Escaparate

2034 – Um romance da próxima guerra mundial

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Trata-se de um livro bastante interessante, publicado recentemente nos EUA, sobre a hipótese de uma guerra entre aquele país e a República Popular da China, a deflagrar em 2034.

São autores o Almirante Jim Stavidris, reformado da Marinha Americana e Elliot Ackerman. O primeiro foi Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa (NATO Supreme Allied Commander Europe) entre 2009 e 2013 e o segundo é um romancista que foi oficial fuzileiro (U.S. Marine Corps) entre 2003 e 2011, tendo recebido várias condecorações por ações em combate. Ambos são já autores de vários livros, publicados a título individual.

O livro em apreço conta uma história romanceada acerca de uma guerra que os autores já afirmaram em entrevistas não ser uma premonição, mas sim uma situação que deve merecer as maiores cautelas, de modo a evitar que possa ocorrer. O leitor pode facilmente pensar em situações similares com o mesmo resultado, ou seja, a evolução de um pequeno confronto militar para uma guerra nuclear tática e daí a possível escalada para uma guerra nuclear total (ou estratégica), embora no livro não se chegue a atingir este derradeiro patamar.

Capa da edição em língua portuguesa (imagem Wook)
Capa da edição em língua portuguesa (imagem Wook)

A história começa com vários incidentes que demonstram uma grande superioridade da China em 2034, em termos de cibersegurança, sem que os EUA se tenham apercebido dessa diferença de capacidades, o que vai causar verdadeiros desastres, totalmente inesperados, para as forças aeronavais americanas.

No mar do sul da China, um arrastão chinês, aparentemente com incêndio a bordo, chama a atenção de uma força americana constituída por três modernos navios (destroyers). Não pede auxílio, mas a Comodoro americana, Comandante da força, resolve enviar embarcações com equipas de assistência que combatam o incêndio e para averiguar atitudes suspeitas. Verifica-se que se trata de um falso arrastão, dispondo aparentemente de tecnologia avançada, cujo Capitão se rende à Comodoro. Na realidade, o incidente é “fabricado” pela China, com segundas intenções, para justificar uma resposta antecipadamente planeada

Entretanto uma força naval chinesa, constituída por um porta-aviões nuclear e vários outros navios, surgindo sem ter sido detetada a longa distância, efetua manobras de cerco à força americana. Porém, vários dos sistemas de combate e de comunicações dos navios americanos deixam de funcionar, ficando estes completamente indefesos, perante um surpreendente ciber-ataque da força naval chinesa.

A alguns milhares de quilómetros de distância (para Oeste), nas imediações do Estreito de Ormuz, um avião americano F-35 fazendo testes de novos equipamentos furtivos é conduzido para uma base aérea iraniana, contra a vontade do piloto. Os comandos do avião deixam de obedecer ao piloto e o aparelho aterra suavemente, guiado por uma força estranha.

um avião americano F-35 é conduzido para uma base aérea iraniana, contra a vontade do piloto
Um avião americano F-35 é conduzido para uma base aérea iraniana, contra a vontade do piloto

A China ainda propõe em Washington uma troca. Libertação do arrastão chinês da tutela americana e a devolução do F-35 pelo Irão, aliado da China. Mas, nem sequer existem comunicações entre a força naval americana e os respetivos comandos em terra (nada funciona). Perante esta situação, a ofensiva chinesa é terrível. Dos três destroyers, dois são afundados e o terceiro fica em muito mau estado, permitindo, contudo, o salvamento da Comandante da força e mais algumas dezenas de membros da guarnição. São sobreviventes propositados, para que possam relatar o sucedido às autoridades americanas.

A partir de então, ambos os países entram no jogo da ação e reação, mas os EUA não são capazes de enfrentar com sucesso as ciber capacidades por parte da China. Assim, duas poderosas esquadras, lideradas por dois porta-aviões num total de 37 navios, são completamente destroçadas pela mesma força naval chinesa. A China aproveita a fraqueza americana para invadir Taiwan. Incapazes de reagir ao nível convencional, resta apenas uma resposta nuclear por parte dos EUA. Recorre-se ao nível nuclear tático, para não subir de imediato ao nível estratégico. O importante porto de Zhanjiang é atacado e destruído. Porém, a resposta chinesa arrasa as cidades de San Diego e Galveston. Os americanos preparam uma retaliação para destruir três grandes cidades chinesas, mas só conseguem atingir Xangai (37 milhões de habitantes). A Rússia (aliada da China) também tira partido da confusão instalada e invade a Polónia, com o objetivo de obter uma ligação por terra até ao porto de Kaliningrado, no Báltico. Adicionalmente, destrói vários cabos submarinos, provocando a interrupção da internet de 10 G em grande parte do território dos EUA.

Talvez seja um excesso de criatividade dos autores, mas o que se segue é uma intervenção da Índia, que, entretanto, já adquiriu o estatuto de grande potência, com ciber capacidades de topo. Não só elimina a grande força naval chinesa, como impede o ataque nuclear tático dos EUA a duas grandes cidades chinesas. Só não consegue evitar a incursão a Xangai, face ao engenho americano que permite viabilizar um ataque suicida àquela cidade por um avião isolado, dispondo de uma bomba nuclear tática. A Índia passa então a mediar o conflito, evitando um holocausto mundial.

O enredo do livro estimula a nossa reflexão sobre a hipótese de um conflito armado entre grandes potências nas próximas décadas e suas consequências.

Uma primeira observação prende-se com a chamada surpresa técnica, um conceito usado em estratégia militar, com ilações muito importantes, eventualmente decisivas. Uma das partes utiliza uma nova arma ou uma tecnologia de defesa inesperada, que lhe confere uma vantagem determinante. Se houver tempo e conhecimentos para reequilibrar as forças, esse é um caminho possível. Não sendo exequível, a derrota só pode ser evitada, com recurso às armas mais destrutivas. No caso vertente, não havendo capacidade para ultrapassar a vantagem proporcionada pelos ciber-ataques, resta apenas o uso de armas nucleares táticas ou estratégicas.

Esta situação levanta imediatamente outra questão, igualmente importante. Uma falha dos serviços de informações, que não conseguiram obter os dados necessários para que os EUA não fossem apanhados completamente desprevenidos. Será que existe um défice deste tipo? A pergunta fica no ar.

O Almirante James Stravidis e Elliot Ackerman, numa conferência sobre o romance 2034 – Um romance da próxima guerra mundial(imagem Atlantic Council)
O Almirante James Stravidis e Elliot Ackerman, numa conferência sobre o romance (imagem Atlantic Council)

O fator humano e as questões psicológicas, de importância muito relevante, estão representadas pelas personagens imaginadas pelos autores e que tomam as decisões aos vários níveis, exigindo um elevadíssimo controlo emocional. Curiosamente, em 2034, o cargo de presidente dos EUA é desempenhado por uma mulher.

Sobre a guerra nuclear haveria muitas considerações a fazer. Todavia, não sendo possível, nem adequado, alongar muito o texto, alerta-se para o facto de haver a tentação das grandes potências em passarem ao nível estratégico, após a deflagração de armas nucleares táticas. Isto porque um primeiro ataque (first strike) em larga escala pode incapacitar o adversário, o que corresponde a vencer a guerra, evitando uma eventual destruição mútua. O problema é que é necessário neutralizar os submarinos balísticos nucleares do inimigo, ou, pelo menos, a maior parte deles, o que se afigura extremamente difícil.

Seja como for, o papel das Marinhas terá sempre uma importância enorme em caso de crise grave ou conflito armado. Desde o pretexto, ou qualquer outro fator precipitante das hostilidades, até à intervenção dos vários tipos de navios (incluindo submarinos) e da aviação embarcada. A mobilidade estratégica e a flexibilidade de emprego das forças navais conferem-lhes vantagens inigualáveis. As manobras de diversão e a dissuasão nuclear fazem parte das possibilidades de emprego.

Nos últimos cinco séculos os poderes hegemónicos foram simultaneamente os maiores poderes navais do seu tempo (estudos do Prof. António Telo). A China pretende tornar-se um poder naval global e superar os EUA a longo prazo, ascendendo assim à hegemonia. É o país do mundo que mais investe na Marinha, neste momento. Nos últimos 4 anos construiu, em navios de guerra, o equivalente à Marinha Francesa.

Os autores apresentam uma situação em que a NATO estará adormecida ou perdeu importância e a paralisação das Nações Unidas parece compreensível, face ao conflito entre dois países membros permanentes do Conselho de Segurança.

O cenário de uma guerra entre grandes potências nucleares esteve afastado durante muitos anos, porque as consequências seriam inimagináveis e ninguém poderia sair vencedor. Os EUA e a Rússia (anteriormente União Soviética) pareciam garantir que esta situação se manteria, face à prudência com que foram encaradas algumas crises mais agudas, nomeadamente o caso dos mísseis de Cuba e um alarme de ataque nuclear que se revelou falso no último momento.

Será que a ascensão da China vai aumentar a probabilidade de um conflito militar com os EUA? Recordemos as palavras enigmáticas de Xi Jinping no dia 1 de julho de 2021, na comemoração do centenário do Partido Comunista Chinês

vamos elevar as nossas forças armadas ao melhor nível mundial, para salvaguardar a soberania nacional, a segurança e os nossos interesses de desenvolvimento.

Estas três facetas podem ter leituras muito sofisticadas.

O livro tem, entre outras, uma mensagem clara para os EUA. A preparação para qualquer eventualidade a nível militar não deve ser descurada, e torna-se crucial evitar as surpresas técnicas.

Si vis pacem, para bellum

Victor Lopo Cajarabille

Vice-Almirante na reforma. Comandou dois navios durante a Guerra do Ultramar, na Guiné e em Angola. Desempenhou os importantes cargos de Sub-CEMA, Superintendente do Material e Vice-CEMA. Foi presidente do Grupo de Estudos e Reflexão Estratégica da Marinha. Na sociedade civil leccionou em várias universidades, tendo sido professor catedrático convidado no ISCSP e professor coordenador do departamento de tecnologias do mar no ISCIA. É membro emérito, na classe de artes, ciências e letras, da Academia de Marinha.

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