Património Cultural Marítimo

“Era tudo novo para mim”, A VERA CRUZ em Sevilha.

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Aos 65 anos a bordo da VERA CRUZ

Era tudo novo para mim. Nunca havia navegado numa Caravela. Quando cheguei, num domingo à noite para sair no dia seguinte, encontrei na prancha o Capitão José Inácio, velho amigo. Fui encaminhado para o meu chefe de quarto, João Baracho, que me deu algumas instruções.

O capitão Zeca, que me recebeu a bordo.
O capitão Zeca, que me recebeu a bordo. (André Sá)
Arrumando os meus pertences (foto do autor)
Arrumando os meus pertences (foto do autor)
A largada de Setúbal
A largada de Setúbal
O hastear da bandeira da APORVELA
O hastear da bandeira da APORVELA. (André Sá)

Aos 65 anos, sem perder a noção da minha condição, sentia-me de novo jovem.

A camaradagem a bordo, a solidariedade, a entreajuda, a preocupação com o outro, se bem que não sendo novidade, encantaram-me, e porque não, comoveram-me.

A navegação peculiar, devido às características da Caravela, foi do melhor. O imediato, jovem de menos de trinta anos, mas marinheiro muito experiente, o Pi, era acatado por todos os “velhotes”, que tinham filhos mais velhos do que ele. A viagem decorreu sem incidentes dignos de nota e, pela primeira vez na minha vida, representei Portugal, o que me encheu de orgulho.

As comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e Juan Sebastian del Cano, organizadas em conjunto pelos governos português e espanhol, honraram o objetivo e encheram a carismática e bela cidade de Sevilha ainda com mais cor e vida.

À conversa no convés.
À conversa no convés. (André Sá)
Quando o cansaço nos vence.
Quando o cansaço nos vence. (André Sá)
Instrução dada na Tolda.
Instrução dada na Tolda. (André Sá)

A VERA CRUZ, a nossa Caravela, foi um sucesso. Prestei serviço à prancha, contando os visitantes e dando-lhes as boas vindas. Tudo novo para mim. Aliás foi esta novidade que me deu o bem-estar para mitigar as saudades que sentia dos meus netos. Novidade essa que também passou pelo serviço a bordo. Orientada pelo eficiente chefe do Q3, a nossa equipa desempenhou honrosamente a sua missão. Eu, como os outros, lavámos casas de banho, pusemos e levantámos a mesa, lavámos a loiça, varremos o chão, fizemos leme, ajudámos à manobra com as velas, fizemos a manobra de largada e atracação na tolda, o nosso posto, e eu ainda molhei o convés, como outros, para refrescar o casario.

A bordo iam dois cãezinhos, a Lua, a Labrador preta do Capitão José Inácio, e o Sebastião ou Sebas, o Perdigueiro do Imediato Filipe. Ambos já têm muitas horas de navegação e comportam-se como outro qualquer marinheiro. As necessidades são feitas 2 vezes ao dia, da meia nau para vante, e são os respetivos donos que as limpam. A Lua e o Sebas são acarinhados por todos nós.

O Sebastião à proa “vigia” a Nau Victoria.
O Sebastião à proa “vigia” a Nau Victoria. (André Sá)
três nunca são demais
Três nunca são demais. (André Sá)
O Jaime Antão, subindo a escada da coberta.
O Jaime Antão, subindo a escada da coberta. (André Sá)

A viagem decorreu prazenteiramente e em segurança, sob a orientação do eficiente e mais que experiente Zeca, leia-se Capitão José Inácio da Costa Lopes.  As manobras mais delicadas foram feitas ao leme pelo Jaime Antão, o Jaime, grande animador e homem muito culto, um gentleman.

A cozinha do Eu Génio Ribeiro, como eu lhe chamo, antigo Mestre da Briosa (a nossa Armada), encheu-nos a alma e o estômago. Beirão da Serra da Estrela, dos quatro costados, com um vernáculo inocente e de encantar, dizendo sempre o que lhe vai na Alma, enquadrava-se no ambiente pitoresco da Caravela. E que dizer do fabuloso Pudim Abade de Priscos do João Duarte Silva, que ainda hoje só a recordação me faz salivar? O João, grande marinheiro e velejador, navegador transatlântico em Caravela, que foi ao Brasil e voltou, como nos tempos de Pedro Álvares Cabral (ou quase).

na companhia da nau Victoria a subir o rio Guadalquivir rumo a Sevilha
Navegando na companhia da nau Victoria a subir o rio Guadalquivir rumo a Sevilha. (André Sá)
À hora de jantar apreciávamos as iguarias preparadas pelo Eugénio
À hora de jantar apreciávamos as iguarias preparadas pelo Eugénio. (Foto do autor)
A bióloga Alice de quarto de vigia
A bióloga Alice de quarto de vigia. (André Sá)

Mas a Caravela também deixou o seu impacte ambiental, positivo claro, pois a nossa bióloga doutoranda, a Alice, para além dos quartos de serviço cumpriu um importante programa de monitorização da qualidade da água, recolhendo amostras no mar, no Coto de Doña Ana e no Guadalquivir.

Por fim uma referência especial ao Tiago que com tanta amabilidade contribuiu para a qualidade da ilustração desta narrativa.

A todos bem hajam, pela camaradagem e pelo que me proporcionaram.

ORÇA, ORÇA, ORÇA, ORÇAAAA…!  o nosso grito ecoa ainda nos meus ouvidos.

Com todos, pelos Mares, até ao fim dos Tempos.

 

Nota da Redação:

A VERA CRUZ deslocou-se ao Festival Marítimo de Sevilha de 3 a 12 de outubro, no âmbito das comemorações dos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação. A bordo levou 24 tripulantes, 22 humanos e dois canídeos, que em Sevilha, enquanto atracada no molhe das Delícias, receberam mais de 12.600 visitantes.

Estas comemorações, que estão previstas durar até 2021 e incluir navegações por vários países e portos situados na rota da armada de Magalhães e El Cano, integram-se no projeto “Magalhães: indústrias culturais e criativas”, financiado pelo programa INTERREG Portugal-Espanha POCTEP 2014-2020, que envolve a autarquia de Sevilha, a Universidade de Évora, a Direção-regional de Cultura do Alentejo e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.

A VERA CRUZ é tripulada pelos sócios da APORVELA
A VERA CRUZ é tripulada pelos sócios da APORVELA

A Caravela Vera Cruz é uma réplica exata das antigas caravelas portuguesas, embarcações rápidas, de fácil manobra, aptas para a bolina, de proporções modestas e que, em caso de necessidade, podiam ser movidas a remos.

Foi construída no ano 2000 no estaleiro naval de Vila do Conde no âmbito da comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

A caravela foi uma embarcação inventada e usada pelos Portugueses durante o período dos Descobrimentos nos séculos XV e XVI.

A caravela portuguesa era uma embarcação rápida, de fácil manobra, apta para a bolina, de proporções modestas e que, em caso de necessidade, podia ser movida a remos.

Nomenclatura das partes da VERA CRUZ
Nomenclatura das partes da VERA CRUZ

A Associação Portuguesa de Treino de Vela – APORVELA – com sede em Lisboa, foi fundada em 1980 e tem como objetivos principais fomentar o treino de mar e de vela e o interesse pelas coisas do mar, designadamente na juventude, e promover a preservação do património náutico nacional. Não tem fins lucrativos e foi declarada entidade de utilidade pública. Presentemente, conta com cerca de 500 sócios.

O logotipo da APORVELA
O logotipo da APORVELA

 

Fernando Quental

Empresário, desde sempre ligado ao mar, na atividade de Shipchandler, era muitas vezes o elo que ligava o navio a terra, porque a comida é fundamental a bordo em alto mar. Durante 30 anos abasteceu a Marinha de Pesca e a Armada, sendo respeitado pela sua honestidade, competência e principalmente pelo seu caracter, que lhe permitia fazer amigos em todos os navios. É sócio da APORVELA.

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