História

A “greve” da Royal Navy contra os cortes nos vencimentos

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Em Setembro de 1931, os marinheiros da esquadra da Royal Navy ancorada em Invergordon, na Escócia, revoltaram-se perante o corte nos seus salários determinado pelo governo de Londres, nas conhecidas condições de crise financeira internacional que então se vivia. O governo preparou medidas de drástica austeridade, com cortes enormes no orçamento e nos vencimentos dos funcionários públicos. Foi anunciado que os soldos do pessoal da Navy seriam reduzidos até 25% e, perante isso, as guarnições rapidamente reagiram, fizeram reuniões em terra e entraram numa espécie de greve, deixando de cumprir as ordens dos seus comandos e actividades de rotina de bordo. No entanto, não afrontaram a oficialidade e permitiram que alguns navios largassem para o mar a cumprir certas missões. O caso provocou emoção no país, a imprensa divulgou-o largamente, o Parlamento e os políticos discutiram-no, distinguindo-se Churchill, então na oposição. O Almirantado acabou por considerar as reclamações dos marinheiros, com os cortes a não excederem os 10%; tratou-se de uma espécie de acordo implícito, à maneira das negociações salariais na indústria, mas com alguns castigos sobre marinheiros mais reivindicativos, apesar de não haver sinais de motivações ou intencionalidades políticas. Em todo o caso, o Partido Comunista cresceu com este movimento. De novo agradeço ao comandante Saltão a documentação disponibilizada sobre o acontecimento. Em Portugal, o caso foi pouco divulgado mas, ainda assim, saíram algumas notícias na imprensa, com linguagem “filtrada” (havia censura) e naturalmente submersas pela importância das questões financeiras internacionais em apreço.  JF

O Século, 12.Setembro.1931 (em 1ª página):

MacDonald, voltando a falar nos Comuns, salientou a necessidade de efectivar o plano económico, elaborado por Snowden

Londres, 11 – Ao requerer a segunda leitura do projecto de economia, esta manhã, na Câmara dos Comuns, o primeiro-ministro disse que a política geral do governo tinha obtido a sanção daquela Câmara e que, portanto, ia agora decidir sobre pormenores. A urgência foi adiada, por algum tempo, mas a posição financeira tem que ser saneada e o orçamento equilibrado. […]

Os números do plano são os seguintes: 70 milhões de libras têm que ser arranjados por meio de economias [no Orçamento]; 80 milhões por meio de impostos, dos quais 57 milhões, isto é, muito mais de metade, por meio de impostos directos; e 20 milhões são relativos à redução das amortizações da dívida pública. […]O sr. MacDonald [em rotura com o Partido Trabalhista] disse que, quando o novo governo tomou posse, foi muito auxiliado pelo trabalho efectuado pelos seus predecessores […].»

O Século, 16.Setembro.1931:

A política económica inglesa – A efervescência, na armada, parece aumentar

Londres, 15 – É grande o descontentamento na marinha inglesa. A agitação, segundo consta, começou no domingo passado, em Invergordon (Escócia), onde uns setecentos marinheiros que se encontravam em terra, de licença, protestaram ruidosamente contra as reduções. Os manifestantes foram prontamente reduzidos à obediência e em vários navios dispuseram-se piquetes reforçados.

Consta, também, que houve outras manifestações quando os marinheiros voltaram aos navios, à noite; e na segunda-feira uns seiscentos marinheiros reuniram-se em Black Cat discutindo sobre se deviam fazer resistência às reduções.

Ficaram anuladas as licenças de ir a terra e hoje ouvia-se barulho e cânticos dos marinheiros nos navios.»

HMS REVENGE fundeado frente a base de Invergordon, c.1928 (imagem Park School History Publications via theinvergordonarchive.org)
HMS REVENGE fundeado frente a base de Invergordon, c.1928 (imagem Park School History Publications via theinvergordonarchive.org)

O Século, 17.Setembro.1931 (em 1ª página):

A suspensão de manobras na armada inglesa do Atlântico e a atitude dos marinheiros causaram profunda sensação em Inglaterra

Londres, 16 – O comunicado do Almirantado anunciando a suspensão das manobras da esquadra britânica provocou forte sensação nos jornais ingleses. No entanto, os telegramas da Escócia publicados por alguns órgãos são unânimes em dizer que não se assinala qualquer incidente grave nem qualquer recusa a obedecer. De Aberdeen, informaram ontem à noite o Daily Herald de que todos os navios estavam pacificamente ancorados na baía de Invergordon, não dando sinal de desordem. Simples reuniões de marinheiros, acrescenta o Daily Herald, se realizaram no sábado e no domingo no terreno de desporto. A esquadra de Invergordon aprovou um protesto contra a diminuição dos soldos, pedindo que essa medida seja revogada. A reunião de sábado foi muito tumultuosa e foram enviados destacamentos para evitar incidentes; no domingo a reunião foi mais calma. As resoluções aprovadas nas reuniões foram entregues aos oficiais, com o pedido de as entregar ao Almirantado. […]

O oficial superior que veio expor a reclamação dos marinheiros ao Conselho Superior do Almirantado declarou: “A situação não é grave, mas é sem precedentes na marinha inglesa. As reduções de soldo são mais pesadas do que as que incidem sobre outros serviços e funcionários civis e atingem, com efeito, em certos casos, vinte e cinco por cento, ao passo que nenhuma outra categoria deve fazer sacrifício superior a quinze por cento. Todos os homens transmitiram o seu protesto com boa disposição e, conquanto o método seja sem precedentes na marinha inglesa, era o único meio de exprimir reivindicações. A disciplina nada sofreu.” […]

Na Câmara dos Comuns, Sir Austen Chamberlain, primeiro Lord do Almirantado, fez declarações sobre a decisão ontem tomada de suspender as manobras no Atlântico, aguardando os resultados do inquérito a que se está procedendo sobre a recusa dos marinheiros de obedecer às ordens […]. Entretanto, as notícias recebidas de Invergordon, onde se encontra ancorada a esquadra do Atlântico, dizem que reina completa disciplina a bordo desses navios e que as suas tripulações aguardam com serenidade o resultado do inquérito ordenado pelo Almirantado. […]

Portsmouth, 16 – Reina grande descontentamento entre a marinhagem, havendo, porém, normalidade. Ontem, à noite, foram concedidas licenças.»

Primeira página do Daily Herald 16 setembro de 1931 (imagem de laborhistoryin2.podbean.com)
Primeira página do Daily Herald 16 setembro de 1931 (imagem de laborhistoryin2.podbean.com)

O Século, 18.Setembro.1931 (em 1ª página):

Em Inglaterra receia-se pelo efeito que a atitude da esquadra do Atlântico possa ter sobre o crédito externo inglês

Londres, 17 – A esquadra do Atlântico saiu, pouco antes da meia-noite, para diferentes portos ingleses. Antes dos vencimentos de viagem [i.e., os subsídios de embarque] terem sido notificados, foram informadas as tripulações de que as representações sobre as reduções nos soldos estavam sendo estudadas pelos comandantes-em-chefe e pelos representantes do Almirantado, e que o governo havia autorizado este último a fazer propostas, para aliviar os marinheiros dos presentes encargos, logo que os factos tenham sido devidamente ponderados. […]

O que se passou em Invergordon

Londres, 16 – O correspondente do Evening News em Invergordon relata, pela forma seguinte, o que ali se passou.

“Ontem, às 8 horas, depois de içado o pavilhão e quando a esquadra se aprestava para partir, os marinheiros recusaram-se a levantar ferro. A fim de mostrarem que a sua recusa não tinha tendências desleais, soltaram três ‘urrahs’ vibrantes ao rei, sentando-se em seguida sobre os cabos de comando da âncora, tornando assim impossível a manobra de levantar ferro. Os ‘hurrahs’, que partiram primeiro do Rodney, tiveram eco no Hood e no Nelson, sendo em seguida correspondidos por dezasseis outros navios, cuja partida foi adiada. Também hoje de manhã se produziram incidentes depois de içado o pavilhão.»

HMS Nelson at Invergordon in 1934 (Invergordon Museum and Heritage Centre via theinvergordonarchive.org)
HMS Nelson at Invergordon in 1934 (Invergordon Museum and Heritage Centre via theinvergordonarchive.org)

Diário de Notícias, 19.Set.1931:

As reclamações da marinha inglesa – O que motivou o conflito

Londres, 18 – O debate da noite passada nos Comuns sobre o que se passou na esquadra do Atlântico em consequência da redução dos soldos serviu para pôr os acontecimentos sob a verdadeira luz em que devem ser vistos. Foi o membro trabalhista por Portsmouth sr. W. G. Hall quem iniciou a discussão salientando ao mesmo tempo que a efervescência notada entre a marinhagem daquela esquadra era somente devida aos cortes nos soldos, que vieram mais particularmente afectar os homens casados. Na opinião daquele deputado, os cortes vieram quebrar o contrato respeitante a soldos e prés, sempre confirmado por governos sucessivos. Na exposição dos marinheiros verifica-se que estes aceitariam qualquer corte em redução razoável, que não viesse criar mau estar nos seus lares. O orador declarou que sentia prazer em ver que o Almirantado havia constatado a existência de casos especiais, achando também que o comando-em-chefe da Esquadra do Atlântico tinha actuado prudente e prontamente. […]»

Praças da Royal Navy, a baldear o convés do couraçado HMS RODNEY c.1940 (Imperial War Museum via wikimedia commons)
Praças da Royal Navy, a baldear o convés do couraçado HMS RODNEY c.1940 (Imperial War Museum via wikimedia commons)

O Século, 22.Setembro.1931 (em 1ª página):

A crise inglesa – O governo britânico resolveu suspender temporariamente o padrão-ouro decretado em 1925

[…]

Londres, 21 – Apesar da importância considerável que a medida tomada sobre o estalão-ouro representa, registou-se calma absoluta durante a noite nos meios governamentais. Downing Street conservou-se quase deserta e, à saída do Conselho de Ministros, estes tinham a atitude de quem conscienciosamente acaba de fazer o seu dever. O correspondente diplomático da Reuter sabe que, até ao último momento, o Banco de Inglaterra esperava poder evitar a suspensão dos pagamentos em ouro. Porém, os fortes saques de sexta e sábado provocaram a aprovação imediata de medidas excepcionais.

Nos meios financeiros da Tesouraria afirma-se que Snowden continua resolvido a manter a todo o custo o equilíbrio orçamental. Nos meios oficiais observa-se que paira presentemente no mundo uma atmosfera de pânico e que a situação foi, em grande parte, precipitada pela falta de confiança dos países que têm fundos em Londres, e, em menor parte, pelos relatos sensacionais feitos aos estrangeiros sobre a agitação reinante na Armada. […]»

O Século, 24.Setembro.1931 (título, em 1ª página):

A Bolsa de Londres reabriu, sendo notável a calma que caracterizou as transacções»

João Moreira Freire

João Freire nasceu em Lisboa em 1942 e foi oficial da Armada em jovem. Mas fez vida profissional de sociólogo e é Professor Emérito do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa. Autor de vários livros, incluindo sobre a colonização portuguesa em África e a Marinha Portuguesa na modernidade.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante sobre um episódio fulcral da vida inglesa no início do segundo quartel do século xx, envolvendo Ramsay MacDonald, primeiro trabalhista a chefiar um governo inglês em 1924,com o apoio dos liberais, e depois em 1929-1935, num estranhíssimo governo nacional, onde apenas três membros do gabinete eram trabalhistas, e o apoio restante conservador.
    Período em que a Inglaterra – tal como o restante mundo, de uma ou de outra forma – teve que gerir a crise económica de 1929, e que compatibilizar a universalidade da Liga das Nações, com a particularidade do Império Britânico.
    Os parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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