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A Grande Guerra no Atlântico Português

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Em 2014, no centenário do início da I Grande Guerra Mundial, foi criada uma “Comissão de Evocação” e no seu âmbito instituída uma “linha de investigação”, reunindo elementos militares e civis, das três Academias Militares (Escola Naval, Academia Militar e Academia da Força Aérea) e investigadores independentes. O objetivo foi lançar uma nova luz sobre a beligerância Portuguesa, enquadrando-a em termos internacionais e assinalando a sua importância e significado para a evolução política interna.

Um dos aspetos que permite uma abordagem inovadora é o amplo uso de arquivos estrangeiros, designadamente, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na França e na Alemanha. Em Portugal foram explorados os arquivos da Biblioteca Central de Marinha e do Museu de Marinha, o Arquivo Histórico Militar, o Arquivo do M.N.E., a Hemeroteca e muitos arquivos e coleções particulares.

Esta obra, realizada no âmbito da “linha de investigação” atrás mencionada, está dividida em dois volumes: no I volume, além de uma introdução, quatro capítulos, a saber, “A Guerra Naval no Atlântico”, “A Armada e a Guerra”, “O Sistema de Defesa dos Portos e da Costa de Portugal” e “A Marinha de Comércio Nacional no Atlântico Português”. No II volume, três capítulos, “A Guerra no Espaço Arquipelágico Português”, “O Transporte do CEP” e “Operações Navais no Atlântico Português” a que se seguem as conclusões. Ambos os volumes são servidos com a indicação das fontes e com uma ampla bibliografia que, curiosamente, nas publicações periódicas inclui a nossa Revista de Marinha.

Esta obra apresenta uma perspetiva original, pois tem como eixo principal a guerra naval no Atlântico Português, mas adotando como eixo narrativo o envolvimento de Portugal nesse espaço, tanto com a sua Armada como com a sua Marinha Mercante, sem esquecer as múltiplas dimensões da sua política interna, que condicionavam fortemente a participação no conflito.

As forças navais britânicas em 1914 eram muito superiores às alemãs, dispunham de bases melhor posicionadas e do apoio das forças navais francesas e, a partir de 1916, também da Marinha dos Estados Unidos. A Marinha Alemã, embora tecnologicamente superior, estava confinada ao Mar do Norte e ao Báltico. A surpresa veio do submarino, uma arma recente e pouco prestigiada. Em 1914, a Marinha Alemã dispunha de poucas unidades, utilizadas prioritariamente contra alvos militares nas águas em redor das Ilhas Britânicas. A partir de 1915, os submarinos alemães, construídos em número sucessivamente maior, aumentam a sua área de operações e começam a atacar os navios mercantes, ao princípio com diversos constrangimentos, até que em princípios de 1917 é declarada a guerra submarina sem restrições. Nesse ano iniciam-se os “comboios”, um conceito dos séculos XVII e XVIII, que mostrou a sua eficácia. De assinalar o efeito assimétrico da arma submarina, que obrigou a concentrar meios de diversa natureza, muito superiores, para lhe fazer frente. Em termos de pessoal, o rácio foi superior a 30 para 1!

Os submarinos alemães lançam minas na barra do Porto de Lisboa, afundam cerca de 100 navios portugueses de comércio, dos quais muitos à vela, alguns navios e embarcações de pesca e bombardeiam as cidades do Funchal e de Ponta Delgada, que por incúria dos Governos de então não dispunham de artilharia de costa nem de uma defesa eficaz.

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Combate do Augusto de Castilho com o U-139. Óleo sobre tela de F. Namura. (imagem Museu de Marinha)

Portugal no início do século XX era um país pobre e desorganizado, vivendo uma guerra civil intermitente. Uma fação política defendia a participação no conflito como forma de afirmação externa e com o objetivo de salvaguardar o Império, mas a participação na guerra estava longe de ter o apoio da população, o que talvez explique a falta de meios e o improviso constante daqueles tempos, que vistos hoje, à distância, nos confrange!

Os autores, o Prof. Dr. António José Telo, Professor na Academia Militar, e o Cmdt. Augusto Alves Salgado, Doutorado em História e Professor na Escola Naval, trazem-nos novas explicações para um período difícil da nossa história numa obra bem organizada e bem escrita, que se lê com muito agrado.

De assinalar a excelente apresentação gráfica e o cuidado posto nesta edição, ilustrada e com cerca de 200 páginas (vol. I), que teve o apoio da Escola Naval, da Academia Militar e da Comissão de Evocação da Grande Guerra.

A Revista de Marinha endereça sinceros parabéns aos autores e à Editora Fronteira do Caos por um trabalho bem conseguido, que recomendamos a todos os que se interessam pela nossa História. Uma saudação especial ao Cmdt. Augusto Salgado camarada e amigo, que nesta revista colabora há muitos anos.

Esta obra encontra-se à venda nas livrarias, com o preço de capa de 33€, vol. I e 25€, vol. II. Aos interessados aqui deixamos os contactos da Editora Fronteira do Caos, tel. 91 971 9964, e-mail fronteiradocaos@netcabo.pt, endereço postal, apartado nº 52028, 4202-801 Porto.