Marinha de Comércio

RECORDANDO UM MERGULHO NO PARAÍSO (dos cruzeiros marítimos) 

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Uma viagem não planeada…

Há viagens que se fazem, sem planeamento prévio, que acabam por proporcionar situações inesperadas e deveras interessantes. Foi o caso que passo a relatar, passado há já alguns anos.
Numa certa noite, quando navegava pela internet, por mero acaso deparei-me com o anúncio de uma viagem para a Riviera Maia, numas condições tais que seria um perfeito disparate não aproveitar, tanto mais que, há já muito tempo, tinha o desejo de conhecer os vestígios da civilização Maia do México. Na verdade, interessava-me mais visitar Chichén ItzáTulum e Cobá do que ficar a apanhar sol na praia… Foi, portanto, só pegar no telefone e marcar a viagem, pois poucos dias mais sobravam do que os indispensáveis para fazer as malas, abalar para Lisboa e dali para Cancun! Quanto ao destino, sabia apenas que o hotel era em Playa delCarmen, que o voo seria longo … e pouco mais, pois o tempo para procurar informações complementares era demasiado escasso.

A Bahamas finalmente!

Depois de um voo longo e demorado, seguido de uma viagem de autocarro até ao destino igualmente demorada e cansativa, pois havia que deixar turistas noutros hotéis do percurso, os primeiros tempos teriam, forçosamente, de ser de descanso. Daí que tenha aproveitado os primeiros dias para repousar à sombra dos coqueiros da praia privativa do hotel, frente a um mar entre o azul-turquesa e o verde-esmeralda; e se já durante o voo, quando sobrevoava as Bahamas, me dera conta da quantidade de navios de cruzeiro que navegavam nas águas do Golfo do México, estava longe de esperar que Playa del Carmen ficava mesmo em frente da ilha de Cozumel! Não poderia deixar de reparar, portanto, nas silhuetas dos inúmeros navios que via chegar ou partir da ilha. Assim, sabendo que Cozumel era um dos portos mais visitados pelos navios de cruzeiros nas Caraíbas, ver essas silhuetas navegantes constituía para mim um desafio… até porque via partir, amiúde, um ferry ligando Playa del Carmen à ilha num curto percurso de 45 minutos. Acabei por me decidir a ir até Cozumel.

…e os cruzeiros lá estavam para o repórter da Revista de Marinha.

À chegada, reparei que dois navios da Carnival, o CARNIVAL ELATION e o CARNIVALPARADISE estavam atracados num cais logo ali ao lado daquele onde acabara de desembarcar, junto de um edifício que me pareceu ser um terminal de passageiros. E talvez fosse… mas não o único, como viria a descobrir depois.

Na verdade, vi navegando um pouco ao largo um outro navio da mesma companhia, que mais tarde verifiquei tratar-se do CARNIVAL FREEDOM, que eu esperava viesse juntar-se aos outros dois que ali estavam mas que, no entanto, prosseguiu viagem até que o perdi de vista. Forçosamente deveria existir um outro terminal, porventura maior do que aquele junto do qual desembarquei, pensei então! Meti-me, portanto, a caminho, e ainda tive de calcorrear um bom pedaço.

Durante o percurso a pé, a páginas tantas deparei-me com uma mole imensa, branca, atracada ali um pouco adiante. Dadas as dimensões daquele mastodonte só poderia ser o OASIS OF THE SEAS, pensei eu. E de facto não me enganei. Tinha à minha frente o que à época era o maior navio do mundo, navio esse que nunca me passara pela cabeça ver algum dia, muito menos em Lisboa, pois o seu calado aéreo de 72 m não lhe permitiria passar sob a ponte do Tejo, que apenas tem 70 metros de altura! Começar a fotografá-lo era inevitável, enquanto procurava encontrar o tal terminal que suspeitava existir. Daí a pouco deparei-me com um espaço aberto que me proporcionava aproximar-me mais um pouco da avantesma. Confesso que estava perfeitamente siderado com as dimensões daquele navio que tinha à minha frente!


Enquanto não despegava os olhos do navio, alguém veio ter comigo, deu-me umas pancadinhas no ombro e perguntou-me o que andava a fazer por ali. Lá expliquei ao indivíduo o que fazia e para que fim eram as fotografias. Disse-me que não devia estar ali, que era “peligroso”… e que o acompanhasse. Sinceramente, não vi o que pudesse constituir perigo, mas lá o acompanhei; e foi então que me deparei com o tal terminal de cruzeiros que procurava. O vigilante (suponho que o fosse) bateu a uma porta e um outro, que deveria ser o seu superior, veio atender.
Novamente a pergunta da praxe, sobre o que fazia por ali. Lá invoquei, desta vez, que fazia fotografias para a Revista de Marinha, de Lisboa, mas que, como a viagem que estava a fazer não fora planeada, pois foi para aproveitar uma oportunidade, não trazia comigo qualquer credencial que me acreditasse. Perguntou-me então se tinha comigo o meu “bilhete de identidade”. Claro que tinha… e entreguei-lho.
Desapareceu durante uns curtos minutos no interior do edifício e voltou. Entregou-me o documento e disse ao “vigilante” que me acompanhasse ao director, pois ele queria falar comigo. Como facilmente se compreenderá, fiquei admirado com a situação, pois nunca pensara que o director do porto tivesse disponibilidade para me receber, a mim, que não passava de um estranho!
Fui recebido com uma simpatia extrema, ficando na cavaqueira com ele durante, talvez, mais de um quarto de hora. Cumprimentou-me com toda a cordialidade e, para meu espanto, pois não esperava tal atitude, disse-me em jeito de despedida: … esteja à sua vontade, circule por onde quiser e durante o tempo que entender e faça as fotografias que tiver na vontade fazer.
Que mais poderia eu desejar? Fiquei por ali bastante tempo, andei por onde me apeteceu, fiz as fotografias que quis, comprei alguns postais e mais não trouxe porque nas lojas apenas aceitavam “pesos”, a moeda local, e eu, infelizmente, levei poucos comigo… confiado de que o cartão de crédito resolveria as eventuais necessidades.
Depois, bem contra a minha vontade, tive que me fazer ao caminho de regresso, que ainda era bastante longo, para apanhar o barco de volta a Playa del Carmen a tempo  do último autocarro para o hotel.  
Foi uma boa tirada sob um calor inclemente àquela hora, de tal modo que a primeira coisa que fiz, mal desembarquei, foi descalçar os ténis e caminhar pela água ao longo da praia.

O OASIS OF THE SEAS, um verdadeiro gigante dos mares

Foi uma tarde que valeu a pena, em que desfrutei de umas provas de gentileza extraordinária que não esperava, desde as de um simples vigilante até às do Director do Terminal Internacional de Cruzeiros de Cozumel, a tudo isto acrescentando a visão de um navio que estava fora dos meus planos avistar. Para que se faça uma ideia da magnitude de tal mastodonte, bastará dizer que é ligeiramente menor do que um porta-aviões da classe NIMITZ! Encomendado pela Royal Caribbean International aos estaleiros da STX Finland, de Turku, sob a designação de “Projecto Genesis”, teve o número de estaleiro 1363. A quilha foi assente em 12 de Novembro de 2007 e o navio foi posto a flutuar em 21 de Novembro de 2008. Acabado em 28 de Outubro de 2009, fez a sua viagem inaugural com partida em 5 de Dezembro de 2009.
Esta cidade flutuante, com 16 decks acessíveis aos passageiros, tem uns impressionantes 361,6 de comprimento, 47 m de largura na linha de água e uma boca de 60,5 m. O seu porte é de umas não menos impressionantes 225.282 GT ou 15.000 DWT. Se a sua altura de 72 m acima da linha de água (calado aéreo) também impressiona, mais ainda mpressiona que o seu calado seja de apenas 9.32 m! Pode acolher a bordo 5.400 passageiros em ocupação dupla ou, em ocupação máxima, 6.296. A tripulação é de 2.394 elementos.
É fantástico o seu Central Park, ladeado de boutiques, bares e restaurantes como qualquer rua de uma qualquer grande cidade; isto, além de o OASIS OF THE SEAS possuir o primeiro parque vivo no mar, com nada menos de 12.000 plantas e 56 árvores! Os camarotes e demais equipamentos públicos distribuem-se ao longo de duas alas, o que proporciona que, além de vista de mar, também possam ter varandas voltadas para o parque central que percorre todo o navio e, à ré, termina num anfiteatro com uma tela de cinema ao ar livre. Impressionante, de facto! Junto dele e olhando para o alto… só se vê navio!
Formalmente benzido a 30 de Novembro de 2009, durante a viagem de beneficência Make-A-Wish Foundation, teve nada menos de sete madrinhas, cada uma representando um dos sete “bairros” existentes a bordo. Foram elas: Gloria EstefanMichelle KwanDara Torres, KeshiaKnight PulliamShawn Johnson, Jane Seymour e Daisy Fuentes.
Foi, na verdade, um perfeito mergulho no paraíso… dos cruzeiros marítimos. 

Arquitecto, nascido e residente em Paredes, distrito do Porto. Colaborador da Revista de Marinha em Leixões Membro do Grupo de Arqueologia Naval do Noroeste e da Confraria Marítima de Portugal