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Sexta 24 Nov

Registos com Força 6 pela proa - Uma visão (muito) pessoal

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3890A Escala de Beaufort não podia ser mais exacta. A onda começou mesmo a alongar-se. Cristas de espuma tornaram-se frequentes arrastando-se ao longo dos 24 metros de ripas de pinheiro bravo do costado da VERA CRUZ.

São já colinas ondulantes que enchem ao horizonte.

Com o pôr-do-sol, o mundo define-se num branco níveo e borbulhante que desponta por todo o lado entre tons de cinzento crescentemente escuros lá para Oriente, onde a luz já acabou. Há no ar uma atmosfera de salpicos salgados e pelas amuradas a intimidade entre oceano e convés ultrapassa já todo o decoro, para entrar no excesso. O tombadilho está sempre molhado.

A Escala de Beaufort, sempre corretíssima na sua frieza empírica, informa ainda que tudo isto vem acompanhado de uma sinfonia de silvos que uivam constantemente ao sabor do vento de 30 nós a espremer-se entre mastros, vergas, brandais, estais, adriças, carregadeiras e tudo o mais que uma caravela do séc. XV teria e que a VERA CRUZ, saída de Vila do Conde há 30 anos, ainda tem. E é mesmo assim. Um mundo de som e de movimento brusco. Mesmo muito brusco.

Na coluna do vento na entrada horária no diário de bordo escreve-se: Força 6. Alguém comenta – ‘Que grande badanal!’.3890 01

E com isto iniciamos a travessia da Biscaia no quinto dia de ventos sempre do Norte, sem saudades da costa Ibérica que nos homenageou desde o Cabo da Roca à Corunha com quatro dias (e noites) com vagas de 3 a 4 m, e a tal Força 6, numa coligação malvada, a desafiarem a roda de proa da VERA CRUZ a voos cada vez mais altos, e a descidas cada vez mais vertiginosas.

Camões devia ter algo assim em mente quando nos Lusíadas disse que ... a cor ao gesto muda. Na verdade este cavalgar constante do Atlântico Norte muda muito mais do que a cor do rosto (e isso, a mim, também me mudou). Uma queda de umas centenas de toneladas de pinho, sobro, carvalho, câmbala e lastro de chumbo, a resvalarem por uma encosta de 4 m de espuma atlântica a fervilhar, faz com que fique para trás a cor do rosto, o estômago e uma parte muito substancial da dignidade de um marinheiro amador (seguramente o meu caso pessoal). Quanto aos profissionais, dizem-me no intervalo entre duas vagas, que passam como locomotivas a vapor num despique de violência borda fora, que há dois tipos de homens do mar: os que enjoam e os mentirosos.

No meio do ‘’badanal’’ há a bênção dos medicamentos contra a náusea que ao fim de três dias de agonia actuaram no meu martirizado organismo e me devolveram a compostura perdida, restituindo-me a vontade de conviver com a minha espécie no ambiente maravilhoso que é navegar com amigos.

Zé Inácio, que comanda a VERA CRUZ, e em décadas de aventuras destas aprendeu a falar com o mar, dá-nos uns graus de proa para Sotavento. Com a ventania mais de lado conseguimos erguer uma vela de estai e encher a mezena. O nosso mundo fica um pouco mais estável.

3890 02Foi em conversas com o vento, com as ondas e com a corrente, que o Zé conseguiu um rumo que nos levou de Lisboa a Greenwich em menos um dia do que inicialmente estava previsto.

Com tudo isto, vai-se ficando apaixonado pela VERA CRUZ. Pela dureza encantadora das suas manias. Ter, por exemplo, uma cana de leme de três m, directa, que em casos mais extremos precisa de duas pessoas e de um encontro de vontades entre quem puxa de um lado e quem empurra do outro. Magia que a faz cair num abismo entre ondas para se erguer, sempre, ganhando por vezes apenas metros num mar que não quer deixar passar nada.

Depois, há o conforto acolhedor do seu interior onde, na verdade, nada falta e onde se tem uma sensação única de aconchego, no fim de um quarto de vigia, quando se desce à cabine às duas da madrugada.

É com esta magia que a VERA CRUZ da Aporvela lá vai, mar fora, cumprindo um destino que agora tem mais de cinco séculos. Encantando quem a vê, como encanta quem a viu chegar a Greenwich, surpreendendo sempre pela sua beleza ousada, que sobressai mesmo no meio de umas dezenas de outros veleiros, também eles cheios de histórias. A VERA CRUZ distinguiu-se na frota dos Tall Ships em Londres, amarrada no Tamisa à vista da CUTTY SARK, que também já foi portuguesa, frente ao nobre almirantado britânico de onde Nelson partiu para vencer Napoleão em Trafalgar.

A VERA CRUZ faz parte desse mundo de heranças fortes e recordações reservadas a quem quer ter memória.

 

Por Mário Crespo 

Jornalista

 


 

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