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Quarta 28 Jun

Quatro navios com o nome de “CARVALHO ARAÚJO”


Não restam quaisquer dúvidas que o primeiro-tenente Carvalho Araújo, comandante do patrulha de alto mar "AUGUSTO DE CASTILHO", foi o herói máximo da Armada Portuguesa durante a Grande Guerra, sendo por demais conhecido o episódio do combate com o cruzador-submarino alemão "U-139", em que Carvalho Araújo deu a sua vida para salvar o paquete "SAN MIGUEL", da Empresa Insulana de Navegação, por si escoltado, que tinha a bordo 54 tripulantes e transportava 206 passageiros e muitas toneladas de carga.
Por tudo isso foram justas homenagens atribuir o seu nome, em épocas diferentes, a quatro navios Portugueses, dois de guerra e dois de comércio.
Relembrar aqui, nas páginas da Revista de Marinha, esses 4 navios, é a nossa maneira de, embora modestamente, homenagear o insigne Marinheiro e o intrépido Português que se chamou José Botelho de Carvalho Araújo.

 

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I

Aviso de 2ª Classe "CARVALHO ARAÚJO"

Começou por ser o sloop "JONQUIL" da Armada Britânica, tendo 900 toneladas de deslocamento standard e como armamento principal duas peças de artilharia de 101,6 mm. Adquirido pelo Governo Português , em 1920, foi por nós classificado, pomposamente, como cruzador, embora não passasse de um modestíssimo navio. Felizmente, em 18 de Junho de 1932, houve o bom senso de o reclassificar como aviso de 2ª classe, o que aliás ele sempre foi.
Ocorre-nos aqui uma frase que Maurício de Oliveira escreveu algures, dizendo que era preferível termos bons avisos do que maus cruzadores. Também o Comandante António Marques Esparteiro se referiu a este assunto em Três Séculos no Mar, afirmando que em 1920 adquirimos em Inglaterra 2 sloops, de cerca de 1200 toneladas de deslocamento máximo ( o "CARVALHO ARAÚJO" e o seu irmão "REPÚBLICA" ), artilhados com duas peças de 101 mm, os quais classificámos, sem propriedade, cruzadores.
Construído de aço, nos estaleiros Charles Connel & Cª. Ltd., em Glasgow, em 1915, o "JONQUIL" ficou a pertencer à classe "FLOWER" da Royal Navy, à qual foi entregue em 1 de Julho de 1915. Foi aumentado ao Efectivo dos Navios da Armada Portuguesa, em Plymouth, em 4 de Março de 1920.
Eis as suas características principais:

Comprimento de fora a fora 78,90 metros
Comprimento entre perpendiculares 76,44 metros
Boca 9,90 metros
Pontal 5,63 metros
Calado máximo 3,60 metros
Deslocamento máximo 1190,00 toneladas
Deslocamento standard 900,00 toneladas
Arqueação bruta 2661,52 m3
Arqueação líquida 790,69 m3

O aparelho propulsor era constituído por uma máquina alternativa de vapor de tríplice expansão, com a potência de 2242 cavalos indicados, que lhe imprimiu nas provas a velocidade de 17,25 nós. Tinha duas caldeiras cilíndricas de chama invertida e um hélice. As carvoeiras tinham capacidade para 130 toneladas de carvão. O seu armamento consistia em duas peças de artilharia Vickers-Armstrong de 101,6 mm/40 calibres; duas Vickers-Armstrong de 76 mm/40 calibres e duas peças Hotchkiss de 47 mm/46 calibres.
A guarnição era composta por 13 oficiais, 15 sargentos e 123 praças.
Teve uma vida muito activa, tendo visitado vários dos nossos territórios de além-mar, nomeadamente Macau, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné, Madeira e Açores, alguns deles por mais de uma vez.
Foi um dos navios que em 1922 deram apoio à primeira travessia aérea do Atlântico Sul, perpetrada pelos oficiais da Armada, Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Inclusivamente, transportou de Lisboa para a ilha Fernando de Noronha, o terceiro hidroavião "Fairey", a bordo do qual os referidos Marinheiros concluíram a citada travessia. O aparelho foi posteriormente baptizado "Santa Cruz" e, hoje em dia, faz parte da exposição permanente do nosso Museu de Marinha. Em Agosto de 1923, o "CARVALHO ARAÚJO" foi enviado aos bancos da Terra Nova, para prestar assistência aos nossos pescadores do bacalhau. O comandante, Capitão de Fragata Octávio Augusto de Matos Moreira, escreveu no relatório daquela viagem, que o navio não reunia os requisitos necessários para poder desempenhar cabalmente tal missão e em consequência, o cargueiro "GIL EANNES" ( ex-alemão "LAHNECK") foi, algum tempo mais tarde, enviado para a Holanda para ser submetido a uma grande reparação e ser adaptado a navio-hospital, tendo-lhe sido instaladas enfermarias, salas de operações e outros postos médicos. Esta remodelação teve como objectivo principal a assistência aos pescadores Portugueses nos bancos da Terra Nova e da Groenlândia onde o velho "GIL EANNES", de 1927 a 1954, foi a fada boa daqueles pescadores.
Ainda com a classificação de cruzador, o "CARVALHO ARAÚJO" participou, em Abril de 1931, na repressão da revolta da Madeira e dos Açores, tendo escoltado o paquete "PEDRO GOMES", da Companhia Nacional de Navegação, que serviu como trasporte de tropas, e tendo desembarcado uma força militar na Praia da Vitória, do que resultou que os revoltosos de Angra do Heroísmo se rendessem. Entrou depois nos portos da Horta e de Ponta Delgada, mas ali os revoltosos já se tinham entregue.
Em 1932 fez ainda mais uma viagem ao Brasil e uma missão de soberania em Angola. Por decreto de 13 de Março de 1937, após ter sido adaptado a navio-hidrográfico, foi reclassificado como tal. Os trabalhos de adaptação incluíram o desembarque das duas peças de artilharia de 101,6 mm e das duas de 76 mm, tendo sido mantidas apenas as duas Hotchkiss de 47 mm.
Em 1937, iniciou a sua actividade como navio-hidrográfico, ao serviço da Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes ( Em 22 de Maio de 1937, iniciou o levantamento hidrográfico do arquipélago da Madeira e em 18 de Maio de 1939, deu início aos trabalhos do levantamento hidrográfico do arquipélago dos Açores). Desde 1941 a 1959, esteve ao serviço da Missão Hidrográfica de Angola e S. Tomé.
Em 1959, considerado inútil, foi mandado abater ao Efectivo dos Navios da Armada, por portaria de 30 de Maio daquele ano. Em 1964 foi afundado, ao largo do porto de Luanda, pela artilharia da fragata "DIOGO GOMES" que, curiosamente, também tinha como armamento principal duas peças de 101,6 mm.

 

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II

Paquete "CARVALHO ARAÚJO"

Em 1930, a Empresa Insulana de Navegação, agradecida pelo facto do primeiro-tenente Carvalho Araújo ter salvo com o sacrifício da sua vida o paquete "SAN MIGUEL", decidiu baptizar o seu novo paquete, construído em Italia, no estaleiro Cantiere Navale Triestino, em Monfalcone, com o nome "CARVALHO ARAÚJO". Foi uma justa homenagem ao valoroso Marinheiro que, interpondo o navio do seu comando, o patrulha de alto mar "AUGUSTO DE CASTILHO", entre o submarino alemão "U-139" e o paquete "SAN MIGUEL" conseguiu que aquele chegasse a salvo ao porto de Ponta Delgada.
Tendo sido lançado à agua em Monfalcone, em 17 de Dezembro de 1929, a sua construção ficou terminada em Março de 1930 e iniciou a sua viagem inaugural à Madeira e aos Açores, em 23 de Abril daquele ano. Foi a construção número 216 daquele estaleiro e foi-lhe atribuído o indicativo de chamada do Código Internacional de Sinais CSBU e o número oficial 420F.
Características principais do paquete "CARVALHO ARAÚJO":

Comprimento de fora a fora 112,82 metros
Comprimento entre perpediculares 106,36 metros
Boca 15,30 metros
Pontal 8,12 metros
Calado máximo 6,99 metros
Arqueação bruta 12912,65 m3
Arqueação líquida 7630,68 m3
Porte bruto 7424 toneladas

O aparelho propulsor consistia em duas máquinas alternativas de vapor de tríplice expansão, com três cilindros cada uma, com a potência de 4430 cavalos indicados, que lhe garantiam a velocidade máxima de 14 nós. Tinha quatro caldeiras de chama invertida com doze fornalhas onduladas e dois hélices.
Possuía alojamentos para 354 passageiros, sendo 78 em primeira classe, 78 em segunda classe e 198 em terceira.
Em 1943 sofreu uma importante remodelação. Além de outras modificações foram-lhe instalados camarotes de luxo para 10 dos 78 passageiros de 1ª classe. O número de tripulantes era de 89.
Em 1945, nova transformação: as fornalhas, que inicialmente queimavam carvão,foram adaptadas e passaram a queimar nafta.
O paquete "CARVALHO ARAÚJO" conjuntamente com um outro paquete da Empresa Insulana de Navegação, mais antigo, o "LIMA", de 1923, assegurou a carreira entre o Continente e os Arquipélagos da Madeira e dos Açores com viagens semanais, até 1972, ano em que foi abatido. Quanto ao "LIMA", terminara a sua actividade em 1969.
O "CARVALHO ARAÚJO" foi vendido para sucata, em Novembro de 1972. Em 20 de Outubro de 1973, depois de ter sido rebaptizado "MARCEU", partiu, a reboque, de Lisboa para Espanha , onde foi desmantelado.

 

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III

Navio-Hidrográfico "CARVALHO ARAÚJO"

Começou por ser a corveta "CHRYSANTEMUM" de uma outra classe "FLOWER" da Royal Navy, construída, de aço, no estaleiro Harland & Wolff, Ltd., em Belfast. O assentamento da quilha verificou-se em 17 de Dezembro de 1940, o lançamento à agua, em 11 de Abril de 1941 e a construção ficou terminada em 26 de Janeiro de 1942. Naquele mesmo ano foi transferida para as Forças Navais da França Livre, tendo sido rebaptizada "COMMANDANT DROGOU". Terminada a Segunda Guerra Mundial, foi devolvida à Armada Britânica, que a pôs à venda, tendo sido adquirida pela empresa de pesca da baleia sul-africana, "Hector Whaling Company", de Cape Town, que a rebaptizou "TERJE TEN". Também aparece, por vezes, como "TERJE 10" e outras como "TERJE X".
Em Março de 1959 foi comprada pelo Governo Português, em Cape Town, e transformada em navio-hidrográfico tendo recebido o nome e vária aparelhagem científica e técnica do navio-hidrográfico "CARVALHO ARAÙJO", ex-"JONQUIL".
Eis as suas características principais:

Comprimento de fora a fora 62,53 metros
Comprimento entre perpendiculares 57,90 metros
Boca 10,11 metros
Calado máximo 4,52 metros
Deslocamento máximo 1340 toneladas
Deslocamento standard 925 toneladas

O aparelho propulsor consistia numa máquina alternativa de vapor de tríplice expansão, vertical, com quatro cilindros. Tinha duas caldeiras cilíndricas, a potência de 2750 cavalos indicados, que lhe conferia a velocidade máxima de 16 nós, e um hélice. A dotação de combustível era de 245 toneladas e a autonomia de 4000 milhas a 12 nós.
Enquanto corveta da Royal Navy, teve o indicativo visual K 195. Como navio-hidrográfico da Marinha Portuguesa, passou a ter A 524. A guarnição compunha-se de 96 homens.
Foi artilhado com uma peça de 76 mm/40 calibres e com quatro metrelhadoras Oerlikon de 20 mm.
Terminada a Guerra do Ultramar, foi oferecido à República Popular de Angola, em 3 de Setembro de 1975, data em que foi abatido ao Efectivo dos navios da Armada Portuguesa.
Foi um dos poucos navios da nossa Marinha de Guerra, que nunca esteve em águas do continente, tendo desenvolvido a sua actividade hidrográfica em águas das províncias ultramarinas de Angola e de S. Tomé e Príncipe.
É curioso notar algumas coincidências que aconteceram nas vidas destes dois navios da nossa Armada:
ambos foram construídos na Grã-Bretanha, para a Royal Navy, fazendo parte de programas navais de emergência executados na eminência de guerras mundiais. Ambos começaram por pertencer a duas classes "FLOWER" da Armada Britânica e como tal, foram inicialmente baptizados com nomes de flores. Ambos foram rebaptizados com o nome glorioso de Carvalho Araújo e ambos terminaram as suas vidas como navios-hidrográficos.

( intercalar numa caixa entre os III e IV capitulos)

As 269 corvetas da classe "FLOWER" da Armada Britânica ficaram imortalizadas no magnífico romance THE CRUEL SEA, da autoria de Nicholas Monserrat, cuja protagonista é exactamente uma corveta daquela classe com o nome fictício "COMPASS ROSE". Naquela obra o autor relata-nos o que foi a valorosa acção daqueles navios na Batalha do Atlântico.

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V

Cargueiro "CARVALHO ARAÚJO"

Quando em 1972 a Empresa Insulana de Navegação adquiriu, no Brasil, o grande cargueiro "ITAQUERA", acabado de construir pelos Estaleiros Mauá, no Rio de Janeiro, surgiu a ideia de o rebaptizar "CARVALHO ARAÚJO" uma vez que o paquete que ostentara aquele nome e que servira a Insulana durante cerca de quarenta e dois anos já tinha sido abatido.
Características do cargueiro "CARVALHO ARAÚJO":

Comprimento de fora a fora 160,92 metros
Boca 23,09 metros
Calado máximo 9,60 metros
Arqueação bruta 32078 m3
Arqueação liquida 16358 m3
Porte bruto 12291 toneladas

O aparelho propulsor consistia num motor Diesel a dois tempos desenvolvendo a potência de 18400 HP a que correspondia a velocidade máxima de 20 nós.
Em Fevereiro de 1974, foi transferido para a CTM-Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos e em 1985, foi comprado pela PORTLINE, mantendo sempre o mesmo nome. Em Junho de 1986 foi vendido para desmantelar.
Agora que já não existe nenhum daqueles quatro navios que ostentaram o nome do heróico comandante do patrulha de alto mar "AUGUSTO DE CASTILHO", achamos que já vai sendo tempo de se pensar em baptizar com o nome glorioso de Carvalho Araújo, um dos futuros navios da Armada Poortuguesa.
Capitão da Marinha Mercante
Membro Efectivo da Academia de Marinha




José Ferreira Dos Santos
Sobre o autor:
Capitão da Marinha Mercante e
Membro Efectivo da Academia de Marinha

 

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