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Domingo 26 Mar

Reparos Navais da Artilharia Portuguesa


ARQ-953-2Contrariamente ao que ocorre com as peças de artilharia, o estudo dos reparos navais onde as peças operavam, tem, em Portugal, sido considerado como um assunto considerado menor, pois para os século XVI e XVII, o assunto ou não é sequer abordado ou apenas tem uma ou duas linhas.
No entanto, esta questão foi particularmente explorada pela literatura anglo-saxónica, para justificar a "grande vitória" que os navios ingleses teriam obtido em 1588 sobre a "Invencível" Armada. Segundo esses autores, o facto dos navios ingleses já utilizarem reparos de 4 rodas ter-lhes-à permitido um ritmo de fogo superior aos da Armada, o que teria contribuído para a sua destruição.
Efectivamente, são várias as referências nos documentos, na iconografia da época e nos reparos recuperados na arqueologia subaquática, que os navios ibéricos utilizavam naquela época reparos de 2 rodas.
O que não deixa de ser estranho é o facto de, logo após este grande duelo naval, como foi o caso da captura do galeão inglês Revenge no Açores em 1591, o assunto ter deixado de despertar o interesse desses mesmos estudiosos.
É, mais ou menos, aceite pacificamente que terão sido os ingleses os primeiros a utilizar a bordo dos seus galeões este tipo de reparos de quatro rodas, não tendo, embora, abandonado completamente os de duas. O que não se sabe ao certo, é quando é que se iniciou a utilização dos reparos com quatro rodas pequenas, ou "escaletas", nem quais as verdadeiras vantagens e desvantagens da utilização dos reparos de apenas duas rodas, nesta época.
No arquivo de Simancas existem alguns desenhos de reparos de 2 rodas, mas será que eram assim, ou trata-se apenas de uma proposta ou estudo?
A arqueologia subaquática, juntamente com alguns desenhos da época, tem permitido conhecer qual o formato geral dos reparos de duas rodas utilizados nos navios ibéricos. De alguma documentação dispersa, podemos afirmar que estes diferiam dos utilizados em terra pois tinham, inclusivamente, custos diferentes.
Mas, em que data é que os navios da Coroa de Portugal, assim como os de outros reinos europeus, passaram também a utilizarARQ-953-3 reparos de quatro rodas?
Um documento de 1593, que contém uma extensa relação de artilharia para o mar entregue à Coroa de Portugal em 1592, por ordem de Filipe II, I de Portugal, dá-nos o primeiro indício, mencionando que "Toda a dita artilharia excepto os dois falcões que são de câmara com os seus encavalgamentos novos ferrados com quatro rodas...".
No entanto, a utilização deste tipo de reparos ainda não se encontrava disseminada por toda a esquadra pois, em 1594, entre os apetrechos recuperados de um galeão português de nome São Barnabé, que tinha naufragado à entrada de Lisboa, encontravam-se "rodas de reparos grandes por ferrar". Dois anos mais tarde, na fortaleza de S. Julião da Barra, é mencionado que algumas das peças encontravam-se montadas em reparos de mar mas, estes ainda não eram do novo modelo de 4 rodas mais pequenas.
Esta situação de sobreposição de tipos diferentes de reparos não é inédita, pois é em tudo semelhante ao que aconteceu em Inglaterra, conforme ficou amplamente demonstrado através do material recuperado no galeão Mary Rose.
A introdução deste novo tipo de reparo, cujas rodas tinham um único tamanho, permitiu que as portinholas dos navios ficassem todas sensivelmente à mesma altura do pavimento. Esta medida, juntamente com a rígida regulamentação sobre o tipo e as características das peças que eram fundidas nas fundições reais, são mais um claro exemplo do imenso esforço de uniformização e padronização administrativa ibérica deste período.
Embora ainda não tenha sido recuperado nenhum reparo de um navio português desta época, a documentação coeva permite-nos afirmar que Portugal iniciou a substituição dos reparos de 2 para os de 4 rodas nos inícios dos anos noventa do século XVI, ainda antes da sua vizinha Espanha. Contudo, julgo que não se tratou de nenhum factor decisivo nos combates que os navios da Coroa Lusitana travaram contra os seus congéneres das Coroas Protestantes, pois nunca mais houve referências específicas a esta questão.

Mais leituras:
EARLE, Peter, The last fight of the Revenge, London, Collins & Brown, 1992.
MARTIN, Colin e PARKER, Geoffrey, The Spanish Armada, revised ed., New York, Mandolin, 1999.
SALGADO, Augusto, "Portuguese naval carriages in the late 16th century", Journal of the Ordnance Society, 11, 1999, pp.30-33.
SALGADO, Augusto, Os navios de Portugal na Grande Armada. O poder naval português. 1574-1592, Lisboa, Prefácio, 2004.


LEGENDAS DAS IMAGENS
Fig 1 Peça embarcada numa galé de Castela com roda com aros (Monesteiro del Escorial)
Fig 2 Reparo de 4 rodas pequenas do navio sueco Vasa (Colec. particular)
Fig 3 Pormenor de reparos embarcados com rodas grandes inteiriças (Monesteiro del Escorial)


Augusto Salgado
Sobre o autor:
Oficial da Armada e colaborador do DANS

 

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