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Domingo 23 Abr

Sol da Meia Noite [MIDNATSOL] em Leixões

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3717Sucedeu no passado dia 23 de Setembro uma ocorrência, talvez única, no Porto de Leixões: duas escalas inaugurais no mesmo dia. De facto, Leixões recebeu o KONINGSDAM e o MIDNATSOL, o primeiro da Holland America Line e o segundo da Hurtigruten, sendo a primeira vez que o “SOL DA MEIA NOITE” [MIDNATSOL] brilhou neste porto. Procedente da Corunha, o MIDNATSOL atracou na Estação de Passageiros de Leça da Palmeira pelas 8.00 horas do dia 23 deste mês de Setembro, tendo partido rumo a Lisboa às 18.00 horas do mesmo dia.

            A Hurtigruten tem sido, nos últimos anos, frequentadora habitual deste porto, mantendo uma escala anual do FRAM que agora se vê substituido pelo MIDNATSOL que, de resto, já tem nova escala prevista para Abril do próximo ano, ao passo que o FRAM desapareceu da programação.

            A Hurtigrutem não é uma Companhia nova, mas antes centenária. Foi criada como um serviço diário de transporte por mar, ligando os vários portos existentes ao longo da extensa costa norueguesa, que se estende por mais de 2.700 Kms. Esta “rota rápida” [hurtigruten], que se poderá traduzir como “Expresso Costeiro”, foi lançada em 1893 por Richard With que no dia 2 de Julho desse ano partiu de Trondheim para Hammerfest, com regresso a Trondheim, a bordo do navio a vapor VESTERAALEN. Apareceu assim a Vesteraalens Dampskibsselskap. Mas já desde 1882, com a colaboração do capitão Andreas Holte, Richard With procedera a um cuidadoso levantamento dos canais navegáveis ao longo da costa norueguesa e ousou ligar Hammerfest ao coração da noite polar. Sucedeu, entretanto, que em 1889 e 1890 os serviços do ministério do interior de Oslo tinham estudado uma forma de permitir a exploração de uma linha de navegação que servisse as populações ao longo da costa oeste do país. Foi feito pedido de propostas para o serviço de um vapor em 18 de Abril de 1891 e, dois anos depois, entraria ao serviço o já referido VESTERAALEN de Richard With.

            Largamente auxiliada pelo governo norueguês, esta linha foi, durante muito tempo, uma ligação vital entre as numerosas povoações costeiras, sendo a viagem particularmente difícil durante os longos e escuros invernos. Para se compreender a importância desta linha, acrescente-se que o correio do centro da Noruega para Hammerfest que demorava três semanas no verão e, no inverno, cinco meses, passou a ser entregue em sete dias.

            O serviço da Hurtigruten veio a ser complementado por duas outras linhas pelo que, no final do século, havia três linhas de navegação em funcionamento: uma ligando Trondheim a Hammerfest, a segunda de Bergen até Hammerfest e a terceira ligando Hammerfest a Vadsø, já para além de Hammerfest. Esta terceira linha seria prolongada em 1908 até Kirkenes, terminus actual do serviço da Hurtigruten. Entre 1898 e 1919 o terminus sul da linha sofreu algumas alterações até que, definitivamente, ficou fixado em Bergen, que ainda hoje permanece o porto de partida. Outras ligações apareceram entretanto até que em 1 de Junho de 1936 se deu a fusão das três linhas, passando a linha resultante a ter Bergen como porto de partida a sul e, a norte, Kirkenes.

            Até finais dos anos de 70 do seculo passado, a Hurtigruten foi, para algumas povoações, a única ligação com o mundo exterior, em especial no inverno, pelo que era generosamente subvencionada pelo Estado. No entanto, com o desenvolvimento da rede rodoviária e do transporte aéreo, a linha foi perdendo importância, o que conduziu a Companhia para a exploração turística, que hoje é a sua vocação essencial. Porém, mesmo assim, os seus navios asseguram o serviço de transporte de passageiros e carga em cabotagem.

            Com a aposta no turismo, uma nova geração de navios foi construída no período de 1994-2002, com a preocupação comum do transporte de passageiros, carga e a exploração do turismo, pelo que se definiu um tipo de navio que pudesse comparar-se a um pequeno navio de cruzeiros em matéria de conforto e de equipamentos. Foi com este propósito que os novos navios passaram a ser dotados com suites, saunas e piscina e, por consequência, foi possível à Hurtigruten proporcionar aos seus navios outras ocupações, transformando-os em “navios de expedição”.

            Os navios desta geração, a despeito do conceito de base que presidiu à sua construção, variam bastante em porte e em equipamentos, pelo que não poderemos dizer que são verdadeiros irmãos. No entanto, existe entre todos eles um ponto comum: a existência de um salão panorâmico na ponte superior, permitindo aos passageiros uma boa vista para o exterior, mesmo em caso de mau tempo. O navio que no dia 23 deste mês de Setembro visitou Leixões pertence a este grupo de pequenos e simpáticos paquetes.

            O MIDNATSOL que agora esteve me Leixões é o quarto navio da Hurtigruten a ostentar este nome, depois de um primeiro MIDNATSOL em 1910. Sucedeu-lhe um outro, de passageiros e carga, de 2.097GT, concluido em Novembro de 1949 em Ancona, na Itália, que viria a naufragar ao largo de Fredrikstad, na Noruega, em 1 de Fevereiro de 1987, acabando desmantelado em Bruges, na Bélgica, em Junho desse mesmo ano. O terceiro MIDNATSOL foi a construção nº 176 do estaleiro Ulstein Hatlø de Ulsteinvik e seria entregue à Troms Fylkes Dampskibsselskap, em Novembro de 1982, navegando com este nome até 2.003. No ano de 2.000 a Troms Fylkes Dampskibsselskap (TFDS) encomenda novos navios, tornando-se evidente que um deles passaria a ostentar este nome, motivo pelo qual a este terceiro MIDNATSOL se acrescentou a numeração romana II. No entanto, para não exstirem dois navios com o mesmo nome, em 2005 passou a ser o LYNGEN, até que, em 2008, este pequeno navio que acomoda 148 passageiros, passou a navegar integrado na frota da Lindbad Expeditions como NATIONAL GEOGRAPHIC EXPLORER.3717 01

            Em Dezembro de 2.000 a TFDS assina contrato para a construção do quarto MIDNATSOL, ou seja o actual, que agora esteve em Leixões, com o Bruces Shipyard de Landskrona, Suécia. A quilha foi assente na carreira em 17 de Outubro de 2001 tendo o casco sido lançado à água a 26 de Abril de 2002 e rebocado para os Fosen Mekaniske Verksted, de Rissa, para conclusão (nº de estaleiro 73).

            Há, no entanto, três factos a reter: em primeiro lugar, a Marinha Norueguesa viria a intervir durante a concepção do MIDNATSOL, tendo subsidiado a sua construção, cobrindo os seus custos suplementares, para que este fosse projectado como um navio hospital, tal como sucedera já com o FINNMARKEN de 2002. O navio é auto-suficiente em água e electricidade, e a bordo é possível fazer-se a gestão de resíduos, o que possiblita o navio estar no mar por longos períodos de tempo. Além disso, dispõe de um helipad, além de que os elevadores interiores foram prolongados para acomodar macas. Com um pré-aviso de dez dias, o MIDNATSOL deverá estar operacional como navio-hospital, sendo o convés de automóveis convertido numa enfermaria capaz de receber 200 camas e ter ali a trabalhar 70 médicos e enfermeiros em caso de guerra ou catástrofe. O segundo aspecto tem a ver com a quase não conclusão da construção do navio, pois no inverno de 2001/2002, o estaleiro Fosen abre falência após a construção do navio de cruzeiros THE WORLD, e os bancos terão exigido garantias para que a construção do MIDNATSOL pudesse ser concluída. Tendo sido ultrapassadas as dificuldades, o navio foi concluido e entregue, em Rissa, à Troms Fylkes Dampskibsselskap (TFDS) em 14 de Março de 2003. Em 22 de Março, o navio é baptizado em Hamburgo, sendo sua madrinha Ruth Brandt, ex-mulher do chanceler Willy Brandt. Em ligação com esta cerimónia foi planeada uma ampla campanha de comercialização do navio no importante mercado alemão. A título de curiosidade, assinale-se a presença na cerimónia do MS NORDSTJERNEN, navio construído em 1956 pelos estaleiros Blohm & Voss, de Hamburgo, o mais antigo navio existente que serviu a Hurtigruten, e que desde Dezembro de 2012 está protegido como Património Cultural. Finalmente, ainda não havia terminado o ano de 2003 e o MIDNATSOL viu-se em sérias dificuldades, que poderiam ter acarretado a sua perda prematura. Pela 04.00 horas da manhã de 14 de Dezembro, na sua viagem para sul, entre Aelesund e Maloy, falhou repentinamente a principal fonte de alimentação de energia, o que levou à perda de toda a potência dos motores. O navio aproximou-se perigosamente de um recife e lançou o ferro, numa tentativa de evitar a deriva, mas a tentativa não resultou pelo que todos os 102 passageiros que estavam a bordo tiveram de passar para os salva-vidas. Ainda se tentou o reboque por um outro navio, tentativa que igualmente falhou. Dada a situação crítica em que o navio se encontrava, foi lançada uma mensagem de pedido de socorro. A sorte mudou, porém, quando, apenas já a 150 metros da costa, finalmente, uma âncora prendeu no fundo. Também pouco depois a tripulação conseguiu reiniciar os motores principais, tendo-se verificado que a paragem tinha sido provocada por o tubo de admissão do sistema de refrigeração ter ficado tapado por algas.

            O MIDNATSOL é operado pela Hurtigruten desde 2.006. Tem 135,75 m de comprimento, 21,5 m de boca e 5,1 m de calado. Tem 16.151 GT e 1.184 DWT. Como o navio é um misto de passageiros e de carga ro-ro, as operações de carga e descarga podem ser feitas por camião, que tem acesso ao deck de carga através de uma porta lateral hidráulica, que permite compensar a diferença de nível entre o cais e a plataforma de carga do navio. O navio pode também transportar neste deck 45 veiculos. Está certificado para 1.000 passageiros. Tem 548 camas em 304 cabines, das quais 15 são suites e 7 são mini-suites. O restaurante, que está situado a ré do deck 5, pode acolher 335 comensais. À proa do deck 5 possui um anfiteato que pode ser utilizado para conferências e outras actividades educacionais. O deck 6, dedicado essencialmente a cabines, é igualmente excelente para passeio, com excepção de um pequeno espaço obstruído pelos salva-vidas. Já o deck 8 constitui uma sucessão de espaços públicos extremamente elegantes e cómodos.

            Uma das partes mais atractivas do navio são os dois decks superiores ocupados pelo Panorama Lounge, com a altura de dois decks e completamente envidraçados por três lados, oferecendo uma soberba vista de 180 graus sobre a paisagem.

            O navio possui ainda salas de conferências, biblioteca e bar. No deck 9 possui duas banheiras de hidromassagem ao ar livre. A tripulação é de 150 elementos.

            Os arranjos interiores são agradáveis e cheios de cor, e procuram ser uma referência a um clima ameno e ensolarado, tal como os motivos que se encontram nas muitas obras de arte moderna a bordo. A sua concepção tem por base um perfil ecológico e o emprego de materiais locais.

            Indicativo de chamada: LMDH; IMO:9247728; MMSI:258595000

Referências:

MAYES, William – Cruise Ships, fifth Edition – Overview Press, 2014

SMITH, C. Peter – Cruise Ships, The small scale fleet – Pen & Sword Books, 2014

Wikipedia, The free Enciclopédia (várias entradas)

INTERNET – Vários sites

Texto e fotos: arq. Paiva Leal

 


 

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