1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>
Domingo 30 Abr

A canoa Polinésia

PDF Versão para impressão Enviar por E-mail


CANOA_MAORI2

Quando os portugueses chegaram às Ilhas dos Oceanos Indico e Pacífico, nomeadamente às Celebes, viram uma grande número de canoas de casco fino duplo ou monocascos com um ou dois flutuadores laterais para manter o equilíbrio ou formando catamarans de diversos tipos. Os cascos eram frequentemente escavados numa só árvore e as pequenas canoas moviam-se quase sempre à vela enquanto que as grandes ostentavam um importante aparelho vélico. As primeiras seriam as que o cronista e historiador náutico português Castanheda chamou de "balanços que se remam de pangaio". Diogo do Couto também refere aos "balanços" com dez a doze homens cada.
Eram os catamarans primitivos que navegaram durante séculos, mesmo mais de cinco séculos antes de Cristo, ou mesmo até quatro milénios de acordo com alguns estudiosos da náutica primitiva, por toda a Polinésia e Melanésia, trazendo populações originárias da Malásia, Sião, China, Índia e, talvez, América do Sul a quase todas as ilhas do Pacífico por incrível que pareça dadas as enormes distância e a ausência de instrumentos de navegação.
A canoa ou piroga polinésia que os ingleses denominaram "outrigger" proporcionou a mais inteligente solução para resolver o problema de desfraldar uma grande vela numa pequena embarcação sem perder a estabilidade e sem recorrer a um casco demasiado largo que oponha uma grande resistência ao movimento ou provido de quilha com um pesado lastro. Inicialmente o problema aquodinâmico não deverá ter estado na mente dos primeiros construtores de canoas balanceadas, já que não se conhecia outra técnica de construir um casco que não fosse o de escavar uma árvore com fogo, machados de pedra e conchas. Posteriormente construíram-se grandes cascos como os que hoje se vêem na Indonésia e Ilhas do Pacífico nas fainas piscatórias e denominados "proas", cosendo aos bordos das canoas um tabuado impermeável.
De qualquer forma, a canoa catamaran ligada a outra canoa gémea e a canoa provida de um ou dois flutuadores laterais foram, sem dúvida, os primeiros navios oceânicos que a Humanidade conheceu. Talvez depois ou contemporâneos das grandes jangadas de balsa dos povos ameríndios.
Muito antes dos Vikings, ainda nos tempos finais do Império Romano, populações inteiras navegaram nessas embarcações seguras, atravessando vastas zonas do Pacífica, granjeando o título de descobridores e povoadores sem conhecerem a escrita para deixarem relatos históricos. Para tal inventaram técnicas de navegação e de cartografia extremamente simples ainda pouco conhecidas hoje, mas hábeis e bem sucedidas. Aos etnógrafos que quiseram estudar essas técnicas faltaram-lhes frequentemente os necessários conhecimentos de biologia, pelo que só muito recentemente é que se admite que o verdadeiro "astrolábio" dos polinésios era o conhecimento dos movimentos migratórios das aves do Pacífico ao qual se juntava a observação das estrelas e a elaboração de complexos mapas de canas, cujos entrelaçamentos marcavam a posição de muitas ilhas e até de estrelas.
Não é possível traçar a verdadeira origem das canoas polinésias, mas a verdade é que a embarcação constituída por troncos de árvores escavados data dos primórdios da Humanidade, admitindo-se como provável que os flutuadores laterais e catamarans tenham aparecido há muito tempo em várias zonas do Globo. A ideia dos estabilizadores, dois ou um só, parece ter vindo do sul da Ásia. Há sinais do seu uso muito remoto na península malaia e divulgado para os arquipélagos malaios e daí para Ceilão, Madagáscar e vastas zonas dos oceanos Índico e Pacífico.

A Descoberta do Pacífico

A antiguidade do povoamento de algumas ilhas do Pacífico demonstra a existência de navegação oceânica em canoas e jangadas desde há mais de mil e quinhentos anos e isto entre ilhas distantes de mais de mil milhas umas das outras. Assim, tudo indica que tenha havido uma migração marítima a partir da Índia e da Ásia do Sul através das Filipinas, Indonésia e Bornéu para as ilhas do Pacífico. O regime de ventos e correntes oceânicas daquele oceano permite admitir que muitos séculos antes do piloto e cosmógrafo espanhol Urdaneta ter descoberto a corrente de Kuro-Schivo ao longo do paralelo 42N que circula da Ásia para a América, já as canoas providas de estabilizadores atravessavam grande parte do Pacífico, chegando ao arquipélago das Havai, à ilha da Páscoa, assim como às Marquesas, Samoa, Taiti e, por fim, à bem longínqua Nova Zelândia. Curiosamente os polinésios não viram a maior ilha de todas, a Austrália. A grande migração dos polinésios deverá ter tido início nos Séculos III ou IV da nossa era para terminar por volta de 1450 após terem explorado e habitado importantes ilhas do Oceano Pacífico. Foram quase sempre viagens de ida sem regresso. Como aconteceu com muitos povos noutras latitudes, sempre que num dado território a população tendia a ultrapassar os recursos naturais aí existentes, uma parte dos habitantes, geralmente jovens, partia à busca de outros habitats. Foi assim que os gregos chegaram à Grécia e os Germanos ocuparam grande parte da Europa, destruindo o Império Romano. Tudo indica que se passou o mesmo no Oceano Pacífico. Não devemos esquecer que a Humanidade passou de um longo período de caça e colheita de frutos e plantas silvestres para uma agricultura incipiente que se desenvolveu ao longo de rios que inundavam periodicamente as terras ribeirinhas, adubando-as com resíduos nutrientes provenientes das montanhas e só na nossa época é que surge a agricultura alimentada com adubos sintéticos e novos cultivares de alto rendimento. Praticamente só depois dos anos cinquenta é que o adubo natural "nitrato do Chile" deixou de ser importado em grandes quantidades pelos europeus.
A teoria da migração polinésia é comprovada pela semelhança entre si dos povos que habitam as ilhas do Pacífico e de todas as canoas em zonas que vão da Indonésia às mais distantes ilhas do Pacífico central, incluindo o interessante pormenor técnico do desenho da vela. Esta surge aos olhos dos europeus de hoje como se estivesse ao contrário, isto é, a parte mais larga em cima e a mais estreita em baixo. Resulta isto do facto de os navegadores polinésios terem descobertoCANOA_MAORI que a velocidade do vento sofre uma redução por via do fenómeno de fricção com a superfície das águas e que é tanto maior quanto mais próximo se estiver da cota zero, pelo que seria melhor aumentar a área vélica junto ao topo do mastro. O fenómeno é conhecido pelo efeito de tosquia do vento, tendo o holandês Marchaj demonstrado em 1977 que um vento de 4,5 nós a 1 metro de altitude pode ter uma velocidade de 6,8 nós a 3,5 metros de altitude e de 8 nós a 10 metros.
Mas é claro, há uma teoria contrária sobre o povoamento das ilhas do Pacífico defendida pelo norueguês Thor Heyerdal que para o demonstrar construiu uma réplica de uma jangada de toros de madeira de balsa e navegou do Peru para a Polinésia, aproveitando a corrente de Humbold e os ventos dominantes para Ocidente. Foi a célebre jangada Kon Tiki, cuja viagem foi descrita num excelente livro que fez as delícias de jovens e pais dos anos sessenta. Assim, as populações das culturas Clovis originárias do norte asiático teriam chegado à Polinésia depois de povoarem todo o continente americano há uns 12 mil anos. Há mesmo uma tese de que não atravessaram a pé o Estreito de Behring, mas que teriam navegado em jangadas desde as costas siberianas até ao Alasca e daí desceram em poucos anos, cerca de 500, até ao sul do Chile. Efectivamente, o navegador espanhol Bartolomé Ruiz viu em 1526 uma jangada inca de alto mar feita de toros ligados entre si com um convés de canas impulsionada por uma vela com a parte mais larga junto ao topo dos dois mastro em forma de V invertido. O espanhol roubou os haveres dos vinte tripulantes ou passageiros da jangada e sequestrou três homens, sem cuidar de saber ao certo para onde iam e de onde vinham. Na altura, as jangadas eram utilizadas tanto no Atlântico como no Pacífico pelos naturais, erradamente denominados índios por Colombo ter julgado que descobriu a Índia quanto aportou à ilha Hispaniola nas Caraíbas. Na verdade, as jangadas incas eram navios de transporte de mercadorias que os espanhóis não conseguiam apanhar porque quando invadiam uma jangada os tripulantes cortavam as fibras vegetais que ligavam os toros e deixavam os invasores caírem ao mar e afundarem-se, regressando a terra encavalitados nos troncos.
Heyerdal demonstrou que a balsa recentemente cortada não absorve a água a ponto de se afundar porque a seiva no interior dos vasos lenhosos o impede. Se a madeira estivesse seca não flutuava mais que uns dias, mas com seiva menos densa que a água salgada aguenta muitos meses.
O facto de a navegação para Ocidente a partir do continente americano não ser inverosímil não anula a tese de outros movimentos migratórios por via marítima da parte de povos que passaram da Índia e península malaia para a Indonésia e Filipinas. Os próprios aborígenes australianos terão chegado à ilha continente há uns 50 mil anos sem que se saiba como. Por terra emersas ou navegando em pirogas ou jangadas primitivas?
De qualquer forma, as pirogas polinésias tinham uma capacidade de navegação superior às jangadas e quando se tratavam de pirogas duplas ligadas por um convés de bambus com um casinhoto em cima eram excelentes meios de navegação. Eram pois muito estáveis, o que permitiu navegações memoráveis muito baseadas no conhecimento do estado do mar ao longo do ano.
Uma das viagens mais extraordinárias foi a que levou o povo Maori à Nova Zelândia, saído de Taiti ou das proximidades, rumo ao sul, seguindo sempre a rota migrante das aves na esperança que estas se dirigiam para uma terra de abundância. Segundo alguns estudiosos, terá sido o conhecimento dos movimentos das aves que terá levado os polinésios de umas ilhas para outras. Provavelmente, as viagens dos migrantes eram preparadas desde a nascença de certas gerações que aprendiam tudo o que se sabia sobre o mar desde a mais tenra infância.

Os Polinésios são Indo-Europeus

 

Comportamento idêntico tiveram os povos indo-europeus ou caucasianos da cultura Kurgan que assim povoaram toda a Europa, a Ásia Menor e a Península Industânica, chegando à Polinésia, misturando-se com povos naturais mais antigos que iam encontrando pelo caminho. Os maoris, como todos os seus irmãos polinésios, são indubitavelmente caucasóides, segundo A. Montagu, cujos antepassados mais remotos, os caucasóides arcaicos deram origem aos grupos étnicos australóides, aos vedas do Ceilão, aos pré-dravidianos da Índia e aos Ainu das ilhas Hokaido e Sacalina no Japão. Povos, portanto, da mais remota origem indo-europeia, diferentes dos mongóis indo-malaios e dos ameríndios, se bem que nenhum povo é puro hoje em dia e mesmo de há muitos séculos ou milénios atrás.
Não é tanto no aspecto que se encontra a origem de um povo, mas antes na língua e cultura respectiva. Em todas as ilhas do Pacífico, as populações polinésias falam variantes dialectais de uma língua comum que tem algumas relações com a língua mãe de todo os europeus e com o sânscrito da Índia. Línguas nada relacionadas com as falas ameríndias dos Incas e outros povos do continente americano.
Os maoris da Nova Zelândia povoaram aquelas ilhas, mas também delas saíram em grandes canoas duplas ou catamarans de grande porte cheios de guerreiros. Esses catamarans mantinham uma certa flexibilidade entre os dois cascos apesar do estrado forte e dos elementos que os ligavam, navegando sempre com a típica vela invertida. Os mantimentos estavam guardados nos cascos laterais e a água doce conservava-se bem em cabaças. As gerações migrantes utilizaram os melhores artífices na construção das grandes pirogas catamarans, mas nenhum terá embarcado, pelo que a técnica não acompanhou a população em marcha.
Os cascos foram escavados com ferramentas de pedra, tudo de acordo com um ritual que ficou memorizado nas lendas transmitidas sucessivamente de pais para filhos. Nas embarcações maiores, os bordos eram levantados com pranchas cosidas ao tronco escavado ao longo de todo o comprimento. Se o espaço para mercadorias não era muito, em compensação as decorações eram feitas com esmero e muitas teriam algo a ver com espíritos e divindades destinadas a dar sorte ou a aplacar as fúrias dos mares. Os maoris como os restantes povos polinésios não tinham em grande conta os bens materiais, preferindo dar mais estabilidade e velocidade às suas embarcações que espaço para cargas. Foi essa falta de carga que levou os sempre materialistas europeus a desdenharem esses tipos de navios sem cuidarem de conhecer os seus segredos técnicos.
Fundamentalmente, as viagens dos polinésios não se destinavam a criar linhas de navegação, pelo que raramente voltavam ao ponto de partida e é possível que tenham sido arrastados por correntes e ventos para ilhas distantes que povoaram sem saberem ao certo onde estavam. Saliente-se que com mar forte e ventoso, as canoas duplas polinésias não eram muito resistentes, pelo que muita gente terá ficado pelo caminho. Os polinésios nas suas viagens levavam mulheres e filhos consigo porque o objectivo era mesmo povoar ilhas paradisíacas, o que nem sempre acontecia. De qualquer modo, apesar das imensas dificuldades em cruzar o Pacífico de ponta a ponta, a verdade é que os europeus encontraram quase todas as ilhas daquele imenso oceano habitadas.

55 Dias no Mar sem Escorbuto

 

Tudo indica que as actuais canoas polinésias de alto-mar são muito idênticas às dos seus antepassados, nomeadamente às dos maoris. A canoa mais próxima é sem dúvida a proa, uma embarcação flexível e extremamente rápida. O navegador britânico Cook ainda chegou a ver alguns dos grandes catamarans dos maoris, se bem que não na forma de veleiros oceânicos, mas de navios bélicos com 144 remadores e 39 guerreiros. Há um exemplar guardado no museu de Auckland que pode levar 100 pessoas.
Em 1955, escreve Jean Marin Loursin, cinco jovens da ilha da Páscoa partiram numa canoa de sete metros provida de estabilizadores para Taiti. Levaram alguns litros de água doce e navegaram 2.500 milhas em 55 dias de viagem, chegando em perfeita forma física às ilhas Cook. Os polinésios sabiam controlar o consumo de água e de alimentos de modo a não sofrerem de escorbuto. Fundamentalmente navegavam na época das chuvas, recolhendo o precioso líquido em esteiras impermeáveis. Além disso eram extremamente frugais durante as viagens. O capitão Cook chegou a escrever que um navegador polinésio consumia um quinto da ração de um marinheiro branco num navio de Sua Majestade. Também eram mais espertos que os europeus, reconhecendo sem ver, qualquer parcela de terra nas imediações da sua rota. Um polinésio não faria o que fez Magalhães que navegou da Terra do Fogo no sul do ChileCANOA_MAORI_3 até quase às Filipinas sem vislumbrar qualquer respeitável ilha. Os polinésios conheciam o voo das aves e as derivações terramórficas, pelo que sabiam determinar rapidamente pela forma das aves se se tratavam de espécies anichadas ecologicamente nos mares ou migrantes e não se colocavam nas mãos de algum santo patrono, preferindo depender mais da sua ingenuidade técnica baseada num incomparável espírito de observação, resultante também do facto de nunca terem pressa em chegar a algum lugar. Tinham sempre tempo suficiente para observar todos os pormenores do meio ambiente. As suas grandes viagens eram preparadas com grande antecedência, provavelmente desde a nascença dos navegadores, como já aqui foi referido.
Nas suas migrações, os polinésios levavam um grande número de catamarans e canoas com estabilizadores laterais, mais de quinze unidades em geral, navegando em fila indiana com um espaçamento de quase uma milha entre cada embarcação. Assim, o último navio da fila sabia por sinais o que se passavam quinze milhas mais à frente. Saliente-se ainda que estes povos sem escrita possuíam uma extraordinária visão à distância, a miopia devia ser totalmente desconhecida.
A ideia da longa fila e das observações cuidadosas era descobrir rapidamente um atol ou ilha onde pudessem reabastecer-se de água e de alguns cocos ou outros frutos, além de pescado.
Por vezes, um destes vastos grupos de "filhos do Mundo" levava dezenas de anos, mesmo uma centena, segundo alguns etnógrafos, para descobrir a terra aprazível que queriam habitar. E se já estivesse habitada, os maoris, e não só, tentavam matar os seus habitantes para se poderem instalar à vontade, deixando algumas jovens virgens para consumo próprio.
Obedeciam ao instinto migratório das espécies de que o homem pretende ter sido isentado para obedecer só à sua vontade racional, mas que obviamente não é verdade. Homens e bichos parece acreditarem instintivamente que há sempre um paraíso à sua espera.
As proas actuais, tal como as canoas e catamarans do passado, bolinavam muito bem com um flutuador lateral a barlavento, não tendo propriamente proa e popa, pelo que não necessitavam de dar uma volta de 180º para inverter o rumo. Tradicionalmente não utilizavam pregos, mas simples fibras vegetais, geralmente cânhamo, para ligarem toda a estrutura. As velas eram um entrelaçado de fibras, sendo de fácil reparação e substituição, sendo suportadas por um pau botaló e uma carangueja. Muito equilibrada, a proa mantém o rumo quase por si própria, bastando um toque no remo da alheta para proceder a uma mudança de rumo. Sem preocupações de defesa no mar e com embarcações muito seguras de rumo, os polinésios em viagem ao essencial, isto é, à navegação e daí o êxito dos seus empreendimentos como povos migrantes por via marítima. O instrumento barco serviu mesmo para modificar a geografia humano do maior espaço marítimo do nosso planeta azul. De certo modo, os polinésios não descobriram o mar, no sentido em que os portugueses e espanhóis o fizeram, traçando rotas marítimas de ida e volta. Limitaram-se a seguir na onda para ver o que haveria por aí.

Texto revisto e ampliado do que foi publicado na Revista de Marinha de Novembro de 1991 e faz parte do livro "Povos e Navios" ainda não publicado.


Dieter Dellinger
Sobre o autor:

 

Comentários 

 
#1 2013-12-28 23:30
MUITO BOM ESTE ARTIGO!! ESTÁ DE PARABÉNS QUEM ESCREVEU.
Citação
 

Navios de Cruzeiro

MSC Melody MSC Fantasia Princess-Danae MSC Opera MSC Lirica MSC Armoria Athena MSC Sinfonia Princess-Daphne