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Sábado 27 Maio

Rabelos em Regata Sanjoanina Atribulada

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Mais uma vez a tradição se cumpriu. Animando os festejos sanjoaninos das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia, os rabelos, uma vez mais, saíram da naftalina para enfrentar as águas do Douro, de velas enfunadas pelo vento. Porém, desta vez, brejeiro como o povo o “pinta”, o Santo resolveu pregar umas partidas e animar a regata obrigando os marinheiros a demonstrar toda a sua destreza em dominar as embarcações. E o rio Douro, apesar das barragens que represaram as suas águas ao longo do seu curso, também quis demonstrar que, afinal, não estava totalmente domado.

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            Quanto aos rabelos, que ainda bem recordo ter visto navegar rio abaixo a caminho de Vila Nova de Gaia carregados de barris, de velas brancas enfunadas pelo vento e com o arrais agarrado à espadela e dirigindo o resto da tripulação na manobra, empoleirado naquela caranguejola a que se deu o nome de apegada, estão hoje reduzidos àqueles exemplares que agora estacionam na Ribeira de Vila Nova de Gaia e que só navegam uma vez por ano, pelo São João. É uma pena pois, segundo Maurício de Abreu ... chegaram a ser mais de três mil, mas a última viagem, Douro abaixo, terá sido no já longínquo ano de 1965, antes de a barragem do Carrapatelo ter fechado o rio. As suas grandes velas já não são brancas mas ostentam as cores das caves vinícolas suas proprietárias. Também já se não vê o bacalhau seco dependurado no mastro, à frente do arrais, que dele ia tirando umas lascas quando os trabalhos do governo do barco lho permitiam.

            Mas ao falar de rabelos, não é possível deixar de se falar do rio a que deram vida, o tal rio a que Miguel Torga, já no longínquo ano de 1979, se referia como ... o doiro magro e viril, que ainda não há muito desci de barco rabelo e de credo na boca, a saltar de sorvedouro em sorvedouro, ei-lo agora entoirido, manso, paralítico, passeado numa lancha a vapor, sem sobressaltos de qualquer ordem; rio este que também assim conheci, pelo que é sempre com alguma nostalgia que recordo esses tempos de rabelos e de rio selvagem e perigoso.

            Quem apenas hoje conhece o Douro dos nossos dias, que quase poderíamos comparar a um leão de circo, domesticado pelas várias barragens que transformaram o seu curso numa sucessão de lagos, não poderá nunca compreender as razões que levaram o barco rabelo a ser aquilo que foi, uma embarcação robusta, apta a navegar num rio de águas bravas e com poucos fundos, com rápidos que referviam de encontro aos penedos que tentavam barrar-lhe o livre curso.

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            Também quem hoje sulca as águas do Douro no conforto a bordo de um dos barcos de cruzeiro que nele navegam, nunca poderá ter a perfeita noção de o que era a navegação “no tempo dos rabelos”. Era uma navegação heróica, de risco sempre à espreita em cada rápido ou em cada penedo que mal aflorava à superfície ou, se mais saliente e impedindo o livre curso das águas, formando medonhos redemoinhos que era mister vencer. Por isso a navegação era feita só de dia porque só à luz do dia era possível detectar as armadilhas do rio, pois não havia faróis ao longo do seu curso; e a bordo, quando muito, havia apenas a luz de um lampião. Era necessária muita perícia, muita bravura destes marinheiros, sempre de olhos fitos no espumejar da corrente para manobrar estes barcos, por vezes num silêncio que só a voz de comando do arrais quebrava quando ordenava a manobra.

            Os tempos evoluíram e, como tal, foi-se tornando mais difícil a tarefa dos rabelos pois, primeiro os caminhos-de-ferro e a melhoria das estradas que proporcionavam outra capacidade e outra rapidez de transporte, e depois as barragens, contribuíram para o seu desaparecimento paulatino. Os rabelos que hoje existem reduzem-se a um exemplar existente no Museu do Douro, na Régua, e aos que resistiram ao abate e encostaram aos cais de Gaia, sendo adquiridos pelas Caves do Vinho do Porto, a que outros se juntaram mandados construir por outras Caves, e que hoje também estacionam na Ribeira de Gaia.

            Porém, a hecatombe viria a ter um fim. Em 1983, por iniciativa da Confraria do Vinho do Porto, realiza-se a primeira regata, que constituiria também a grande saída à luz do dia da própria Confraria. Nela participariam apenas quatro embarcações, um bocado velhas, só existindo as da Ferreira e da Calem. Só mais tarde a Cockburn construiu o primeiro rabelo dos tempos modernos. Na última regata, que vai na 33ª edição desta prova, já participaram 14 embarcações.

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            No entanto, segundo o actual Almotacé da Confraria do Vinho do Porto, nem todas as casas participam na regata. Manter um barco rabelo não fica barato, pois só a manutenção diária e anual da embarcação fica mais cara do que a aquisição do próprio barco.

            Antigamente, as regatas tinham lugar de manhã mas, segundo o actual Chanceler da Confraria, quase não havia assistência de pessoas na margem do rio a assistir à prova depois da noitada de São João. O cansaço da noitada pedia mais cama do que assistir a regatas. Por tal motivo passou-se a assegurar que a mesma tivesse lugar à tarde. A hora da regata é fixada em função das marés. Os rabelos são barcos pesados e difíceis de manobrar e, desenrolando-se a prova entre o Cabedelo e a ponte D. Luís I, não é conveniente que se realize durante a vazante pois, se assim fosse, os barcos teriam de navegar contra a corrente.

            Neste ano de 2016, porém, as coisas não correram de feição, mesmo tendo a regata início na Afurada e não no Cabedelo, como era de uso. Talvez fosse uma brejeirice sanjoanina aliada à prosápia do rio que quis demonstrar que nem as barragens nem os molhes o teriam completamente domado. Daí que à forte nortada que se fez sentir se tenha associado a imprevisibilidade da corrente, apesar de o dia se apresentar soalheiro, para complicar a vida aos experientes arrais e demais tripulação; e uma vez que esta regata tem lugar sempre no dia 24 de Junho, dia de São João e das festas das cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia e estando integrada nos seus festejos, não havia lugar à escolha de outra ocasião com condições atmosféricas mais propícias. Também a hora prevista estava perfeitamente em sintonia com os movimentos da maré pelo que, deste factor, não era expectável haver as complicações que houve com a forte corrente de montante para jusante, o que não só complicou enormemente a manobra das embarcações, já por si de governo difícil, como estragou um espectáculo que se esperava deslumbrante, como de resto tem sido usual, para gáudio de quem a ele assiste. Mas desta vez foi motivo para a imprensa diária arranjar farta matéria de notícia, infelizmente pelas piores razões. Afrontando esta conjugação negativa dos elementos, alguns dos rabelos, mais afortunados ou melhor posicionados, conseguiram superá-la entrando na corrente da água caprichosa a caminho da meta, sem problemas e em bom andamento, enquanto outros, talvez quase metade, tiveram incidentes vários durante o seu atribulado percurso. Logo à partida, os barcos da Fonseca e da Warre entraram em colisão, após o que a confusão se instalou. Mais acima, o vento forte arrastou outros para o porto de pesca da Afurada e atirou outros mais para o molhe. Vários deles ficariam também com as velas rasgadas. Foi um espectáculo inesperado para os vários pescadores que costumam fazer poiso junto ao arco da ponte da Arrábida, que presenciaram “de bancada” as desventuras dos barcos que seguiam rio acima navegando aos bordos, entrando nos redemoinhos das águas para saírem desgovernados na direcção das margens, salvos de avarias maiores pelas tripulações atentas das lanchas de apoio que os acompanhavam de perto. Enfim, foi uma regata que ficará na memória de quem a ela assistiu por ter-se realizado no meio da confusão, com despistes, desistências e abalroamentos à mistura, com barcos a terem de acabar o percurso a reboque das lanchas de apoio, como sucedeu ao da Grahams e ao da Cockburn. Já o rabelo da Porto Cruz, embora não desistindo, esteve bem perto de bater contra a muralha, sorte que não teve o da Offley que vai mesmo bater, com alguma violência. Azar, igualmente, teve a tripulação do barco que venceu a regata do ano passado pois, com o mastro partido e a vela rasgada, mal começou a regata teve que ... encostar às boxes…  

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            Segundo relataria a imprensa diária, em Gaia o espectáculo acabaria por ser mais compensador pois foi ali que alguns barcos ... foram arrastados para a margem, fazendo as delícias de quem aproveitou para fotografar.

            Posto isto, pode dizer-se que quase todos cumpriram o percurso, embora muitos deles não o tenham conseguido com meios próprios, subindo o rio a reboque. Mesmo assim, pelo ineditismo da situação e o desfecho inesperado, contrariamente ao sucedido nas regatas realizadas nos anos anteriores, poderá dizer-se que a ansiedade provocada pelos incidentes de que eram vítimas os barcos que desgovernavam contribuiu para que a curiosidade não esmorecesse e se mantivesse o interesse dos milhares de pessoas que, atentas a todas as incidências da prova, coloriram as margens do rio ao longo de todo o percurso.

Referências:

FERNANDES, José Manuel, ABREU, Maurício, – Rios de Portugal – Círculo de Leitores, Lisboa, s/data

FILGUEIRAS, Otávio Lixa – Barco Rabelo, Um Retrato de Família” – Edição patrocinada por A. A. Calem & Filhos, Porto, 1988

GUIMARÃES, Dr. Gonçalves – A Regata de Barcos Rabelos, 2006 (texto inserto na reedição de “O Rabelo” de Armando de Mattos

MATTOS, Armando de – O Rabelo – reedição patrocinada pela Associação dos Amigos de Pereiros, S. João da Pesqueira, Novembro de 2006

TORGA, Miguel – Diário XIII – Planeta d’Agostini, Lisboa, 2003

Jornal de Notícias

Referencias : (614)

Texto: Arq. Paiva Leal

Fotografias: Reinaldo Delgado

 


 

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