Construção e Reparação Naval

A Lancha Poveira

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

 O barco dos “fidalgos” da pesca

A afamada Lancha Poveira do Alto, vista como a embarcação dos “fidalgos” da comunidade piscatória poveira, era também conhecida por Lancha das Pescadas, Lanchão, Lancha Grande e Volanteira. Resistiu ao eclipse nos tempos modernos a 27 de Fevereiro de 1991, quando uma réplica sua, a FÉ EM DEUS, começou a ser construída junto ao areal da Praia dos Pescadores, na Póvoa de Varzim, com o apoio do Município local. A 15 de Setembro desse mesmo ano teria o seu “bota-abaixo”, presenciado por milhares de pessoas, muitas delas testemunhas e tripulantes das últimas quatro lanchas dos anos 40-50 do séc. XX.

Um modelo de embarcação construído em, pelo menos, quatro tamanhos

Este modelo de embarcação de pesca tem um casco de forma ogival, dito de “duas proas”, com quilha, roda de proa e cadaste e com tabuado liso, variando o seu comprimento desde os 2 metros dos Caícos para a pesca junto à praia, passando pelas Catraias em média de 6 metros, para a faneca, a sardinha ou pesca longínqua à linha (denominando-se respectivamente Fanequeiros, Sardinheiros e Congreiros), os Batéis sardinheiros de 10 metros,  até chegar às Lanchas que iam desde os 11 aos 16,4 m, registados numa lancha de São João da Foz do Douro.

catraia, lancha poveira, póvoa de varzim, vila do conde, caxinas, pesca, pescadores, portugal, mar, embarcações tradicionais, marinha, antónio fangueiro
Catraias no areal. Praia dos Pescadores da Póvoa de Varzim, bilhete postal de princípios dos anos 60, (foto de autor desconhecido).

Estas embarcações, eram todas construídas em pinho e só a quilha era em sobreiro, pois o constante varar na praia assim o exigia. O “barco poveiro” é uma embarcação sem convés, excepto nos leitos de proa e de ré, quando existissem, possuindo bancos e panas (bancos intermédios). A sua armação vélica usava uma vela de pendão de amurar a vante, com um só mastro. No entanto, embora já não na memória dos velhos pescadores de hoje, existem registos de embarcações com dois mastros. O mastro era apoiado quase sempre por galeotas. Eram embarcações muito boieiras (ligeiras a navegar) em virtude da sua boca bastante aberta e pouco calado, com boas entradas e saídas de água, deslizando com facilidade e destreza sobre as águas, tanto à vela como a remos. Essencial a esta estrutura era um leme bastante profundo, bem abaixo da quilha.

Até finais do séc. XIX, a protecção era feita com crenas, uma mistura de breu (pez louro) com gordura (óleo de fígado de peixe), e que podia receber a adição de tinta em pó. O resultado final originava 3 cores: um branco amarelado, vermelho e preto. Quando surgiram as tintas, outras cores passaram a ser opção, no entanto o interior do barco continuava a receber a crena ou por vezes alcatrão. Em média, um barco durava cerca de 6 a 8 anos, mas se fosse bem tratado, poderia chegar ao dobro.

lancha poveira, póvoa de varzim, vila do conde, caxinas, pesca, pescadores, portugal, mar, embarcações tradicionais, marinha, antónio fangueiro
Lancha encarnada e lancha verde na Praia dos Pescadores da Póvoa de Varzim c. 1943-1945. Fotografia colorida à mão, da autoria de Alfredo Costa Ramos (1901-1966), col. Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim

Para além da típica decoração com peixes, círculos, aves, corações, estrelas, etc, incluíam-se quase sempre também os dizeres, que eram na sua maior parte invocações religiosas.

Da Póvoa, viajaram até à América do Sul e depois, até África.

Os construtores navais da Póvoa, trabalhavam para inúmeros clientes locais e dos arredores, e para clientes que vinham da Guarda (Galiza), Viana do Castelo, Afurada, Valbom e Buarcos, conhecendo-se ainda a sua presença em Setúbal, Sesimbra, Nazaré e Ericeira. A emigração dos pescadores poveiros levaria à presença destas embarcações no Brasil em finais do séc. XIX até cerca de 1920, quando de lá saem estes pescadores por razões de nacionalidade, rumo a Angola e Moçambique. Construíram-se milhares destas embarcações e eram às centenas nos areais poveiros.

Uma lancha poveira no Brasil, com a legenda MINAS GERAIS, circa 1910.

A embarcação actual FÉ EM DEUS tem 12,4 m de comprimento, 4 de boca de sinal e 1,45 metros de pontal de construção. Navega há quase 27 anos a todo o pano, participando em encontros de embarcações tradicionais, nacionais e internacionais, especialmente na Galiza e por uma vez em Brest, em França.

É desde então a embarcação tradicional portuguesa que mais navega por mar, promovendo a memória do pescador poveiro e português.

 

 

 

Natural da Póvoa de Varzim, criado no seio de famílias totalmente ligadas à actividade piscatória desde há várias gerações, cultivou durante toda a vida o interesse na história e prática desta actividade, convivendo de perto, tanto com o papel das mulheres, como dos homens nas lides do mar. Formado em contabilidade e administração, exerce nessa área em Cracóvia, na Polónia, onde se encontra desde 2005. É lá que inicia e mantém o blogue “caxinas-a-freguesia”, totalmente ligado à temática das culturas marítimas portuguesas e sua investigação, mas também à sua interligação com culturas de outros países. A vertente da arquitectura naval, nas várias tipologias de barcos tradicionais portugueses, é um dos principais focos, através do qual desenvolveu o modelismo das várias embarcações do tipo “poveiro”. Entre 2012 e 2014, num período de regresso a Portugal, integrou a tripulação da lancha poveira “Fé em Deus”, promovendo em conjunto com a biblioteca municipal da Póvoa de Varzim, apresentações em escolas sobre as características das embarcações locais.