Património Cultural Marítimo

A Marinha do Tejo durante a pandemia – Uma dinâmica digna de realce

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Não sendo possível organizar eventos presenciais, a Associação Âncoras – Associação Náutica de Clássicos de Oeiras organizou a apresentação do projeto de construção do ÁLA-ARRIBA, via plataforma digital Zoom.

A Associação Âncoras, Associação Náutica de Clássicos de Oeiras, tem vindo a revelar, desde que foi criada, e muito em particular nestes tempos de pandemia, uma dinâmica e uma originalidade de cujo trabalho a Revista de Marinha tem vindo a dar a conhecer aos seus leitores.

Porém, com o período de confinamento, congressos, seminários, workshops e iniciativas similares em prol e das suas tradições e saberes, deixaram de se poder realizar, situação que se manterá durante o horizonte previsível.

Mas não sendo possível organizar eventos presenciais, esta associação pensou em levar os eventos aos interessados, porque a vida tem de continuar. Nesta situação é caso para podermos dizer que “Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”.

Foi com este espírito, revelando com isso uma capacidade de iniciativa assinalável, que a Associação Âncoras, pela mão do seu Presidente, Coronel Alpedrinha Pires, e dos seus colegas de direção, levou a cabo no passado 29 de Maio uma iniciativa inédita no meio náutico que consistiu na apresentação do projeto de construção do ÁLA-ARRIBA, via Zoom, plataforma digital que tem a capacidade de colocar em contacto dezenas de pessoas.

Bem-dito e melhor feito. Sem a possibilidade de os reunir presencialmente, esta iniciativa digital da Associação Âncoras reuniu três dezenas de pessoas que a partir do conforto das suas casas ao final da tarde viram e ouviram durante uma hora e meia o Eng. Rui Nunes falar com muita paixão e entusiasmos da sua experiência de construção do ÁLA-ARRIBA, uma embarcação tradicional do Tejo, no caso um Catraio, com um comprimento de 6,30 metros, numa feliz combinação entre tradição e modernidade, entre o saber feito da experiência e o desenvolvimento tecnológico dos nossos dias, num período caracterizado pela incerteza.

O mosaico dos participantes no webinar ANCORAS (imagem Associação Âncoras)
O mosaico dos participantes no webinar ANCORAS (imagem Associação Âncoras)
O sonho de infância do Eng. Rui Nunes durante a sua apresentação no Webinar ANCORAS (imagem Associação Âncoras)
O sonho de infância do Eng. Rui Nunes durante a sua apresentação no Webinar ANCORAS (imagem Associação Âncoras)
O Eng. Rui Lucas Nunes
O Eng. Rui Lucas Nunes

Ficámos a saber pela boca do próprio que nasceu em 1961 no Montijo e que a par de muitos outros rapazes daquele lugar de pescadores brincou com os pés na maré, cresceu junto ao Esteiro, aprendeu com as outros a nadar na maré cheia e logo se encantou com o compasso das pás dos remos a cortar a superfície calma da água do Esteiro (da Quebrada).

Foi testemunha e cúmplice dos movimentos sincronizados dos homens nas partidas e nas chegadas do mar, observador atento das tarefas dos arranjos das redes e das artes em terra e das pescarias nas canoas grandes e pequenas, tudo ali mesmo ao pé, dentro e fora de portas.

A partir de 1978 frequentou a Escola Naval e mais tarde a Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, tendo feito carreira na Marinha Mercante em Portugal e no Reino Unido, como Engenheiro Chefe de Máquinas.

Conforme referiu, a construção do “Ála-Arriba” teve como objetivo redescobrir o legado marítimo local, valorizando as suas práticas, tornando-o capaz de propiciar o desfrute das embarcações tradicionais em comunhão com o Estuário do Tejo.

 

Uma embarcação com o nome inspirado num filme de Leitão de Barros

O nome de batismo da embarcação inspirou-se no título de um filme de Leitão de Barros com o mesmo nome, adotado da voz de comando dos pescadores da Póvoa do Varzim ao converterem as forças no varar das embarcações praia acima, ou na operação do alar das redes para dentro das embarcações.

Quando nos anos 80 lhe nasceu a vontade de construir um catraio para navegar à vela no Estuário do Tejo, o Eng. Rui Nunes consultou o Sr. António Manuel da Silva, vulgo Manuel Besugo, o mestre mais antigo à época, verdadeiro repositório de técnicas e saberes ancestrais, que lhe recomendou fazer primeiramente um desenho e simultaneamente um modelo em cortiça da embarcação a construir, os quais foram a “semente” de que germinou e deu ao Montijo a sua primeira construção tradicional já no Sec. XXI.

Ainda hoje guarda a metade de casco feita em cortiça e o desenho feito a tinta-da-china e tira-linhas então produzidos.

O projeto de construção tradicional - aprovado e emitido Declaração de Conformidade ISO 12217-2 (imagem Eng. Rui Nunes)
O projeto de construção tradicional – aprovado e emitido Declaração de Conformidade ISO 12217-2 (imagem Eng. Rui Nunes)
Na serração mecânica os toros grampeados no carro (charriot) são cortados em pranchas na serra de fita (imagem Eng. Rui Nunes)
Na serração mecânica os toros grampeados no carro (charriot) são cortados em pranchas na serra de fita (imagem Eng. Rui Nunes)
Disposição dos primeiros braços e cavernas durante o assentamento sobre a quilha (imagem Eng. Rui Nunes)
Disposição dos primeiros braços e cavernas durante o assentamento sobre a quilha (imagem Eng. Rui Nunes)
Fixação das tábuas; utilizando parafusos aço inox ST316 em lugar de pregos (imagem Eng. Rui Nunes) (2)
Fixação das tábuas; utilizando parafusos aço inox ST316 em lugar de pregos (imagem Eng. Rui Nunes) (2)
O calafate, Sr. Jacinto Almeida (1933-2019) com a estopa pronta e a ferramenta para iniciar o seu trabalho (imagem Eng. Rui Nunes)
O calafate, Sr. Jacinto Almeida (1933-2019) com a estopa pronta e a ferramenta para iniciar o seu trabalho (imagem Eng. Rui Nunes)
O Sr. Jacinto usava luvas porque era músico e necessitava de todos os dedos em boa saúde para tocar clarinete na filarmónica 1o de Dezembro (imagem Eng. Rui Nunes)
O Sr. Jacinto usava luvas porque era músico e necessitava de todos os dedos em boa saúde para tocar clarinete na filarmónica 1o de Dezembro (imagem Eng. Rui Nunes)

Com a divulgação e popularização dos computadores, e com estes do software de desenho digital, surgiu a oportunidade para um novo folego do projeto com vista a construir uma embarcação tradicional apoiada nas novas tecnologias, perpetuando no tempo o nosso património marítimo que reputa entre os melhores do mundo.

Com o falecimento do mestre Manel Besugo beneficiou da ajuda e do aconselhamento técnico do Mestre Jaime Costa, por todos conhecido e que é uma verdadeira referência viva, acarinhado por todas pessoas quantos o conhecem, para os pormenores estruturais da embarcação.

Esta construção do séc. XXI teve em 2015 a mão experimentada e o saber do último calafate Montijense do séc. XX, o Sr. Jacinto Almeida. Também ele fez parte da equipe de artífices do Estaleiro Naval de Montijo, ao tempo gerido pela família do acima referido mestre António Manuel da Silva (Manuel Besugo)

A construção iniciou-se com a construção do casco em 2011 e prolongou-se até 2016, período durante o qual trabalhou baseado na Escócia na indústria Offshore no Mar do Norte como Chief Egineer em navios Britânicos, progredindo a construção à medida das suas deslocações a Portugal.

Por isso, só em 19 setembro de 2016 o casco foi lançado à água, no Esteiro da Quebrada, no Montijo.

Das várias fases de construção destaque para o tabuado como tendo sido a mais exigente, tanto em termos de tempo, em técnica e em habilidade, para que tábuas de 22 mm de espessura se moldassem às formas do casco.

A maior parcela da lista dos custos foi o tempo despendido. Mas essa variável não contou, tal a liberdade a que a si próprio se concedeu. Houve também os custos de aprendizagem que foram sendo incorporados. Porque todo este projeto foi e continua a ser uma aprendizagem contínua, desde o desenho inicial, à reprodução dos modelos do casco, até à construção do estaleiro, como estrutura de apoio à construção improvisada para o efeito.

Enfim uma descoberta permanente que habilitou o Eng. Rui Nunes ao saber fazer no final da construção.

Deparou-se com muitos obstáculos, mas que não foram mais do que meros desafios para descobrir soluções; um deles foi encontrar o local para executar a construção… em que acabou por adotar o quintal onde a sua família no passado fundara o seu arsenal de pesca. Entre as laranjeiras do quintal e as casas de arrumos dos apetrechos de pesca o Eng. Rui Nunes montou uma estrutura metálica para abrigar da chuva e do sol a embarcação de 6,30 m.

A preparação para pintura inclui a aplicação de massa para preencher juntas e regularizar superfícies (imagem Eng. Rui Nunes)
A preparação para pintura inclui a aplicação de massa para preencher juntas e regularizar superfícies (imagem Eng. Rui Nunes)
Acabamentos de pintura (imagem Eng. Rui Nunes)
Acabamentos de pintura (imagem Eng. Rui Nunes)
Depois do bota-abaixo, o ÁLA-ARRIBA fez uma viagem técnica à vara, até à oficina do Jaime Costa para receber o mastro e a verga (imagem Eng. Rui Nunes)
Depois do bota-abaixo, o ÁLA-ARRIBA fez uma viagem técnica à vara, até à oficina do Jaime Costa para receber o mastro e a verga (imagem Eng. Rui Nunes)
A propulsão elétrica combina o clássico com o moderno (imagem Eng. Rui Nunes
A propulsão elétrica combina o clássico com o moderno (imagem Eng. Rui Nunes
A catraia a navegar à vela vista de proa (imagem Eng. Rui Nunes)
A catraia a navegar à vela vista de proa (imagem Eng. Rui Nunes)

Sendo a construção naval clássica no estuário do Tejo fruto de um saber fazer transmitido de geração em geração, este projeto procurou validar as boas práticas da construção de embarcações tradicionais junto do Ministério do Mar (DGRM), enquadradas num processo documental que visou incorporar as mais modernas normas técnicas para a construção de embarcação à vela de 6,30 de comprimento, caso da ISO 12217-2, procurando simultaneamente valorizar um legado que soma gerações de melhoria continua.

Ainda durante a apresentação o Eng. Rui Nunes deu a conhecer os principais passos do projeto de construção do ÁLA-ARRIBA que aqui enunciamos resumidamente:

  1. Início da construção em 2011;
  2. Projeto submetido à DGRM e atribuiu licença de construção nº 19/2013;
  3. Aprovado e emitido Declaração de Conformidade com as normas técnicas de construção adotadas na legislação em harmonia com a ISO 12217-2 para embarcação à vela de 6m de fora-afora;

Findo o processo com a vistoria final em 26 de maio 2017 ficou a embarcação habilitada com uma lotação de segurança até 6 pessoas.

Ainda a pensar no meio ambiente e na mais moderna tecnologia disponível para a propulsão a ÁLA-ARRIBA foi equipada com baterias e motor propulsor elétrico. A solução de montagem deste motor inovou ao ser fixada na porta do leme permitindo o governo com a cana do leme e assim preservar o painel da popa intacto, como era corrente antes de haver motores de popa.

Ainda se inovou na utilização de parafusos de aço inox ST316 em alternativa ao prego zincada ou cravos, também no tratamento prévio de preservação da madeira em autoclave, na produção de um conjunto de desenhos digitais capazes de se reproduzir e adaptar ao encontro de novo projeto.

No final da muito viva apresentação do Eng. Rui Nunes seguiu-se um animado debate via digital, moderado pelo Presidente da Direção da Âncoras, Coronel Alpedrinha Pires, cujo contributo para dinamização da Marinha do tejo tem sido uma mola real do desenvolvimento da Marinha do Tejo.

 

(nota: o autor agradece o apoio do Eng. Rui Nunes)

Eduardo Almeida Faria

Licenciado em gestão, tem uma larga experiência no associativismo desportivo, é especialista no tema da Náutica de Recreio, tendo feito parte do Conselho Nacional da Náutica de Recreio e, no âmbito do Fórum Oceano, integrado o Grupo Dinamizador do Portugal Náutico. É autor da obra “Náutica de Recreio em Portugal – Um pilar do Desenvolvimento Local e da Economia do Mar” e de inúmeros artigos e noticias na Revista de Marinha e no Jornal da Economia do Mar. Como desportista náutico tem muitas milhas percorridas pela costa portuguesa e pelo Mediterrâneo em veleiros de cruzeiro, quer em lazer, quer em regata.

4 Comentários

  1. Alpedrinha Pires Responder

    Excelente e impressionante obra do Rui Lucas Nunes e artigo muito interessante.
    A náutica tradicional presta o humilde reconhecimento ao grande trabalho que a Revista de Marinha e os seus colaboradores realizam, com relevo para o Eduardo Almeida Faria, dando a conhecer as atividades e a tornar o mar mais acessível, desmistificando o seu natural elitismo, não de status, mas essencialmente do conhecimento.
    Essa força consistente e resiliente de valorizar o conhecimento e a vontade de enfrentar o adverso, produz resultados, mas a campanha é de longo ciclo e a comunicação central em todo o processo.
    E o Rui é um bom exemplo!

    Um grande abraço do Alpedrinha Pires

  2. Julio Caetano Responder

    Parabéns, pelo excelente artigo, quer à revista de marinha, quer ao autor, quer à associação Ancôras de Oeiras, quer ao Eng. Rui Nunes, por concretizar o seu sonho. O Tejo e as suas artes ficam imortalizados. Parabéns pela divulgação.

  3. Paulo Carvalho Responder

    Excelente artigo de divulgação das embarcações tradicionais do estuário do Tejo, nomeadamente no que concerne ao método de construção,
    Parabéns.
    Paulo Carvalho

  4. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo particularmente interessante. Um tema muito apelativo, dotado de explicações pertinentes e pormenorizadas, enriquecidas por uma reportagem fotográfica de qualidade.
    Os parabéns ao Engº Rui Nunes e ao Drº Almeida Faria, e naturalmente à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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