Marinha de Guerra

A missão secreta do USS SAN JACINTO em Cabo Verde

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Segundo notícia publicada no dia 22 de dezembro, pelo jornal NYTimes, o cruzador norte-americano CG56 USS SAN JACINTO esteve destacado nas águas de Cabo Verde, durante os meses de novembro e dezembro de 2020, numa missão secreta para prevenir uma possível operação clandestina por forças especiais venezuelanas ou  iranianas naquele país.

A missão do SAN JACINTO começou a ser preparada logo após o dia 12 de junho, quando a polícia cabo-verdiana, cumprindo um mandato de captura internacional, procedeu à detenção de Alex Saab, um homem de negócios colombiano suspeito de ser o arquiteto duma rede de negócios envolvendo os regimes do Irão e da Venezuela.

O arquipélago de Cabo Verde e a costa africana da Mauritânea, Senagal e Guiné-Bissau (imagem NASA)
O arquipélago de Cabo Verde e a costa africana da Mauritânea, Senagal e Guiné-Bissau (imagem NASA)

Os Estados Unidos pediram formalmente às autoridades cabo-verdianas a extradição do empresário, através da Procuradoria-Geral da República de Cabo Verde. O New York Times cita um especialista de assuntos venezuelanos, Moises Rendon, segundo o qual

o empresário Saab, há anos que é testa de ferro da família Maduro, sendo por essa razão uma personalidade de importância crucial para Nicolas Maduro”.

Saab foi detido no momento em que o avião em que viajava fez uma escala de reabastecimento na ilha do Sal, a caminho do Irão. (imagem Televisão de Cabo Verde)
Saab foi detido no momento em que o avião em que viajava fez uma escala de reabastecimento na ilha do Sal, a caminho do Irão. (imagem Televisão de Cabo Verde)

O receio que durante o processo legal de extradição, acontecesse uma operação clandestina na tentativa de libertar e extrair Alex Saab da prisão cabo-verdiana, levantou desde logo preocupação nos departamentos de Estado e de Justiça norte-americanos, que pediram o emprego duma força militar dissuasora de tal ação.

No entanto a opção inicial foi empregar um navio patrulha oceânico da guarda-costeira, tendo o USCGC BEAR sido empenhado logo em 29 de julho.

O navio patrulha oceânico USCGC BEAR em manobras frente ao Farol da Ponta Temerosa, na cidade da Praia, em agosto de 2020 (imagem USCG)
O navio patrulha oceânico USCGC BEAR em manobras frente ao Farol da Ponta Temerosa, na cidade da Praia, em agosto de 2020 (imagem USCG)

Mas as suspeitas que tal missão clandestina estivesse já em andamento, quando um avião iraniano a caminho de Cabo Verde, foi impedido de reabastecer em dois países africanos a pedido dos EUA, levou a que fosse empenhado um navio militar com elevadas capacidades de vigilância aérea e poder de fogo, o cruzador USS SAN JACINTO, que em finais de novembro largou da base naval de Norfolk, na Virginia.

O cruzador SAN JACINTO, foi posicionado no arquipélago de Cabo Verde quase todo o mês de Dezembro, apenas tendo regressado à base na véspera de Natal. Com 173 metros de comprimento e deslocando 9.800 toneladas, é um navio formidável, equipado com os radares de varredura eletrónica SPY-1A e o sistema de combate AEGIS, que lhe dão a possibilidade para detetar alvos aéreos a mais de 190 kms de distância. Armado com pelo menos 68 mísseis RIM-66M-5 Standard SM-2MR Block IIIB, tem capacidade para abater aeronaves numa área centrada no navio, até 167 km de alcance.

Conjunto de vante de 61 silos de lançamento vertical de mísseis MK-41 do USS SAN JACINTO (imagem US Navy Michael Pendergrass)
Conjunto de vante de 61 silos de lançamento vertical de mísseis MK-41 do USS SAN JACINTO (imagem US Navy Michael Pendergrass)
Um míssil RIM-66 sendo disparado do sistema Mk-41VLS de vante do USS SAN JACINTO (imagem US Navy)
Um míssil RIM-66 sendo disparado do sistema Mk-41VLS de vante do USS SAN JACINTO (imagem US Navy)
Um dos dois canhões anti-míssil de tiro rápido Vulcan Phalanx, a fazer fogo. (imagem US Navy J. Alexander)
Um dos dois canhões anti-míssil de tiro rápido Vulcan Phalanx, a fazer fogo. (imagem US Navy J. Alexander)
Rastos das munições tracejantes dum canhão Phalanx, iluminam a noite sobre o USS SAN JACINTO (imagem US Navy)
Rastos das munições tracejantes dum canhão Phalanx, iluminam a noite sobre o USS SAN JACINTO (imagem US Navy)

Estas capacidades do cruzador SAN JACINTO são suficientes para fazer pensar duas vezes alguma potência estrangeira que estivesse a preparar uma missão de forças especiais para atacar Cabo Verde e extrair por via aérea Alex Saab.

Note-se que a rota Irão – Venezuela tem sido utilizada com bastante frequência por aviões iranianos B-747 das companhias Mahan Air e Qeshm Fars Air para apoio do governo Maduro e negócios com o Irão.

O Boeing 747 "Jumbo" matrícula EP-FAB, a aterrar no aeroporto de Teerão (imagem Instagram timelapsegeek)
O Boeing 747 “Jumbo” matrícula EP-FAB, a aterrar no aeroporto de Teerão (imagem Instagram timelapsegeek)

A classe de cruzadores TICONDEROGA

Os 27 navios da classe TICONDEROGA, dos quais o USS SAN JACINTO faz parte, foram construídos entre 1980 e 1994, pelos estaleiros Ingalls Shipbuilding (19) e Bath Iron Works (8).

Foram concebidos como navios multi-tarefa, com elevadas capacidades de luta anti-aérea, luta anti-submarina, anti-superfície e ataque de alvos em terra. Dispõem dum sistema de lançamento vertical de mísseis Mk. 41, com 122 células, que podem disparar mísseis anti-submarinos ASROC, anti-aéreos RIM-66, anti-satélite RIM-161 e de cruzeiro Tomahawk.

Dos 27 navios entregues na década de 80, ainda se encontram ao serviço 22 unidades.

O helicóptero orgânico do USS SAN JACINTO, um MH-60R Seahawk em manobras próximo do cruzador (imagem US Navy)
O helicóptero orgânico do USS SAN JACINTO, um MH-60R Seahawk em manobras próximo do cruzador (imagem US Navy)

Entretanto, no dia 5 de janeiro, a publicação DW revelou que o Tribunal da Relação do Barlavento decidiu a favor da extradição de Alex Saab, enquanto que a assessoria da defesa internacional do colombiano, liderada pelo antigo juiz espanhol Baltasar Garzón, refere que vai recorrer da decisão, pelo que Alex Saab deverá ficar mais algum tempo detido em Cabo Verde.

 

 

João Gonçalves

Oficial da Armada. Especializou-se em submarinos, onde navegou durante seis anos nos navios da classe ALBACORA. Esteve colocado cerca de sete anos como Capitão do Porto nos Açores. Escreveu para a Revista da Armada e em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador. Está na Revista de Marinha desde 2016 e é diretor-adjunto desde janeiro de 2018.

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