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Sábado 22 Jul

Há Quinhentos Anos - 3 de Fevereiro de 1509

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BATALHA-DE-DIU-1-SITEQuando os navios portugueses entraram no Oceano Índico, no ano de 1498, já ali se encontrava em funcionamento uma vasta rede de linhas de transporte marítimo, de que eram senhores os mercadores Muçulmanos, descendentes dos navegadores árabes do Iémen e de Omã que, desde há séculos, se tinham fixado na orla daquele oceano.
A mais importante dessas linhas de navegação era a que ligava Calicut com o mar Vermelho, através da qual eram transportadas as especiarias, sobretudo a pimenta, do Sul da Índia para Judá, uma cidade próxima de Meca, que fica sensivelmente a meio daquele mar. Como não era possível navegar com naus até Suez, por na metade norte do Mar Vermelho o vento soprar durante todo ano dessa direcção, a pimenta era descarregada em Judá e depois transportada em enormes caravanas de camelos até Alexandria, na costa do Mediterrâneo. (Convirá dizer que para transportar a carga trazida por uma pequena nau de trezentos tonéis eram precisos mais de dois mil camelos!). No seu longo percurso, por mar e por terra, desde Calicut até ao Mediterrâneo, os mercadores eram obrigados a pagar numerosas taxas aos senhores das cidades por onde passavam, que daí auferiam elevados lucros. Os principais eram o Samorim de Calicut e o Sultão Mameluco do Cairo. No fim da linha dos que enriqueciam à custa do comércio da pimenta estavam os Doges de Veneza, que a distribuíam por toda a Europa. (Será também oportuno dizer que os Mamelucos eram um povo oriundo da Ásia Central, que se tinha apoderado do Egipto em 1250 e a seguir da Síria. O seu império só em 1517 viria a ser conquistado pelos Turcos. Os Portugueses chamavam «Rumes» indistintamente aos Mamelucos e aos Turcos).
Como seria de esperar a nossa entrada no Índico veio estragar o negócio a todos eles que, naturalmente fizeram tudo quanto estava ao seu alcance para nos expulsar. Por sorte para nós, algumas das cidades da costa do Malabar, embora vassalas do Samorim de Calicut, funcionavam como reinos independentes, e aproveitaram-se da nossa presença para se libertarem da sua tutela, passando a vender-nos directamente a pimenta, com o que lucravam eles, que a vendiam mais caro, e lucrávamos nós que a comprávamos por um preço irrisório, comparado com aquele por que era vendida na Europa pelos Venezianos. Dessas cidades, a que maior e mais fiel apoio nos prestou foi a cidade de Cochim que se tornou o centro das nossas actividades comerciais, políticas e militares na Índia até à conquista de Goa por Afonso de Albuquerque em 1510.
Por tudo isso, praticamente desde a chegada de Vasco da Gama a Calicut em 1498, até 1531, os Portugueses estiveram sempre em guerra com o Samorim de Calicut. No âmbito dessa guerra tiveram lugar grandes batalhas, por terra e por mar, nas quais alcançamos sempre espantosas vitórias, graças a possuirmos melhores canhões, navios mais resistentes e melhores armaduras, capacetes e espadas, bem como uma tropa de élite, constituída pelos fidalgos, criados desde tenra idade no culto da Glória e da Honra, e no manejo das armas. Desenganado de nos poder vencer, o Samorim apelou para o auxílio do Sultão do Cairo.
Tanto este como os Doges de Veneza , cujos rendimentos haviam caído em flecha, não queriam outra coisa senão expulsar-nos do Índico e, logo trataram de organizar em Suez, com o auxílio dos Turcos, uma armada a isso destinada. Ao contrário das armadas organizadas pelo Samorim de Calicut, esta era constituída por navios tão bons como os nossos, equipada com canhões tão bons como os nossos e guarnecida com gente de guerra tão bem armada e tão experiente como a nossa. Essa armada, sob o comando de Mir-Hocem, passou à Índia em finais de 1507, onde se juntou em Diu à armada desta cidade de que era senhor Meliqueaz.
Este não era inimigo dos Portugueses, antes pelo contrário, estava interessado em comerciar connosco. Mas, sendo muçulmano, não se pôde furtar à obrigação de ajudar os seus correligionários. Em Março de 1508, as armadas de Mir-Hocem e de Meliqueaz travaram uma primeira batalha com os Portugueses, em Chaul, na qual foi morto D. Lourenço de Almeida, filho do Vice-Rei D. Francisco de Almeida, que era o Capitão-Mor da armada portuguesa. No final dessa batalha, as armadas de Mir-Hocem e de Meliqueaz retiraram para Diu, e a portuguesa, que perdera uma nau afundada pelas fustas daquela cidade, para Cochim.
Ao saber da morte do filho, D. Francisco de Almeida ficou como louco de dor e não pensou noutra coisa senão em vingá-la. E em Dezembro desse mesmo ano, largou de Cochim, com uma armada de cinco naus grandes, quatro naus pequenas, quatro caravelas redondas, duas caravelas latinas, duas galés e um bergantim, disposto a não deixar com vida um único «Rume». E para evitar que estes se pudessem escapar para o Mar Vermelho antes da sua chegada, ao passar por Bombaim, enviou uma carta a MeliqueazBATALHA-DE-DIU-2-SITE avisando-o de que, se ao chegar a Diu os «Rumes» não estivessem lá, lhe arrasaria a cidade!
A partir daí, tanto Mir-Hocem como Meliqueaz, compreenderam que a batalha era inevitável e que seria uma batalha sem quartel. A armada do primeiro era composta por quatro naus, dois galeões, duas galés e quatro galeotas; a do segundo, por quatro naus, uma das quais de grandes dimensões, e por cerca de cinquenta fustas com boa artilharia, além de cinquenta paraus de Calicut de reduzido valor militar.
Mir-Hocem era de opinião de que se devia dar batalha aos Portugueses junto à praia a norte de Diu, com os navios de alto bordo amarrados com dois ferros e uma espia passada da popa para terra. Os navios de remo ficariam nos flancos. Depois de os navios de alto bordo portugueses terem aferrado os seus e os de Diu, as fustas e os paraus atacá-los-iam em massa pela popa, que era a sua parte mais fraca, e afundá-los-iam a tiro de canhão.
Mas Meliqueaz opôs-se terminantemente, por recear que Mir-Hocem, uma vez fora do canal, aproveitasse qualquer pretexto para fugir para o Mar Vermelho, deixando-o sózinho a contas com o Vice-Rei. Os navios de alto bordo seus e dos «Rumes» ficariam sim, amarrados com dois ferros e uma espia passada para terra, mas dentro do canal. Os navios de remo ficariam mais para dentro deste. Depois de os navios de alto bordo portugueses terem aferrado os seus, as fustas e os paraus avançariam em massa, atacariam aqueles pela popa, e afundá-los-iam com a artilharia, tal como tinham feito em Chaul à nau de D. Lourenço de Almeida. Mir-Hocem nada mais pôde fazer senão concordar.
A armada portuguesa fundeou ao largo de Diu na tarde de 2 de Fevereiro de 1509. À noite, depois de observado o dispositivo inimigo, D. Francisco de Almeida reuniu o Conselho dos capitães dos navios para assentar no plano de batalha a utilizar no dia seguinte. Foi então acordado que, aproveitando a enchente, os nossos navios entrariam no canal de Diu, formados em coluna e, depois de disparada uma única salva de artilharia, aferrariam os navios de alto bordo dos «Rumes» e de Cambaia, com excepção de um grupo, constituído pela Frol de la Mar (a capitânia de D. Francisco), o seu batel armado com uma bombarda grossa, as duas caravelas latinas e as duas galés, que iria colocar-se a meio do canal, a Oeste dos navios de alto bordo, a fim de impedir, com o fogo da sua artilharia, que os navios de remo inimigos os pudessem vir atacar pela popa.
No dia seguinte, 3 de Fevereiro, teve lugar a batalha em que tudo funcionou conforme havia sido magistralmente planeado por D. Francisco de Almeida e os seus capitães. Os navios portugueses, antes de aferrar os contrários, dispararam toda a sua artilharia à queima-roupa, afundando desde logo duas naus dos «Rumes» e uma de Cambaia. Seguiram-se os terríveis combates à abordagem, em que foram tomadas as duas restantes naus dos «Rumes», os dois galeões e as duas galés, bem como mais duas naus de Cambaia. A última, a de grandes dimensões, em que os portugueses não conseguiram entrar, acabou por ser afundada a tiro de canhão.
Ao mesmo tempo que isto se passava, tinha lugar o combate de artilharia entre o grupo de interdição e os navios de remo de Diu e de Calicut. Como o canal tinha um pouco menos de duzentos metros de largura estes só podiam avançar numa frente de doze, o que impedia que pudessem tirar partido da sua esmagadora superioridade numérica. Os navios portugueses deixaram-nos aproximar e, quando eles chegaram a curta distância, dispararam uma devastadora salva de artilharia de mais de cinquenta canhões, entre bombardas grossas e miúdas. A maior parte das fustas que vinham à frente ficaram destroçadas e atravessaram-se, embrulhando-se umas nas outras e impedindo a passagem das que vinham atrás. E enquanto umas e outras se reordenavam, os portugueses tiveram tempo para voltar a carregar os seus canhões e disparar segunda salva. O plano de Meliqueaz falhara por completo; a vitória dos Portugueses estava assegurada.
Os paraus de Calicut logo que se aperceberam disso puseram-se em fuga saindo pela outra extremidade do canal; as fustas de Diu e as galeotas dos «Rumes», depois de algumas terem sido afundadas e a maior parte das outras terem ficado muito destroçadas, retiraram para junto da cidade. Dos navios de alto bordo inimigos não escapou nenhum. Dos portugueses nenhum sofreu estragos significativos. Os inimigos sofreram cerca de três mil mortos e um número muito maior de feridos. Dos oitocentos homens que faziam parte da armada de Mir-Hocem, só ele e mais vinte e cinco conseguiram escapar fugindo para Cambaia. Todos os outros foram mortos em combate, ou feitos prisioneiros, e depois barbaramente chacinados por ordem de D. Francisco de Almeida, que assim vingou amplamente a morte de seu filho. Dos portugueses morreram trinta e dois e ficaram feridos mais de trezentos.
Curiosamente, também Meliqueaz ficou vencedor, uma vez que, apesar de derrotado, alcançou todos os seus objectivos: viu-se livre dos «Rumes», fez a paz com os Portugueses, ficou com a cidade intacta e, apesar de ter dado autorização a D. Francisco para construir uma fortaleza em Diu, este, com falta de visão estratégica, declinou a oferta!
É certo que em 1538 os «Rumes» voltaram a Diu com uma armada quatro vezes mais forte que a de Mir-Hocem. Mas nessa altura já os Portugueses estavam solidamente instalados na Índia. Tinham uma grande fortaleza naquela cidade e uma armada de cerca de duzentos navios. Depois de terem perdido a maior parte dos seus soldados na tentativa frustrada de tomar a nossa fortaleza, os navios dos «Rumes», ao saberem que a nossa armada se estava aproximando, fugiram espavoridos para o Mar Vermelho.
Por tudo isso não pode haver dúvidas de que a batalha naval de Diu de 1509 foi uma das batalhas mais importantes da nossa História e também um das mais importantes da História Universal, não só porque consagrou definitivamente Portugal como uma grande potência, mas também porque abriu a porta para o domínio do Oriente pelos Europeus, que só viria a terminar com a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Saturnino Monteiro
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