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Domingo 24 Set

As Cruzes de Cristo

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cruzcristoNuma altura em que a pirataria marítima voltou a ser um tema actual, e fugindo um pouco às minhas habituais colaborações, gostaria de introduzir uma questão que não é pacífica entre os estudiosos nesta matéria.

Pouco divulgada na historiografia tradicional portuguesa, uma das actividades que os portugueses realizavam ao longo da costa africana Ocidental, para além da exploração, era o ataque à navegação muçulmana, do mesmo modo que estes a realizavam contra a navegação cristã que cruzava essas águas.

Na condução desse tipo de acções, e numa altura em que havia pouca diferença entre um navio de guerra e um mercante - ao contrário do que ocorre presentemente, em que os primeiros são cinzentos e eriçados de armas - importava tentar passar o mais discretamente possível, até o atacante se encontrar suficientemente perto para não deixar escapar a presa.

 

É exactamente o que acontece actualmente no Índico, em que a proliferação de embarcações ligeiras, habitualmente utilizadas pelos actuais piratas e também pelas populações locais, dificulta uma acção preventiva, com o risco de ser atacada alguma embarcação "inocente". Neste princípio, não parece que os actuais piratas utilizem qualquer tipo de dispositivo que facilite a sua identificação.

Neste seguimento, será que os navios portugueses utilizavam velas com as famosas "Cruzes de Cristo" pintadas, tal como surgem em algumas fontes iconográficas e que acabou por tornar-se quase uma crença comum?

Efectivamente, a representação desse distinto símbolo nas velas dos navios surge, principalmente, em representações de navios que ilustram alguma cartografia e obras antigas mas, também, existem algumas referências em alguns textos literários. É o caso do imenso volume de documentos relativos à usualmente conhecida como A Invencível Armada, em 1588, que referem que artistas locais pintaram nas velas dos navios portugueses cruzes de Cristo e também cruzes de Calatrava e de Santiago nos navios de Castela.

Assim, podemos afirmar que as cruzes nas velas não eram apenas utilizadas nos navios que ilustravam a antiga cartografia mas, também, em situações especiais, quando era importante impressionar os inimigos.

Mas será que eram utilizadas habitualmente, nomeadamente na carreira da Índia, como parecem mostrar algumas das obras sobre estas armadas?

Já vimos que tacticamente não havia qualquer interesse e, ainda menos, quando passaram a ser os nossos navios alvo dos ataques dos corsários protestantes. Igualmente, nos relatos de viagens ingleses, que por diversas vezes se cruzam no mar com navios portugueses, nunca encontramos qualquer referência às mencionadas cruzes.

O mesmo ocorre nos relatos que diversos estrangeiros efectuaram sobre navios portugueses. Já referem, contudo, que os navios lusos eram reconhecidos pela cor branca dos cabos de cairo colocados no apetrechamento no Oriente. Não parece estranho haver o cuidado em referir a cor do massame de um navio e não as imponentes cruzes vermelhas nas velas?

Além disso, quando chegaram, inclusive, a ser utilizadas portas de lemes abandonadas nas praias de Goa nas naus que iam largar para Portugal, de modo a reduzir custos, será que se ia gastar grandes verbas a pintar umas velas?

Não me parece que fosse o caso e, infelizmente, neste caso a arqueologia subaquática não nos pode auxiliar.



Augusto Salgado
Sobre o autor:
Oficial da Armada e colaborador do DANS

 

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