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Domingo 24 Set

O Regresso de uma Rainha

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3629 01Ainda o novo edifício do Terminal de Cruzeiros de Leixões não estava concluído, quando a Cunard, depois de aqui trazer o QUEEN ELIZABETH e o QUEEN VICTORIA, deixou de frequentar este porto, pelo que será esta a primeira vez que um QUEEN atraca no novo Terminal.

            Numa escala antecipada para o dia 31 de Maio quando inicialmente estava prevista para 2 de Junho, o QUEEN VICTORIA, atracou pelas 07.00 horas, vindo da Corunha, tendo partido pelas 17.45 horas do mesmo dia rumo a Cádis.

            A Cunard, com o seu riquíssimo historial, sendo usualmente conhecida como uma Companhia britânica embora actualmente faça parte da Carnival Corporation americana, curiosamente não nasceu na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, mas no Canadá. Foi neste país, em Halifax, Nova Escócia, que nasceu Samuel Cunard no dia 21 de Novembro de 1787, filho do mestre carpinteiro Abraham Cunard que para aqui havia emigrado com sua mulher Margaret para trabalhar na guarnição britânica de Halifax e que aqui prosperou, tornando-se um abastado proprietário rural e comerciante de madeiras bem sucedido.

            Samuel Cunard era um jovem brilhante, que desenvolveu um forte espírito empreendedor que lhe serviu durante toda a vida. Sendo evidente a sua tendência para o comércio, característica que o levou a adquirir e a gerir os seus próprios estabelecimentos com apenas dezassete anos de idade, acabou por associar o seu pai aos seus negócios de madeiras, que expandiu para o carvão, ferro e pesca da baleia.

            Depois da guerra de 1812, em que serviu como voluntário no 2º Batalhão do Regimento da Guarda Nacional Britânica e alcançou o posto de Capitão, regressou a Halifax, granjeando a reputação não só de um sagaz homem de negócios como também de um cidadão honesto e generoso. Rodeou-se de um grupo de doze individualidades que viriam a dominar os negócios na Nova Escócia, focando os seus interesses tanto na navegação como no negócio do carvão. Os seus primeiros investimentos na navegação a vapor incluíram a fundação de uma Companhia de vapores operando no porto de Halifax e mais tarde na costa Leste do Canadá.

            Não constituiria, portanto, surpresa, que Samuel Cunard se tenha transferido para a Grã-Bretanha onde criou uma empresa, com outros homens de negócios, para licitar os direitos de realização de um serviço transatlântico de transporte de correio entre o Reino Unido e a América do Norte, subsidiado pelo Governo Britânico. Tendo vencido o contrato, garantiu um subsídio anual que lhe permitiu criar a British & North American Royal Mail Steam Packet Co, que rapidamente começou a ser conhecida como a Cunard´s Line. Como nos termos do contrato se obrigava a manter um serviço quinzenal usando quatro navios a vapor com porte e velocidade similares, Samuel Cunard recorreu aos serviços do arquitecto naval Robert Napier, muito versado na tecnologia da navegação a vapor.

            O primeiro Cunarder seria o BRITANNIA, um navio a vapor movido por duas rodas de pás laterais que efectuou a sua primeira viagem em 4 3629 02de Julho de 1840, um dia histórico para a Cunard Line que ainda hoje se comemora. Sob comando do Capitão Henry Woodruff, fez a viagem em doze dias e dez horas, e transportou sessenta e três passageiros, entre os quais o próprio Samuel Cunard e um seu irmão. No ano seguinte, juntar-se-lhe-iam os seus três irmãos ACADIA, CALEDONIA e COLUMBIA. Todos estes navios ostentavam o prefixo RMS de Royal Mail Ship.

            A Cunard sempre teve de se defrontar com muitos competidores, tanto da Inglaterra como dos Estados Unidos ou da Alemanha, mas a todos sobreviveu, sobretudo pelo grande enfoque na segurança. Em boa verdade, não sendo normalmente dos maiores ou mais rápidos, os navios da Companhia ganharam reputação por serem os mais confiáveis e os mais seguros.

            Seriam, portanto, estes os primórdios de uma das Companhias mais famosas do mundo que, ao longo dos seus 175 anos foi absorvendo outras Companhias concorrentes, entre as quais a White Star Line, proprietária do infortunado TITANIC, dando origem à Cunard White Star que operou de 1934 até 1949; até ser, por sua vez, absorvida pela Carnival Corporation em 1998. Veria passar pela sua frota inúmeros navios verdadeiramente notáveis, de que se destacam os Cunarders da era dos QUEEN, iniciada em 1936 com o primeiro QUEEN MARY a que se seguiria, em 1940, o QUEEN ELIZABETH, que se tornariam em nomes emblemáticos.

            Os lendários QUEEN’s da Cunard, que foram lançados no auge da rivalidade na travessia do Atlântico Norte a partir dos anos 30 do século passado, não eram apenas os mais famosos navios de passageiros oceânicos do mundo, como rezava o slogan de marketing da Companhia, mas contavam-se igualmente entre os paquetes mais bem sucedidos entrados em operação e dos mais conhecidos pelos seus mais altos standards das acomodações e do serviço, padrões que se mantêm nos QUEEN’s da frota actual. Se dos dois primeiros QUEEN’s praticamente se poderá dizer que marcaram uma época, tiveram um digníssimo sucessor no há pouco retirado QUEEN ELIZABETH II, carinhosamente referido e recordado como QE2, e prosseguiu com o QUEEN MARY II que o substituiu e é o actual navio-almirante da frota Cunard. Mas já o lançamento dos dois últimos ficou marcado pela polémica, por se ter enveredado pela sua construção segundo os padrões adoptados pela Holland America nos seus navios da classe Vista. Um dos pontos de crítica mais destacados referia-se às dimensões das cabines, se comparadas com as do QUEEN MARY II, com pouco espaço para arrumações nas casas de banho ou reduzido espaço para vestir. A verdade, porém, é que tendo ficado o QUEEN MARY II, recentemente entregue, excessivamente caro, o dobro, aproximadamente, do custo de muitos dos navios de cruzeiro contemporâneos, a Cunard resolveu tomar a decisão económica de basear o QUEEN VICTORIA num navio da classe Vista, de construção mais económica, tendo o QUEEN ELIZABETH, que se lhe seguiu, mantido o mesmo design embora com algumas pequenas modificações.

            Porém, a construção do novo QUEEN não esteve isenta de complicações, tendo-se passado cerca de seis anos entre o anúncio inicial da 3629 03sua construção e a sua viagem inaugural. O rebaptismo do VISTAFJORD como CARONIA e a sua colocação no mercado britânico – o segundo maior mercado de cruzeiros do mundo – que a Carnival Corporation empreendeu durante o processo de reestruturação da frota da Cunard mostrou não ser mais do que uma solução intermédia, pois o navio já tinha trinta anos e não possuía a aura do QE2; para colocar um final nas especulações, em 14 de Dezembro de 2001 a Carnival Corporation assina uma carta de intenções com os estaleiros Fincantieri para a construção de um novo navio para a Cunard. Segundo as informações dadas à época, o novo Cunarder, ainda sem nome, deveria ser uma unidade com cerca de 85.000 GT, obedecendo, entre outras condições, a ter um deck de passeio contínuo à volta do navio e lounge com vista para a proa. Recebeu o número de estaleiro 6078. Viria a ter o nome de QUEEN VICTORIA segundo anúncio da Cunard de 31 de Março de 2003. No entanto, a Carnival viria a atribuir este casco a uma sua outra subsidiária, a Holland America Line, para quem havia sido inicialmente encomendado. A quilha foi assente em Julho de 2003, mas o casco, pouco depois do lançamento à água, foi transferido da Cunard para a P&O, sendo finalmente entregue a esta Companhia como ARCADIA em Abril de 2005.

            Em 5 de Abril de 2004, a Cunard anunciou que havia encomendado um novo navio aos Fincantieri de Marghera, Veneza, que receberia o nome de QUEEN VICTORIA em substituição do casco 6078 que havia sido transferido para a P&O. O motivo invocado para esta transferência e a sequente nova encomenda, foi o sucesso das suites e suites júnior do QM2, que aconselhavam a encomendar um navio mais luxuoso.

            O segundo QUEEN VICTORIA recebeu o número de estaleiro 6127. A Cunard aproveitou a oportunidade para introduzir algumas modificações, que o tornariam mais apto a enfrentar as águas do Atlântico.

            Em 19 de Maio de 2006 foi assente a quilha do nº 6127 e em 15 de Janeiro de 2007 foi posto a flutuar na sua doca de construção, tendo sido rebocado para um cais exterior para acabamentos; e segundo os costumes do estaleiro italiano, a madrinha do navio, numa cerimónia equivalente ao seu baptismo final, foi uma antiga funcionária da Cunard Line, Maureen Ryan, que entrara na empresa em 1963, com apenas 17 anos de idade, sendo a única pessoa conhecida que serviu a bordo de todos os QUEEN’s anteriores. Segundo a tradição, quebrou contra o casco do navio uma garrafa de Prosecco, seguido da tradicional colocação de moedas no mastro. No presente caso foi soldada uma moeda de um Euro e uma moeda de ouro Queen Victoria na base do mastro do radar.

            O QUEEN VICTORIA deixou o porto de Veneza em 24 de Agosto de 2007 para iniciar as suas provas de mar que cumpriu com inteiro sucesso e, após a sua transferência para a Cunard, chegou a Southampton no dia 7 de Dezembro. Foi baptizado oficialmente por Camilla, duquesa da Cornualha, no dia 10 do mesmo mês, continuando a tradição de cada Queen ser benzido por um membro da família real.

            A garrafa de champanhe não quebrou no impacto com o casco do navio, o que seria prenúncio de mau agouro segundo as superstições náuticas, sendo imediatamente quebrada uma outra, de reserva, com sucesso. A viagem inaugural foi iniciada em 11 de Dezembro, um cruzeiro de dez dias para o Norte da Europa.

            Foi designado o Capitão Paul Wright como seu primeiro Comandante, sendo Christopher Rynd o Oficial Imediato e, em 9 de Dezembro de 36292010, seria anunciado pela Cunard o seu primeiro Capitão do sexo feminino, que seria Inger Klein Olsen, natural das Ilhas Faroe, que assumiria o comando do QUEEN VICTORIA em 15 de Dezembro.

            Como facto histórico interessante refira-se que o primeiro troço de uma volta ao mundo, que foi a travessia do Atlântico logo a seguir ao cruzeiro inaugural, foi feita em tandem com o QUEEN ELIZABETH 2, tendo-se os dois encontrado com o QUEEN MARY 2 em frente à Estátua da Liberdade em Nova Yorque em 13 de Janeiro de 2008, sendo o encontro celebrado com uma sessão de fogo de artifício. A Cunard comunicaria então que este momento seria único, pois o QE2 seria retirado de serviço no final desse ano. No entanto, os navios encontrar-se-iam de novo em Southampton em 22 de Abril do mesmo ano.

            O QUEEN VICTORIA, de 90.049 GT e deslocando 46.487 tons tem 294.0 m de comprimento, 32.3 m de boca e 7.9 m de calado., com 62.50 m de altura desde a quilha até à chaminé. Dos seus 16 decks, 12 são acessíveis aos passageiros, estando os espaços públicos situados essencialmente nos pisos inferiores, até ao terceiro pavimento. Nos restantes, estão situadas as 1.007 cabines e suites de várias categorias, das quais 708 têm varandas privadas. Pode transportar 2.014 passageiros e 900 tripulantes.

            Como facilidades para os passageiros, o navio tem cinco restaurantes e duas piscinas exteriores. Muito ao estilo e ao gosto britânicos, oferece a Royal Arcade, um passeio aberto com a altura de dois decks inspirado no Burlington Arcada District, com estabelecimentos em parceria com os Harrods, Royal Doulton e Wedgewood. O Royal Court Theater pode acolher 830 espectadores e é tecnologicamente muito avançado. Notável ainda a Biblioteca, em dois níveis ligados por escadaria em caracol e dispondo de 6.000 livros e o salão de baile Queen´s Room. Os interiores são muito influenciados pelos do QUEEN MARY II, em especial o seu muito especial restaurante Todd English. A decoração interior, muito ao estilo da Cunard, é victoriana, muita art deco incorporada pelos dois maiores designers de navios, Giacomo Mortola e Teresa Anderson. De notar ainda, ao cimo da escadaria do átrio principal, uma bela escultura do escultor britânico John McKenna.

Indicativo de chamada:ZCEF3; IMO 9320556; MMSI: 310624000

REFERÊNCIAS:

FLOUNDERS,Eric, GALLAGHER,Michael – The Story of Cunard’s 175 Years – Ferry Publications, Isle de Man, 2014

MAYES, William – Cruise ships, fifth edition – Overview Press – Windsor, November 2014

FRAME, Chris, CROSS, Rachelle – The Cunard Story, The History Press, United Kingdom, 2011

NEWALL, Peter – Cunard Line, A Fleet History – Ships in Focus Publications, Longton, 2012

SAUNDERS, Aaron – Giants of the Seas - Seaforth Publishing, Pen & Sword Books; Barnsley,2013

SCHWERDTNER Nils – The New Cunard Queens – Seaforth Publishing, Pen & Sword Books; Barnsley, 2011

SMITH, C. Peter – Cruise Ships, The most luxurious vessels – Pen & Sword Books, 2010

WILLIAMS, David L. – Cunard’s Queens Reveled, Ian Allan Publishing, Hersham, Surrey, 2011

Wikipedia, the free encyclopedia – Várias entradas

 

Texto: arq. Paiva Leal

Fotografias: Reinaldo Delgado

 


 

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