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À minha volta

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Américo Lourenço é alguém que vê o mundo em seu redor (…) com lentes diferentes do comum dos mortais

Por amabilidade de Américo Lourenço, a Revista de Marinha, na pessoa do seu Diretor, foi convidada para o lançamento de mais um livro da sua autoria, em Lisboa, com a chancela da Chiado Editora, prefácio do poeta alentejano José Chocolate e com o patrocínio de várias empresas de Sines.

O poeta é, por definição, alguém que vê o mundo em seu redor –  a Natureza, as pessoas, os acontecimentos e a sua própria vida – com lentes diferentes do comum dos mortais, com um olhar de mais apurada sensibilidade, e que traduz o que lhe vai na alma em linguagem criativa, usando mais ou menos recursos estilísticos, diferentes ritmos e sonoridades e chegando por vezes a produzir uma linguagem bem difícil de descodificar.

Não acontece assim nesta obra! Estamos perante poesia simples e direta.

Como nos revelou nas páginas autobiográficas do seu livro anterior “Entardecer”, Américo Lourenço nasceu em Lisboa, no meio de grandes dificuldades e sofrimentos, entre os quais um gravíssimo atropelamento quando criança, de que viria a salvar-se quase por milagre, e de que resultaram dolorosos e prolongados períodos de solidão e internamento hospitalar para múltiplas cirurgias que se prolongaram ao longo destes seus 52 anos de idade. Com grande resiliência, esforço e apoio de vários amigos, estudou até ao 12º ano, e exerce hoje funções de Vigilante no porto de Sines, cidade onde vive há 20 e tal anos, que o acarinha e onde é bem conhecido.

Américo é vigilante no Porto de Sines

Talvez modelado precisamente por tantas dificuldades desde tenra idade, Américo Lourenço é um verdadeiro sobrevivente com alma de poeta e de criança. Não é um erudito, é um homem simples com gosto pela escrita e que olha o mundo à sua volta com lucidez como atento “vigilante”, conservando ainda hoje uma certa pureza de criança e um idealismo juvenil de quem sente que vale a pena viver a vida como algo de entusiasmante, sobretudo … quando é vivida para os outros.

E como ator social interventivo que se assume, usa a a escrita simples e direta para chegar a todos quantos o lerem e nos despertar para a necessidade de mudar o mundo, como refere no seu poema “Queria mudar”… queria que o mundo mudasse/ com o esforço de cada homem/ poder sarar cada ferida….que homens, mulheres e crianças seguissem novo caminho.

Numa escrita simples, sem vergonha de alguma imperfeição ortográfica, ou de revelar a sua intimidade e duras recordações de infância, como em “Manhãs de Inverno” ou “Passeando”, o poeta quer acordar-nos do pequeno mundo de comodismos que cada um de nós tende a construir por trás de “paredes” que … caem nos olhos da noite, brancas, escuras, viscosas, como afirma no sugestivo poema “Acordei um dia”:

Acordei um dia/ numa manhã qualquer/ e nada via/nada vi/(…)e nada vi do que ali estava/havia fogo/ havia mar/crianças a chorar/(…)não vi a desgraça, a miséria, a tristeza/ a fome a cada mesa(… )Nada vi/ deitado no centro do mundo/ minha almofada feita de egoísmo… nada vi(…).

(…) para que o egoísmo dê lugar ao amor ao próximo e à entreajuda solidária

Como diz José Chocolate no seu interessante prólogo, Américo Lourenço usa palavras simples para escrever poemas, que são como um panfleto apelando … a vontade das pessoas para alterarem o rumo da história recente, para que o egoísmo dê lugar ao amor ao próximo e à entreajuda solidária.

Com a sua pena, Américo Lourenço faz mais do que pode, e mais do que muitos, hoje, aqui e agora: … Quisera deixar um pouco de mim, /que sendo pobre, sou rico/que sendo homem, sou frágil/ que sendo fraco, sou forte. E quando se interroga sobre “o que é o amor?”, termina dizendo que … o amor é o vínculo da perfeição.

Vale a pena ler e oferecer este pequeno livro, talvez sem direito a prémios literários, nem grandes apresentações na televisão, ou recensões notáveis; este é apenas  um livro simples, bonito, bem ilustrado e bem encadernado, escrito em Sines, de coração a coração … para mudar o mundo. Talvez Américo Lourenço não saiba que grandes santos do passado sentiram as mesmas inquietações ao deixarem-nos frases tão belas como estas: … onde não há amor, põe amor e retirarás amor, ou … que a tua vida não seja estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor.

Parabéns ao autor e à editora, bem como aos seus patrocinadores!

Este livro tem um preço de capa de 10€. Para adquirir, contactar a Chiado Editora, tel 21 346 0100, e-mail geral@chiadoeditora.com, endereço postal, Av. da Liberdade, nº 166, 1º 1250 -166 Lisboa.

Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é editora da "Revista de Marinha" e das “Edições Revista de Marinha”, com as quais colabora regularmente desde 2012.