Ciência e Tecnologia

A campanha PROPOLAR

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INVESTIGADORES PORTUGUESES RUMAM NOVAMENTE AOS POLOS – A CAMPANHA PROPOLAR 2018-19

A presença de investigadores portugueses nas regiões polares tornou-se quase corriqueira. Decorre presentemente a Campanha PROPOLAR 2018-19, a oitava de várias campanhas que permitiram ao longo da última década, desenvolver e consolidar a investigação polar portuguesa. Esta campanha polar, à semelhança das anteriores, é financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) – Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através do Programa Polar Português (PROPOLAR) e coordenada pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Desde Dezembro de 2018 e até Setembro de 2019, várias equipas de cientistas portugueses vão chegando às regiões polares, desde o norte do Canadá e Islândia, no sub‑Ártico, até ao arquipélago das Ilhas Shetlands do Sul, na Antártida. Para a Antártida, as missões dos investigadores concentram-se durante o Verão austral, entre Dezembro e Março, altura em que o solo tem menos neve.

Logo do Programa Polar Português

A campanha permitirá o desenvolvimento de 14 projetos nas áreas das ciências sociais, biológicas, da Terra, da criosfera, do mar e do ambiente, bem como projetos de cariz tecnológico e de disseminação de ciência.

O Programa Polar Português apoia este ano 12 equipas de cientistas nacionais a realizar missões no Ártico e na Antártida, e duas equipas com projetos laboratoriais no Reino Unido e na Nova Zelândia. A campanha permitirá o desenvolvimento de 14 projetos nas áreas das ciências sociais, biológicas, da Terra, da criosfera, do mar e do ambiente, bem como projetos de cariz tecnológico e de disseminação de ciência. Vários projetos visam estudar efeitos das alterações climáticas nas regiões polares, o que tem impacto significativo na investigação sobre as alterações climáticas que se repercutem em todo o planeta. Este aspeto reveste-se de particular importância a nível nacional, dado que Portugal é considerado como um dos países europeus mais vulneráveis às alterações climáticas.

Os cientistas portugueses no aeródromo Teniente Rodolfo Marsh Martin, Ilha Antártica de King George (foto Carmen Sousa e Pedro Guerreiro)

A informação científica decorrente destes projetos possibilitará assim conhecer melhor o funcionamento da Terra e o modo como o planeta responde às mudanças, permitindo simultaneamente apoiar a sociedade portuguesa na gestão adequada das alterações ambientais. Os projetos apoiados são coordenados por cientistas de 12 unidades de investigação, levando um total de 30 cientistas portugueses e 3 cientistas estrangeiros para o terreno. As temáticas dos projetos inserem-se num contexto científico de grande inovação.

Preparação para os primeiros voos na Península de Barton, no âmbito do projeto VEGETANTAR (foto Pedro Pina e Vasco Miranda)

Mas o que investigam os cientistas portugueses? Por exemplo, mudanças decorrentes do aquecimento global nos solos permanentemente congelados (permafrost), dinâmica das áreas livres de gelo através da cartografia de grande resolução, respostas do fitoplâncton e dos cefalópodes às alterações climáticas, adaptações ao aquecimento global dos peixes que vivem em águas muito frias e mesmo assim não congelam, efeitos do aquecimento global no fitness das aves migratórias, mudanças decorrentes das alterações climáticas na dinâmica de poluentes como o mercúrio, viabilidade de culturas hidropónicas de alfaces para o tratamento de águas residuais domésticas e como fonte de vegetais frescos para as bases de investigação antárticas, e até módulos habitacionais sustentáveis para a Antártida com o potencial de aplicação noutros ambientes extremos. No Ártico, são 3 os projetos a serem desenvolvidos, na Antártida são 9, e 2 em laboratórios internacionais para análise de amostras que declaradamente não podem ser executadas em Portugal.

Trabalho de campo no Ártico (foto João Canário)

As missões polares podem prolongar-se até três meses, tempo esse em que os investigadores estão afastados de casa e do seu ambiente de trabalho habitual. O trabalho de campo é árduo e com algum risco associado, pois nas regiões polares, as condições meteorológicas podem mudar repentinamente, tornar-se bastante agrestes, e dificultar o regresso às bases ou acampamentos onde os investigadores se encontram alojados. Por isso, o perfil destes cientistas é especial incluindo uma forte componente de explorador, e uma forte preparação prévia é essencial. Antes de iniciarem as suas missões nas regiões polares, os investigadores portugueses participam numa reunião de preparação de campanha que lhes proporciona formação em várias áreas relevantes para o trabalho no terreno.

Cientistas polares portugueses com missões a realizar durante a campanha PROPOLAR 2018-19, na 8ª reunião de preparação de campanha, no IGOT (foto PROPOLAR)

Em novembro de 2018, decorreu a 8ª reunião de preparação, realizada no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, reunindo os cientistas polares com missões a realizar no Ártico e na Antártida.

Foi integrada na reunião, pela primeira vez, formação em segurança e sobrevivência em terra, no mar, prevenção e controlo de incêndios, bem como em comunicações, sendo de realçar o extraordinário apoio prestado pela Marinha Portuguesa para a componente formativa ligada ao mar, e o da Guarda Nacional Republicana para a componente de segurança no terreno e comunicações VHF.

Durante a preparação, Militares da Marinha Portuguesa deram formação sobre segurança e sobrevivência no mar. (foto Gonçalo Vieira)

Os investigadores portugueses tiveram assim contacto com vários equipamentos técnicos para segurança e salvação individual e coletiva. Nestas reuniões obtém‑se também formação sobre comunicações e códigos de conduta, e conhecem-se os equipamentos e vestuário a utilizar no terreno. Recebe-se ainda informação sobre aspetos fundamentais relacionados com o Tratado da Antártida e o Protocolo sobre Proteção Ambiental ao Tratado para a Antártida (Protocolo de Madrid), dado que a presença portuguesa nesta região do planeta tem de respeitar escrupulosamente as regras destes acordos a que Portugal aderiu em 2010 e em 2014, respetivamente.

Os investigadores fazem ainda um curso de Suporte Básico de Vida (SBV), que inclui ressuscitação cardiopulmonar (CPR) e utilização de desfibrilador automático, obtendo certificação como Course for Basic Life Support (BLS) Provider pelo European Resuscitation Council.

O curso de Suporte Básico de Vida (SBV) foi uma componente fundamental da preparação (imagens Gonçalo Vieira)

Os investigadores antárticos, em particular, têm ainda de obter certificação médica relativa às suas condições físicas e psicológicas, e os projetos antárticos só poderão ser executados com certificação ambiental no cumprimento do Tratado da Antártida e do Protocolo de Madrid. Estas certificações são garantidas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (componente médica) e pela Agência Portuguesa do Ambiente (componente ambiental) que colaboram com o PROPOLAR, ao abrigo de Memorandos de Entendimento que se estabeleceram.

Um momento alto da campanha PROPOLAR 2018-19 será o voo português que se realizará entre Punta Arenas (Chile) e o aeródromo Teniente Rodolfo Marsh Martin, na ilha de Rei Jorge (Antártida), com um avião BAE‑146 fretado à companhia aérea DAP. Este ano, o voo tem partida marcada para dia 2 de Março de 2019, e será um voo de ida e volta no mesmo dia, como é habitual. Não só transportará o último grupo de investigadores nacionais que regressarão da Antártida, como também levará e trará cientistas de várias nacionalidades, equipas técnicas e equipamentos e materiais de apoio às infraestruturas e às atividades de investigação no continente branco. Será o 8º voo português que é a contribuição nacional para o esforço da logística internacional para apoio à ciência na Antártida.

O pinguim voador da DAP-Antartic Airways, um BAE 146 pintado com as cores de um Pinguim-macaroni (foto PROPOLAR)
O Galo de Barcelos pronto a embarcar em Punta Arenas a caminho da ilha do Rei Jorge (foto Pedro Guerreiro)

Dado que Portugal não possui infraestruturas na Antártida, a campanha nacional desenvolve-se com base em forte cooperação internacional com a Argentina, Bulgária, Brasil, Chile, China, Espanha, Estados Unidos da América, Perú, República da Coreia, Turquia e Uruguai, que proporcionam apoio logístico para o transporte dos investigadores e equipamento e estadia em bases de investigação. Por exemplo, para além do voo português, os cientistas nacionais são também transportados para a ilha do Rei Jorge em voos abertos à comunidade internacional por programas antárticos de outros países.

A base Coreana KING SEJONG
No mastro da base Coreana, as bandeiras dos países com equipas científicas (foto Pedro Pina e Vasco Miranda)

Uma vez na ilha do Rei Jorge, os investigadores nacionais vão para várias bases localizadas nessa ilha, ou são transportados em navios de outros países, para outras ilhas do arquipélago das ilhas Shetlands do Sul, como, por exemplo, as ilhas Deception e de Livingston, e até para Cierva Cove, localizada na Península Antártica. Outras equipas de investigação fazem todo o percurso até à Antártida a bordo destes navios, saindo normalmente dos portos de Punta Arenas (Chile) ou Ushuaia (Argentina), numa viagem não inferior a 3 dias de travessia pela Passagem de Drake, situada entre a extremidade sul da América do Sul e a Antártida. Este ano, Portugal beneficia do apoio dos navios BIO Hespérides da Armada Espanhola, BAP Carrasco da Marinha Peruana, ROU 26 Vanguardia da Armada Nacional Uruguaia e NPo Almirante Maximiano da Marinha do Brasil. A logística das missões no Ártico é bem mais facilitada, pois embora Portugal também não tenha aí infraestruturas, existem voos comerciais para o transporte dos investigadores até aos países onde vão desenvolver investigação. A organização da restante logística dos projetos árticos é da responsabilidade das equipas de investigadores como, por exemplo, o transporte até aos locais de trabalho, que, por vezes, requer o fretamento de aviões ou helicópteros. As colaborações das equipas portuguesas com institutos de investigação internacionais no Ártico geralmente apoiam a estadia e o trabalho no terreno. O mesmo se verifica em relação à organização da logística para os investigadores com projetos a serem desenvolvidos em laboratórios internacionais.

O navio Uruguaio ROU VANGUARDIA (foto Armada Uruguaya)
O navio de investigação da Armada Espanhola HESPERIDES (foto MICINN)

Todo este esforço logístico e de investimento nas regiões polares, ainda que longínquas em relação a Portugal, tem um retorno importante para a investigação científica e para o desenvolvimento tecnológico nacionais.

Todo este esforço logístico e de investimento nas regiões polares, ainda que longínquas em relação a Portugal, tem um retorno importante para a investigação científica e para o desenvolvimento tecnológico nacionais. Proporciona também a imperdível possibilidade aos cientistas nacionais de poderem realizar investigação em “laboratórios naturais” que são o Ártico e a Antártida, onde os impactos das alterações globais se fazem sentir de modo mais acentuado e acelerado do que noutras zonas do planeta.

Até Setembro, quando a campanha PROPOLAR deste ano terminar, é possível ir descobrindo mais sobre as missões e aventuras científicas dos investigadores portugueses nos Polos, através do diário de campanha, ilustrado com fotografias fantásticas, disponível no site do PROPOLAR (http://www.propolar.org/diario-de-campanha-2018-19).

Autoras:

Ana Salomé David

Maria Teresa cabrita

PROPOLAR

O Programa Polar Português (PROPOLAR) foi estabelecido em 2007 com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnolofgia (FCT). Tem a missão de promover e apoiar o desenvolvimento da ciência polar portuguesa de excelência, permitindo aos investigadores portugueses o acesso ao Ártico e Antártida.

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