História

O fim do REVENGE (1591)

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

Ao largo dos Açores, em 1591, é travada uma das mais famosas batalhas navais de todos os tempos, entre o galeão inglês REVENGE, navio do célebre Sir Francis Drake nos combates no canal em 1588, e uma esquadra de Castela, sob o comando de D. Alonso de Bazán – filho do conquistador da Terceira, D. Álvaro de Bazán.

Revenge
O galeão inglês Revenge (colecção particular)

Após os fracassos da  investida de Filipe II contra Inglaterra em 1588 e da contra-armada de 1589, de Isabel I contra as costas Ibéricas, os ingleses voltam a enviar forças de corsários com o objectivo de atacar os interesses de Filipe II, destinando-se uma delas aos Açores. Informado dessas intenções, o monarca castelhano também envia uma forte armada aos Açores, que incluía diversos navios  lusitanos.

Apesar de ter largado já com o Verão avançado, a armada castelhana, que se encontrava em superioridade numérica, avança a todo o pano rumo aos Açores. À chegada ao arquipélago, rodeia a ilha das Flores pelos dois lados, numa tentativa de tentar apanhar os navios ingleses entre dois fogos.

Estes, que se encontravam em acções de manutenção, com navios varados em terra e a serem beneficiados, face ao alerta, fazem-se de imediato ao largo. Por razões nunca esclarecidas, um único navio, o REVENGE, deixou-se ficar para trás, protagonizando uma das mais famosas batalhas da história, enquanto os restantes ganham distância.

Apesar da grande coragem e da bravura demonstradas pelos ingleses, sob o comando de Sir Richard Greenville, os portugueses e castelhanos, não ficaram para trás dando também provas de grande valentia e coragem, tendo investido contra o navio inglês inúmeras vezes, combatendo dia e noite durante 48 horas consecutivas. Durante o segundo dia de combates, o navio inglês acaba por se render, já com o seu Capitão mortalmente ferido, tal como a maioria dos seus homens.

Poucos dias após a batalha e ainda com os contendores a recuperar do combate, chegam aos Açores 71 dos 120 navios castelhanos que tinham largado das Américas, com destino à península, muitos deles transportando nos seus porões verdadeiras fortunas. Encontrando-se os navios de ambas as armadas castelhanas a necessitar de reparações urgentes, Bazán faz rumo à ilha Terceira, levando consigo o REVENGE, com uma guarnição mista com 70 homens, espanhóis e prisioneiros ingleses.

Entretanto, levantaram-se ventos fortes, que em poucas horas atingiram características ciclónicas, e que levaram à dispersão da frota e ao afundamento de muitos dos navios na costa norte da ilha Terceira. Especificamente no que se refere ao REVENGE, sabe-se que este terá dado à costa, num local de difícil acesso junto à Serreta, tendo morrido todos os  seus homens.

Imediatamente a seguir à perda do navio, foram retiradas 14 bocas-de-fogo. Mais tarde, em 1603, outras 7 peças estavam em posição de ser recuperadas e, em 1625, foram recuperadas mais 18.

Comparativamente com outros navios que se perderam na Terceira nesse ano, o conteúdo do REVENGE não ocupa qualquer lugar de destaque, para além do  valor simbólico que o navio tem na historiografia inglesa.

Por esta razão, trata-se de um navio que está sempre presente em todos aqueles que se dedicam a estas questões tendo, inclusivamente, nos anos 70 do século passado, decorrido duas campanhas, conduzidas por cidadãos ingleses, com o objectivo de descobrir, entre outras actividades de dúbia legalidade, o local exacto onde repousam os destroços.

No que se refere ao local onde o navio naufragou, irá ser difícil utilizar as peças de artilharia do navio como “fóssil director” do naufrágio, pois sabemos que 39 das 42 peças já foram recuperadas Assim, não é de estranhar que o local exacto do naufrágio se mantenha ainda envolto em mistério…

Outras leituras:

Peter Earle, The last fight of the REVENGE, London, 1992.

William Ponsonbie, “Uma narrativa da verdade quanto ao combate próximo das Ilhas dos Açores, neste último Verão, entre o «Revenge», um dos navios de sua Majestade a Rainha, e uma Armada do Rei de Espanha”, Insula, Ponta Delgada, vol.XLVI, 1990, pp.281-303.

André Falcão de Resende, “Domínio Hespanhol nos Açores e D.António Prior do Crato. Do sucesso da Armada que foi às Ilhas Terceiras no anno de 1591”, Archivo dos Açores, vol.VI, P.Delgada, 1981, pp.463-468.

Maria Irene Gil da Silva Braz Teixeira, “A batalha da ilha das Flores. Sir Richard Grenville e o REVENGE”, Boletim do Instituto Histórico, vols.XXV-XXVI, [Angra do Heroísmo], 1967-68, pp.199-291.

Artigo publicado no nº 962 (Julho/Agosto 2011) da Revista de Marinha

O Cte Augusto Salgado é oficial da Armada, doutorado em História dos Descobrimentos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro efetivo ​da Academia de Marinha e da Comissão Portuguesa de História Militar. Tem vasta obra publicada sobre História Naval e Arqueologia Subaquática. É colaborador da Revista de Marinha desde finais de 2003.