormes albatrozes, depois de voarem em círculo por cima dos náufragos, picavam velozmente sobre eles, atacando-os em seguida na cabeça. Nesta altura, um C130 da Guarda Costeira Americana acabava de chegar ao local do sinistro, e após ter executado alguns voos rasantes, foi largando várias balsas salva-vidas, as quais para desespero de todos, eram rapidamente levadas para bem longe dali, devido ao forte vento que soprava na região, excepto uma, que ao ter caído junto aos destroços da baleeira, permitiu  que o cozinheiro Donald Byrd, por ter reagido rapidamente, conseguisse agarra-la pelo cabo da âncora flutuante, permitindo assim, que ele e mais sete outros companheiros pudessem ter sido salvos. O capitão Niro do "Khian Star" ordenou que redes fossem colocadas no costado do seu navio, a fim de facilitar a recolha dos náufragos, bem como vários foram os cabos lançados pontualmente na direcção daqueles que ainda nadavam na direcção do navio, com a esperança de poderem ser recolhidos. O capitão Wilson e o terceiro piloto Burnette estavam no grupo destes que foram salvos, depois de se terem lançado ao mar, após a chegada do "Khian Star". Além destes, foram também recolhidos os oito homens que estavam dentro da jangada lançada pelo C130, bem como outros quatro que foram encontrados a nadar, um deles estando já a cerca de cinco milhas do "Badger State". Mesmo antes do "Khian Star" poder voltar ao seu rumo anterior em direcção ao Japão, ainda houve tempo para um enorme acto de heroísmo, quando Ioannis Kantziakis um dos membros da tripulação do navio grego, ao ter avistado um náufrago a ser atacado por um enorme albatroz, depois de ter atado um cabo à sua cintura, lançou-se ao mar, nadando vigorosamente na direcção do pobre náufrago, mas ao chegar junto a ele, constatou, tristemente, que ele já estava morto. Depois de ter passado a área a pente fino, o capitão Niro, ao fim de algumas horas de buscas incessantes, agora com a companhia de outros sete navios que entretanto tinham convergido para aquela zona do oceano, acreditando que com aquelas condições de mar seria impossível encontrar mais sobreviventes, deu ordens para rumar de novo ao Japão, levando consigo 14 sobreviventes, a quem imediatamente ofereceu comida e roupas quentes. Ficou-se a saber que tinham morrido afogados, 25 homens, tendo a posteriori morrido mais um, este já a bordo do "Khian Star", vítima de hipotermia. Este desastre, considerado o mais grave em termos de perdas de vidas humanas, a bordo de um simples navio pertencente à Marinha dos Estados Unidos, durante o longo conflito da guerra do Vietname, deu a perceber que o maior inimigo dos navios americanos naquele conflito, não tinham sido as minas ou os rockets, que as tropas vietcongues tinham usado, principalmente na zona de aproximação ao grande porto de Saigão, mas sim o sempre imprevisível e implacável oceano e restantes elementos da natureza, a ditarem as suas terríveis leis.

Quanto ao casco do "Badger State" que, completamente à deriva, continuava a arder, e de onde de tempos a tempos se podiam ver grossos rolos de fumo a saírem, acompanhados de fortes explosões em cadeia, perante todo aquele cenário de destruição, em que uma forte explosão podia acontecer a bordo a qualquer instante, foram enviadas ordens restritas ao capitão do rebocador "Abaki", que logo a seguir ao primeiro pedido de SOS lançado pelo "Badger State", tinha sido enviado, de emergência, da base de Pearl Harbor, com a finalidade de tentar salvar o navio e a carga, para nada arriscar em qualquer possível tentativa de reboque. O capitão do "Abaki" assim fez, e ao aperceber-se que o "Badger State" começara a afundar-se lentamente, nos dez dias seguintes após sua chegada, limitou-se a ficar perto daquele enorme casco moribundo, avisando toda a navegação do enorme perigo em que ele se transformara, até ao momento em que ele foi engolido inexoravelmente pelas ondas. Como sempre acontece, após qualquer desastre marítimo envolvendo navios americanos, uma comissão de inquérito, foi imediatamente constituída, por exigência da Guarda Costeira, a fim de tentar encontrar as causas e possíveis responsáveis do acidente. No final de algumas semanas de intenso trabalho, a comissão de inquérito chegou à triste conclusão de que embora as condições de tempo que o "Badger State" encontrou, na sua derrota em direcção ao oriente, tivessem sido terríveis, a causa principal do desastre devera-se à fraca supervisão feita ao grupo de estivadores, que ao não serem profissionais, estivaram as bombas mais pesadas por cima das mais leves, utilizando também materiais pouco aconselháveis, como madeira, para servirem de calços às pesadas paletes de aço, que suportavam bombas que chegavam a pesar 1000KG.



Luis Filipe Morazzo
Sobre o autor:

 

Navios de Cruzeiro

MSC Melody MSC Armoria Princess-Daphne MSC Lirica MSC Opera Athena MSC Sinfonia MSC Fantasia Princess-Danae