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Quarta 22 Nov

Pilotos de Barra da Figueira da Foz - A Vida entre o Mar e a Terra


PILOTOS-1-SITEOs portos comerciais têm características muito móveis, não sendo nenhum igual. Torna-se impossível a um comandante de um navio conhecer porto a porto, logo compete ao piloto de barra orientar o comandante para que as manobras se concretizem com sucesso. Falam entre si em inglês, os termos técnicos são obrigatórios, porém o risco pode aumentar se a comunicação não for eficaz.
No porto comercial da Figueira da Foz existem dois pilotos, os Ctes. São Marcos e Fernando Lé. Substituem-se um ao outro 365 dias por ano, desde o nascer do sol até à meia noite. Ajudam a manobrar quase 400 navios por ano. Até agora o sucesso é total, mas o risco está sempre presente.
A Revista de Marinha falou com um deles, o Comandante São Marcos.

RM: Para quem não conhece, explique-nos qual a sua actividade. Em que consiste?
Comandante São Marcos: É impossível a um comandante de um navio conhecer os portos todos, as suas características como os fundos, correntes e ventos. Cabe ao piloto de barra assessorar o comandante do navio, pois ele conhece todas as características do porto. Enquanto o comandante conhece a embarcação, o piloto de barra conhece o porto. As funções do piloto passam por dar ao comandante as informações para o navio entrar e saír em segurança. Por outro lado, o navio quando chega é um risco.
Há a necessidade de vigilância sobre a carga que lá vem. Temos de avaliar se o navio tem os standards necessários para a entrada.
RM: Já assistiu a uma situação destas?
CSM: Quando isso não acontece, como já assisti, temos entidades próprias que tratam da situação - a Port State Control. Nós averiguamos a situação, se encontrarmos uma anormalidade canalizamos a informação para as entidades competentes.
RM: Há quanto tempo exerce a profissão?
CSM: Exerço há 12 anos, 10 dos quais no porto da Figueira da Foz.
RM: Qual a parte mais negativa da sua profissão?
CSM: Não posso considerar que sejam pontos negativos, mas há situações de risco, de adrenalina. Mas assumir os riscosPILOTOS-2-SITE calculados faz parte da minha profissão. Acidentes ambientais, acidentes com os navios são casos que podem acontecer. Como são os pilotos que fazem o aconselhamento das manobras e as embarcações são difíceis de manobrar, existem sempre riscos, que temos de calcular. Mas é impossível viabilizarmos o porto sem riscos de acidentes. Eles existem, são é calculados! No meu caso já tive muitos sustos, nunca tive um acidente.
RM: Mas é impossível eliminar os riscos?
CSM: Nós podemos diminuir consideravelmente o risco. Por exemplo, podíamos decretar que no porto só há tráfego de Maio a Outubro e com navios no máximo de 30 metros de comprimento. Isto diminui o risco consideravelmente, mas comercialmente é inviável. O meu trabalho passa por assumir os riscos calculados ao mesmo tempo que se potenciam os recursos do porto, de forma a tornarmo-lo rentável. Temos de minimizar os riscos e optimizar o porto. É nossa função avaliar os riscos e minimizá-los sem esquecer a optimização dos recursos.
RM: Em média quantos navios atracam por ano?
CSM: Posso adiantar que tivemos cerca de 350 a 400 manobras realizadas por mim e pelo outro piloto de barra, o Fernando Lé. RM: Mas o seu trabalho depende das condições marítimas? Os pilotos de barra estão sujeitos às decisões da Capitania?
CSM: Embora caiba à Capitania tomar decisões sobre as condições marítimas, se estão favoráveis ou fechadas, em termos de navios comerciais compete - nos a nós tais decisões. Nós é que julgamos as condições, é a nossa opinião que conta para a decisão se um navio entra, ou não entra. Contudo, há um intercâmbio muito grande entre nós (IPTM) e a Capitania.
RM: Quanto tempo em média demora a atracar um navio?
CMS: Por norma, entre 45 minutos a 1 hora. Mas eventualmente poderá demorar 30 minutos, ou mais de uma hora. Depende do local onde atraca, das condições, do espaço de manobra.
RM: Do seu ponto de vista, qual o estado do porto comercial da Figueira da Foz?
CSM: A Figueira tem muito para andar, e tem muitas expectativas em termos futuros. Estamos a desenvolver-nos bastante com as condições que temos e se houver as melhorias em perspectiva, melhor. O porto tem aumentado a navegação, um aumento de 15% ao ano, nos últimos dois anos, sem que se tenham feito melhorias. Se houver algum investimento, o porto poderá potenciar o desenvolvimento na Região Centro. Embora não possam atracar navios de grande porte, este porto pode trazer muitos benefícios. Penso que não temos a necessidade de ter outro grande porto, como é o de Sines. O Porto da Figueira funciona como um "short sea", que acolhe navios de curta distância. Com a degradação do transporte rodoviário, pelo impacto ambiental negativo e não só, estes portos estão em franca expansão. Dentro da conjuntura da União Europeia em que é necessário o transporte de cargas entre os países vizinhos, como Portugal, Espanha e França, o porto figueirense pode tornar-se muito importante, para os transportes marítimos de curta distância. Obviamente que o facto de se estar a investir nas vias de comunicação rodoviárias circundantes à Figueira também optimizará mais o tráfego do porto.
RM: É uma profissão que exige preparação física. Não o preocupa a idade avançada com que atingirá a reforma?
CSM: Efectivamente o facto de saltarmos da lancha para o navio necessita de preparação e hábito. Um piloto de barra necessita de estar em boa forma física para exercer a profissão, tanto que até há um tempo atrás só se podia ser piloto até aos 35 anos, devido à preparação física. Em relação à reforma, considero que a antiga legislação era a mais adequada, pois os pilotos podiam reformar-se aos 60, mas quem quisesse ia até aos 65 anos. Mas iam porque tinham condições. Agora a nova lei, trazendo a obrigatoriedade até aos 65 anos é muito penalizadora, pois a partir dos 60 anos somos mais vulneráveis a doenças.

 

 

São Marcos
Formação na Escola Náutica
da Marinha Mercante, no curso
superior de Oficial de Pilotagem.
Andou embarcado, como comandante
mas rápido o apelo de piloto
de barra falou mais alto, isto
em 1995! Dois anos mais tarde
transferiu-se para o Porto da Figueira
da Foz. Há 12 anos que a
sua vida é ajudar alguns "monstros
do mar" a atracar.


Fernando Lé
Com 44 anos, o Comandante
Fernando Lé,
dedica a sua vida ao mar
desde 1984. Em 1996
transferiu-se para piloto
de barra, em Lisboa.
Depois de quatro anos
naquele porto, veio para
a Figueira, até porque é
um figueirense.


 


 

 

 


Jorge Gomes
Sobre o autor:

 

Navios de Cruzeiro

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