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Domingo 25 Jun

Mundo

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Sábado, 17 Outubro 2009 00:00


Na Idade Antiga, Pitágoras acreditava que o mundo teria a forma de uma circunferência. Assim, quando os gregos descobriramBRASIL-ANTARTICA-9 massas de terras no Norte do planeta, ele expôs a teoria de que deveria haver também algo semelhante ao Sul, para equilibrar o peso da Terra. A essa hipotética terra ele batizou de "Antartikos", que, em uma tradução livre do grego para o português, poderíamos dizer "o oposto ao Ártico".

Dentre as várias teorias de nascimento da Antártica damos preferência à Teoria da Deriva Continental, proposta por Alfred Wegener. De acordo com ela, os continentes, no início da formação do planeta, estavam unidos em um único bloco, Pangea, que, por decorrência das pressões geológicas e geofísicas ter-se-ia partido, a princípio, em três porções. Uma dessas porções, batizada de Godwana, incluía a América do Sul, África, Austrália, Índia e Antártica.
Com o desenvolvimento de novas pressões houve o fracionamento da Godwana, e a Antártica foi o bloco que deslizou mais para o Sul. Estudos paleontológicos têm auxiliado na comprovação da teoria de Wegener, devido à similaridade dos achados fósseis, principalmente de vegetais, encontrados nas porções destes continentes e na Antártica.
Hoje, a Antártica é toda a massa continental circunscrita pelo Círculo Polar Antártico ( 66º 33' S), separada do continente que lhe é mais próximo, a América do Sul, pelo estreito de Drake, com cerca de 1000 km de distância entre a Península Antártica e a Terra do Fogo.
O primeiro desembarque no continente ocorreu na Península Antártica, realizado por um pescador americano, John Davis, em 1821; James Clark Ross descobriu o Pólo Sul Magnético, dentre outros feitos, já na década de 30 do século XIX, no período que BRASIL-ANTARTICA-8consideramos inicial das pesquisas científicas na região.
Nesse sentido, o Congresso Geográfico Internacional de 1895 foi o evento que enfatizou a exploração científica da Antártica, incentivando a primeira invernada intencional no continente, realizada pelo belga Adrian de Gerlache, em 1898.
O Brasil na Antártica
A participação brasileira na exploração da Antártica ocorre desde 1882, quando a Corveta "Parnahyba", sob o comando do então Capitão de Fragata Luis Philippe de Saldanha da Gama, levava como passageiro o Dr. Luis Cruls, designado pelo Imperador, especificamente para tal missão, como Diretor do Observatório Astronômico, para observar a passagem de Vênus pelo disco solar, tarefa esta realizada em 6 de Dezembro daquele ano.
Em 16 de maio de 1975, o Brasil aderiu formalmente ao Tratado Antártico. Sua integração como membro consultivo ocorreu em 1983, após a afirmação do interesse brasileiro na região, com a criação do PROANTAR e do CONANTAR , (ambos em 1982), a aquisição do NApOc Barão de Teffé (1982) e a realização da Primeira Expedição Brasileira (dezembro de 1982 a janeiro de 1983), que tinha por principal objetivo a identificação de um local adequado para a instalação da Estação Antártica Comandante Ferraz.
O ano de 1984 foi marcado pela adesão do Brasil ao SCAR - Scientific Committee on Antarctic Research, a inauguração da Estação Antártica Brasileira "Comandante Ferraz" e a criação do CONAPA - Comitê Nacional de Pesquisas Antárticas - vinculado ao CNPq - Conselho Nacional de Pesquisas.
O entusiasmo com o sucesso das atividades na Antártica e a projeção do Brasil no cenário internacional incentivaram a ampliação da estação (1984/1985) e a construção de refúgios nas Ilhas Elefante e Nelson. Em 1986, "Ferraz" abrigou o primeiro grupo de brasileiros a passar o inverno na Antártica e, desde então, a Estação tem tido atividades ininterruptas durante todo o ano.
No período de 2003 a 2007, a Estação Comandante Ferraz passou por ampla reforma e modernização, podendo ser considerada, na Península Antártica, a mais moderna e mais bem equipada para atender às comunicações, conforto, condições de pesquisa e até tratamentos médico e odontológico, prestando apoio, sempre que necessário, aos participantes de outros programas e bases estrangeiras.
O Programa Antártico Brasileiro é gerenciado no âmbito da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, que é formada por representantes de 17 ministérios e coordenada pelo Comandante da Marinha.

OS INTERESSES NA REGIÃO ANTÁRTICA

Os interesses na região abrangem questões econômicas, interesse científico e interesse estratégico militar. Para conter as reivindicações territoriais, impedir possíveis confrontos e preservar o meio ambiente de uma explotação desenfreada foi elaborado o Tratado Antártico, que conseguiu manter na prática os ideais norteadores das atividades na região.
O interesse estratégico
"O mundo atual vive fases turbulentas, em vários pontos dos cinco continentes, mas, ainda assim, o livre acesso a passagens críticasBRASIL-ANTARTICA-7 de navegação é assegurado. A passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico pode ser efetuada pelo canal do Panamá, pelos pequenos canais do Oceano Ártico, ou pelo estreito de Drake.
O canal do Panamá encontra-se comprometido, não sendo possível a passagem de grandes navios em função do calado e da boca dos navios modernos.
Por sua vez, a também limitada passagem pelo oceano Ártico poderá ser controlada, mediante acertos entre as poucas nações envolvidas. Assim, a passagem de Drake, que separa a Antártica do continente sul-americano, tem valor potencial como rota de navegação marítima.

O interesse científico

A Antártica é conhecida por ser um grande laboratório natural, haja vista sua condição de quase inacessibilidade ter contribuído para a conservação do ambiente. Assim, os estudos desenvolvidos nessa região assumem importância global no entendimento dos fenômenos planetários.
Os principais assuntos desenvolvidos podem ser divididos em três setores de conhecimento: Ciências Atmosféricas, Ciências da Terra e Ciências da Vida.
O campo da meteorologia ocupa-se tanto no entendimento dos fenômenos globais, como auxilia na previsão de mudanças climáticas nos demais continentes. Diante disso, a meteorologia reveste-se muitas vezes de um caráter econômico relevante, principalmente para a agricultura dos países do hemisfério sul.
As questões do chamado "efeito estufa" e "buraco de ozônio" merecem destaque entre as pesquisas realizadas.
Apenas em relação à Antártica, dados do British Council mostram que o derretimento da calota antártica provocaria uma elevação dos níveis dos oceanos de 45 a 90 metros o que, por si só, seria enormemente catastrófico.
O "buraco de ozônio"- na realidade trata-se de uma diminuição na espessura dessa capa protetora- ocorre somente em alguns meses ao ano, podendo provocar um crescimento de até 7% nos casos de câncer de pele.
Os estudos dos peixes antárticos permitem verificar a adaptação ao frio, vida com alimentação energicamente limitada, ciclos de vida lentos, com alta longevidade e escassa fecundidade. As pesquisas relacionadas à compreensão quanto ao metabolismo das focas podem vir a auxiliar na busca de soluções dos males que causam a morte em recém-nascidos com problemas respiratórios.
Também são desenvolvidos estudos relacionados à adaptação do homem e às modificações metabólicas e psicológicas quando em ambiente BRASIL-ANTARTICA-6antártico.
Pelas pesquisas da glaciologia, através da análise nas camadas de deposição da neve, é possível desvendar a história da Terra: a calota de gelo antártica foi formada por precipitação de neve que se compactou devido ao seu próprio peso.
Na medida em que as precipitações de neve foram ocorrendo, aprisionaram amostras de partículas sólidas, bolhas de ar e toda a gama de elementos e substâncias químicas que constituem registros da história evolutiva da Terra.
A história da Terra também é contada na Antártica através da análise de fósseis, que comprovam, inclusive, a existência - em tempos remotos - de uma floresta em grande parte do continente.

O interesse econômico

Com relação à existência de recursos minerais, um dos indícios que apontavam para essa probabilidade foi baseado na Teoria de Godwana, visto que a Península Antártica, por exemplo, dá a impressão de ser continuação dos Andes, famosos por suas reservas de prata e cobre. Sem contar a África do Sul, onde há ouro e diamantes. O Prof. Dr. Antonio Carlos Rocha Campos, coordenador do Grupo de Gerenciamento do PROANTAR, mostra-se cauteloso quanto à questão: "No caso dos recursos minerais, há alguns equívocos. Algumas notícias dão conta de existência de recursos minerais de monta na Antártica, particularmente ouro e petróleo; não há efetivamente confirmação desse fato, mas não se descarta esta hipótese".
Uma riqueza que se tornará mais importante neste século é a imensa reserva de água doce que a Antártica representa.
O interesse específico do Brasil
O Brasil possui interesses nos aspectos estratégico, econômico e científico.
Uma publicação da CIRM resume as razões para a participação do Brasil na Antártica nos seguintes itens:
"a) situação geográfica do Brasil, no tocante ao continente antártico, sujeita o País, direta e constantemente, a fenômenos meteorológicos e oceanográficos que lá têm sua origem; b) há indícios muito significativos da existência de imensas reservas de recursos minerais, tanto em solo antártico como em sua plataforma continental; c) as águas antárticas sustentam fauna marinha abundante, passível de explotação em grande escala; d) a intensificação do tráfego marítimo internacional pelas rotas do Cabo e dos estreitos de Drake e Magalhães tem reflexos ponderáveis nas águas jurisdicionais brasileiras; e, e) o interesse cada vez maior da comunidade internacional quanto à Antártica com implicações decisivas nas relações entre os Estados e no Direito Internacional".

O TRATADO ANTÁRTICO

Logo após o YGI de 1958, representantes de 12 nações reuniram-se em Washington para discutir o Tratado Antártico, que entrou em vigor em 1961, após a ratificação dessas 12 nações,: Argentina*, Chile*, Grã Bretanha*, Estados Unidos, Bélgica, França*, Noruega*, África do Sul, União Soviética (atual Rússia), Japão, Austrália* e Nova Zelândia* . Posteriormente, 14 outras nações tornaram-se também partes consultivas e, dentre elas, o Brasil, em 1983, sendo que, até 2005, eram 28 as nações com direito a voto. Além destas, 14 outras nações são consideradas aderentes, ainda sem direito a voto. O tratado consegue estar representado por 2/3 da população mundial.
Conforme alguns estudiosos, as cláusulas do Tratado podem ser resumidas em:BRASIL-ANTARTICA-5
Artigo I: a Antártica deve ser usada somente para finalidades de paz e medidas militares não são permitidas, embora pessoal militar possa ser usado para apoiar as expedições e bases;
Artigos II e III: consagra e incentiva a liberdade científica e a cooperação internacional, com amplo intercâmbio de pessoal e divulgação de resultados;
Com prazo de vigência de 30 anos, o primeiro grande trunfo do Tratado foi conseguir manter congeladas as pretensões territorialistas, evitando os possíveis confrontos armados ou políticos.
Em 1991, entrou em vigor o Protocolo de Madrid, que proíbe por 50 anos a exploração mineral, por causa dos riscos ambientais que provocaria e das dificuldades em se reconhecer um poder concedente de licenças de mineração. Trinta e uma nações assinaram o Protocolo de Madrid que estipula diretrizes para sua revisão em 2041, quando então as condições das reservas minerais e energéticas existentes, o desenvolvimento tecnológico e a conscientização ecológica da próxima geração nortearão as negociações.
O posicionamento do Brasil em relação ao Tratado pode ser assim resumido: "Partindo dos princípios fundamentais que regem nossa atuação no âmbito do Sistema Antártico e que coincidem com os próprios objetivos do Tratado de Washington, a Política Nacional para Assuntos Antárticos caracteriza o Brasil pela sua dupla condição de país não-territorialista e de país em desenvolvimento, que se reserva o direito de proteger seus interesses diretos e substanciais na Antártica, ora protegidos pelo Tratado, caso o seu funcionamento venha a ser revisto, conforme os resultados da eventual revisão. Os objetivos, tais como definidos pela POLANTAR, são a participação do Brasil em todos os atos internacionais e instituições que compõem o Sistema do Tratado da Antártica; o prosseguimento e a ampliação do Programa Antártico Brasileiro; maior conhecimento científico da região antártica em todos os seus aspectos, com envolvimento crescente de cientistas brasileiros; a identificação dos recursos econômicos vivos e não-vivos e a obtenção de dados sobre a possibilidade de seu aproveitamento; e a participação na exploração e no aproveitamento de recursos vivos marinhos e de recursos minerais antárticos em condições que compensem a circunstância de ser o Brasil um país em desenvolvimento".
Resultados positivos da presença do Brasil na Antártica

a) entender melhor o clima da Antártica e sua influência direta no clima do Brasil ;

b) entender o regime das correntes antárticas e os fenômenos da CONVERGÊNCIA e da RESSURGÊNCIA que provocam regiões piscosas, devido ao afloramento de nutrientes;

c) entender as mudanças globais, aumento de temperatura (efeito estufa), buraco na camada de ozônio, aumento do nível dos oceanos, etc;

d) os levantamentos sísmicos, conduzidos pelo NOc Alte. Câmara, também navio da Marinha do Brasil, além de terem permitido identificar uma série de potencialidades em termos de combustíveis fósseis, permitiram dominar a técnica de Sísmica de Multicanal, o que foi fundamental para o Projeto de levantamento de dados da Plataforma Continental Brasileira;

e) identificar as potencialidades de recursos vivos marinhos;

f) estudos geológicos conduzidos, além da identificação científica da formação geológica do continente, permitem identificar potencialidades em termos de riquezas minerais;

g) a presença brasileira na Antártica garante que o Brasil terá participação nas futuras decisões sobre o continente (14 milhões de km² a 550 milhas do Sul do nosso continente); e

Preparo do pessoal que participa das expedições brasileiras na Antártica

O maior investimento que o PaísBRASIL-ANTARTICA-4 coloca na Antártica são seus pesquisadores, muitas vezes jovens, homens e mulheres, que só possuem contato com a vida urbana e se aventuram em busca do conhecimento.
A segurança é dos itens que mais preocupa o PROANTAR e, por isso, um bom preparo é fundamental para manter o índice zero em acidentes fatais que o Programa brasileiro ostenta nesses 27 anos de atividades nas sua expedições.
Todo o pessoal designado para as Operações Antárticas submete-se a exames de saúde e psicotécnicos e são avaliados durante o período de treinamento, que é realizado para:
- proporcionar subsídios sobre cada indivíduo permitindo a melhor seleção dos tripulantes (pesquisadores e grupo base);
- ministrar instrução, visando a execução dos trabalhos com um máximo de segurança e um aperfeiçoamento técnico de cada especialista em sua área de atuação; e
- promover, o mais cedo possível, a integração do grupo e o desenvolvimento do "espírito de equipe".

NAVIOS POLARES BRASILEIROS

Nos dias atuais, o Brasil possui o Navio de Apoio Oceonagráfico Ary Rongel, que está realizando este ano a XXVIII operação antártica.

O Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel - H 44, adquirido em 1994,BRASIL-ANTARTICA-2 foi o primeiro navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil, em homenagem ao Almirante Ary dos Santos Rongel .
Em 2008, foi apresentada ao Presidente Lula a necessidade de haver um navio específico para as pesquisas na Região Antártica, que servisse, também, como um substituto eventual do atual navio de apoio.
Ratificado o pleito pelo Presidente, a Marinha selecionou o "Ocean Empress", e iniciou o processo de sua obtenção.

Características principais do Navio
• Deslocamento (toneladas): 5.450 - plena carga;
• Dimensões - comprimento x boca x calado (metros): 93,4 x 13,4 x 6,2;
• Velocidade - cruzeiro (econômica) / máxima (nós): 10 / 13;
• Autonomia : 90 dias;
• Tripulação: acomodação em cabines com banheiros para 49 pessoas;

Inspeção Técnica

Foi realizada uma inspeção técnica no Navio "Ocean Empress e foram constatadas as boas condições estruturais de casco, conveses, superestruturas, máquinas, sistema de propulsão e equipamentos, apesar dos 20 anos de BRASIL-ANTARTICA-1atividade do navio, e propostas alterações para a nova função do navio, tais como:

• Construção de um convés de vôo e de um hangar, para acomodar 2 helicópteros;
• Iinstalação de laboratórios seco e molhado e de laboratórios para pesquisa científica.

A expectativa é de que o uso de dois navios dará amplitude ao PROANTAR mantendo o Brasil como uma das lideranças em pesquisas na Antártica.
Para dar um término a este texto, faço opção pela declaração de uma das mais atuantes pesquisadoras do Programa Antártico Brasileiro, que está nas boas mãos da Marinha e é encarado pelos brasileiros como um grande programa de pesquisas que ajudará não somente ao País mas a toda a humanidade.
"Os primeiros passos do Brasil na Antártica foram, muitas vezes, desajeitados, porém sempre com a força e perseverança de quem ambiciona não somente andar, mas correr e, se possível, voar..."

(Dra. Cristina Engel de Alvarez - 1989).


José Eduardo Borges De Souza
Sobre o autor:
Contra-Almirante ( RM 1)

 

Navios de Cruzeiro

MSC Sinfonia MSC Fantasia MSC Lirica Princess-Daphne MSC Opera Princess-Danae Athena MSC Melody MSC Armoria