Economia

A Revista de Marinha entrevista Erik Jakobsen

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O Dr. Erik Jakobsen é Economista de formação académica e Administrador Executivo da empresa consultora norueguesa Menon Economics. O Dr. Jakobsen esteve recentemente em Portugal, em 22 e 23 de janeiro de 2019, no Congresso da Economia do Mar promovido pelo Jornal da Economia do Mar. Proferiu então uma alocução muito interessante, que suscitou a presente entrevista.

Revista de Marinha (RM)– Poderá apresentar-nos, por favor, a empresa Menon Economics?

Erik Jakobsen (EJ) – A Menon é uma consultora com sede em Oslo, na Noruega, pertencente a um grupo de pessoas que nela trabalham na área de interface entre a Economia, a Política e os Mercados. Somos cerca de 50 economistas, dos quais um quarto tem doutoramento. A Menon faz análise de assuntos económicos e aconselhamento a empresas, organizações e autoridades. Nós dispomos de peritos em economia e comércio em diferentes áreas, tais como organização industrial, economia competitiva, estratégia, finanças, conceção organizativa e lucro social. Nas nossas análises utilizamos métodos baseados em pesquisa e trabalhamos muito de perto com académicos de renome.

Ao longo de vários anos temos vindo a desenvolver uma base de dados que cobre aproximadamente meio milhão de empresas e fornece informação detalhada sobre lucros, crescimento, dívidas, exportações, emprego e propriedade. Deste modo, a Menon posiciona-se de uma forma única para realizar ou dirigir estudos de competitividade, lucro, crescimento e estrutura financeira de negócios, empresas e indústrias.

O impressionante número de navios fundeado na baía de Singapura
O impressionante número de navios fundeado na baía de Singapura

R.M.– Qual a vossa experiência no setor marítimo?

E.J.– Como se sabe, a Noruega é um país muito avançado no setor marítimo, por isso a nossa empresa também tem, necessariamente, grande envolvimento neste campo. Nós publicamos regularmente um importante relatório com o ranking das “cidades marítimas” mais destacadas, capitais do mundo, baseado num modelo exclusivamente nosso de avaliação. Também fazemos análise mais profundas e detalhadas de países e cidades específicas.

R.M.– Por que razão fazem estes relatórios?

E.J.– Um dos efeitos da globalização é a competição feroz entre países ou cidades para atraír e cativar empresas que atuam no mercado global. Pela sua própria natureza, o shipping é a área de negócios mais global de todas, por isso a corrida para atrair empresas de shipping nunca foi tão intensa como é hoje. Muitos países e cidades têm reconhecido o enorme sucesso da estratégia marítima de Singapura e decidiram intensificar os seus esforços para aumentar a atratividade do seu país, ou da sua cidade, assim como a competitividade da sua indústria marítima. De notar, porém, que não se trata de um jogo de “tudo ou nada”: ao competir em inovação, procura de talentos e numa dinâmica tipo cluster, a indústria marítima global torna-se mais produtiva e assim gera maior valor, tanto para o seu próprio país ou cidade, como para a economia mundial.

Capa do Relatório das Capitais Marítimas de 2017
Capa do Relatório das Capitais Marítimas de 2017

R.M.– Porque destaca “cidades”, em vez de países?

E.J.– Bem, em primeiro lugar, deixe-me explicar que na nossa nomenclatura, quando falamos de “cidade” incluímos toda a região circundante num raio de 200 km em relação ao centro da cidade. Lisboa, por exemplo, incluiria Sines e Setúbal. As principais razões que nos levam a focar-nos nas cidades são estas:

  • Importância – as cidades são responsáveis por 80% do PIB mundial
  • Crescimento – as cidades são os principais motores de crescimento
  • Produtividade – as cidades são as regiões mais produtivas de qualquer país
  • Inovação – as cidades são o melting pot, por excelência, onde surgem ideias e conhecimento
  • Clustering – as empresas estão localizadas em cidades onde há mais recursos disponíveis
O porto de Hamburgo foto de Karsten Bergmann
O porto de Hamburgo foto de Karsten Bergmann

R.M. – Quais são os critérios que presidem ao ranking das cidades marítimas?

E.J.– Nós atribuímos igual peso a cinco pilares. Para se tornar uma cidade marítima destacada é necessário congregar estes aspetos:

  1. Possuir uma comunidade de shipping grande e sofisticada, com proprietários de navios, sede de empresas e centros de operações;
  2. Ter um porto grande com serviços de logística variados e avançados;
  3. Ser dotada de um ambiente tecnológico especializado, composto por estaleiros, fornecedores de equipamento marítimo e start-ups inovadoras de investigação e desenvolvimento;
  4. Dispor de um conjunto completo de serviços especializados a nível mundial em finanças, apoio legal e seguros;
  5. Oferecer uma localização segura e agradável para viver.
Os 5 pilares que definem uma Capital Marítima são avalidados com o mesmo peso.
Os 5 pilares que definem uma Capital Marítima são avalidados com o mesmo peso.

R.M.– Qual o fator principal para que uma capital marítima se torne destacada?

E.J.– Bem, eu não diria que existe propriamente uma condição única, mas antes sublinharia a existência de um conjunto de aspetos muito relevantes: localização estratégica; ambiente político favorável e estável; um quadro legal transparente e eficaz; proximidade relativamente a clientes importantes e exigentes; competição a nível local, universidades especializadas e instituições dedicadas a investigação; um grande viveiro de talentos; um fluxo rico e aberto de conhecimentos e ideias; relações baseadas na confiança; uma educação baseada no mérito e num sistema de progressão na carreira; fatores agradáveis de localização; um sítio atrativo para viver.

R.M.– Onde se encontram localizadas geograficamente, as principais cidades marítimas de vanguarda?

E.J.– No nosso processo de avaliação damos particular destaque a 30 cidades nomeadas com base em 24 indicadores objetivos e nas avaliações de peritos em indústria … e são estas as cinco primeiras do nosso último estudo realizado em 2017.

Das 30 cidades destacadas, só 11 cidades conseguem ser classificadas em pelo menos um dos 5 indicadores de competitividade marítima.
Das 30 cidades destacadas, só 11 cidades conseguem ser classificadas em pelo menos um dos 5 indicadores de competitividade marítima.

Estes resultados sublinham a importância de duas regiões fulcrais: China/Singapura e o Norte da Europa.

R.M.– Na opinião dos peritos da indústria quais são, então, as cidades mais atrativas para colocar as sedes de empresas marítimas?

E.J.– Não será uma surpresa se vos disser que as cidades mais atrativas para recolocar sedes de empresas, bem como os centros de operações e a investigação e desenvolvimento ( R&D), tal como o quadro abaixo indica, são precisamente as que também mais se destacam nas primeiras posições do ranking geral.

quadro das 17 cidades mais atrativas para a relocalização de empresas marítimas
quadro das 17 cidades mais atrativas para a relocalização de empresas marítimas

R.M.– Quais são as cidades dotadas de comunidades mais fortes de shipping ?

E.J.– Atenas, Singapura e Tóquio estão nas primeiras posições, baseadas no valor da frota controlada a partir da cidade-região.

De notar que os critérios do shipping não são a indicação do local onde a frota está registada, mas sim, o local onde está a sede da empresa. Por exemplo 80% da frota controlada pelos armadores gregos está registada fora da Grécia.

Xangai, aparece em 5º lugar entre as capitais marítimas mais atractivas
Xangai, aparece em 5º lugar entre as capitais marítimas mais atractivas

R.M.– Olhando agora para o futuro, no vosso entender, como irá ser a competição entre cidades marítimas?

E.J.– Nós pensamos que haverá três fatores fundamentais a delinear o futuro do setor marítimo, a saber:

  • Digitalização– a capacidade de aplicar e capitalizar a tecnologia existente levada até aos seus limites máximos. Lembremo-nos que o que é considerado inovador hoje em dia, já será algo vulgar amanhã;
  • Mudanças climáticas e ambientais– capacidade de desenvolver, implementar e aumentar soluções sustentáveis;
  • Crescimento acentuado e integração de indústrias oceânicas– a capacidade de adaptação às mudanças nas soluções propostas e nos parceiros de crescimento, ou seja, … a flexibilidade compensa!

R.M.– Neste contexto, será que Lisboa pode vir a tornar-se numa cidade marítima de vanguarda?

E.J.– Claro que sim! Apesar de Portugal, atualmente, ter um lugar de pouco destaque no setor marítimo (por ex. no ranking do shipping ocupa o 67º lugar!)  não são os produtos e tecnologias de Lisboa que constituem a vossa força competitiva, mas sim a capacidade de continuamente criarem algo de novo e melhor através da vossa colaboração no que se refere ao ecossistema. O primeiro passo a dar é conseguir que Lisboa seja uma referência comparativamente às cidades marítimas de vanguarda a nível mundial e a partir daí, identificar as diferenças mais relevantes a colmatar, entre Lisboa e a cidade mais importante, Singapura, e entre Lisboa e as suas rivais mais próximas em termos geográficos.

O segundo passo será enfrentar os desafios mais importantes e formular uma estratégia que permita construir um centro marítimo internacional.

Vista do cais de Santa Apolónia durante a construção do Terminal de Cruzeiros. O porto de Lisboa ocupa o 67º lugar no ranking do Shipping.
Vista do cais de Santa Apolónia durante a construção do Terminal de Cruzeiros. O porto de Lisboa ocupa o 67º lugar no ranking do Shipping.

R.M.– No seu entender, como é que isso se faz?

E.J.– Bem, com base na nossa experiência, o esboço do plano passaria por:

1ª fase: Comparar (benchmarking) estratégias e desempenho

  •  avaliar a pontuação de Lisboa com base nos 24 indicadores objetivos para as cidades marítimas de vanguarda num estudo comparativo de Lisboa relativamente a estas 30 cidades.
  •  realizar uma avaliação da cidade com base num inquérito, com entrevistas e questionários, a aplicar a empresas e instituições ligadas ao mar, para se poder comparar Lisboa com as 30 cidades de referência.

2ª fase: Formular uma estratégia

  • avaliar as falhas principais a colmatar
  • identificar e descrever as mais valias de Lisboa e como podem ser aproveitadas e desenvolvidas
  • propor a posição que Lisboa poderia querer atingir
  • identificar as políticas públicas que precisam ser estabelecidas ou melhoradas a fim de aumentar a sua atratividade, bem como estimular o crescimento na área do conhecimento, inovação e empreendedorismo.
O porto de Oslo foto de Alex von Gutthenbach-Lindau
O porto de Oslo foto de Alex von Gutthenbach-Lindau

 

 

Jorge D'Almeida

Jorge d'Almeida - Iniciou a sua carreira como oficial da armada, tendo posteriormente trabalhado 12 anos nos EUA, onde tirou um Mestrado em Engenharia e Arquitectura Naval no MIT e um MBA na New York University. Exerceu funções de chefia na J.J.Henry Co., uma empresa de arquitectura naval sediada em Nova Iorque, e na U.S.Lines Inc, onde liderou a equipa responsável pelo maior projecto mundial de construção naval comercial, até então, nos estaleiros Daewoo na Coreia do Sul. Em Portugal, foi responsável pelas operações comerciais da Portline nos mercados de graneis, linhas e short-sea, e foi administrador delegado da Soponata, o maior armador de navios tanque português. A sua carreira de consultor começou em 1997 ligado à International Strategic Services Inc., uma empresa de Nova Iorque especializada em projectos de infra-estruturas multinacionais. Em 2001 co-fundou a Saconsult Lda, empresa vocacionada para prestar serviços de consultoria especializada no sectores marítimo-portuário e financeiro. Em 2003 assessorou o grupo PSA no arranque do mega-terminal de contentores de Sines, tendo assumido as funções de administrador delegado da PSA Sines S.A. a partir de Janeiro de 2007. É professor convidado do Instituto Superior Técnico nas áreas de projecto de navios, transportes marítimos e portos. É atualmente o Presidente da Comunidade Portuária de Sines (CPSI), sendo um profundo conhecedor das realidades do sistema portuário nacional.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Excelente artigo. Questões inteligentes e interessantes, para respostas não menos inteligentes e interessantes.
    E como bónus a questão portuguesa, e de Lisboa.
    Os parabéns ao Engenheiro Jorge D’Almeida e à Revista de Marinha.

    Artur Manuel Pires

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