Ambiente

A Revista de Marinha entrevista Pedro Amaral Frazão

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A Revista de Marinha entrevista Pedro Amaral Frazão Administrador e Chief Sustainability Officer Grupo Sousa

A descarbonização está na agenda mundial e é um dos principais desafios que a humanidade enfrenta nas próximas décadas.

1. Revista de Marinha. É referido que a utilização de gás natural reduz as emissões de poluentes. Que impacto têm esses poluentes no ambiente e na saúde humana?

Pedro Amaral Frazão
O gás natural é um combustível fóssil mais limpo comparativamente a outros combustíveis fósseis como o fuelóleo ou diesel.

Sabemos que o gás natural emite menos dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera e que contribui para o aquecimento global e, por conseguinte, tem impacto nas alterações climáticas.

Ora, a utilização do gás natural permite, no curto prazo, reduzir em cerca de 25% as emissões de dióxido de carbono em relação ao fuelóleo, que é atualmente o combustível mais utilizado nas regiões insulares para geração de energia elétrica de base permanente.

A descarbonização está na agenda mundial e é um dos principais desafios que a humanidade enfrenta nas próximas décadas.

2. Revista de Marinha. O gasoduto virtual de GNL português é um projeto pioneiro e inovador que, com certeza, envolve vários desafios. Quer desvendar-nos como foi preparada a operação e quais os principais desafios da sua implementação?

Pedro Amaral Frazão
Gostaria de recuar a fevereiro de 2013, momento em que iniciámos o planeamento de implementação da cadeia logística que designamos por gasoduto virtual de GNL e que arrancou em março de 2014.

Na realidade, o primeiro desafio foi partirmos de um conceito que já existia, mas que nunca tinha sido posto em prática com a intensidade que iríamos e estamos a fazer. Ou seja, não existia a nível mundial nenhum operador que nos pudesse inspirar no trabalho que tínhamos pela frente. No essencial partimos de uma folha em branco e começámos a desenhar a cadeia logística nas suas múltiplas dimensões: operacional, segurança, administrativa, de preparação dos operadores e também na capacitação da manutenção.

Construímos ao longo deste processo um robusto portfólio de procedimentos inspirados nos princípios de boas práticas da Marinha Portuguesa, e que acabaram por ficar “embebidos” nesta operação, mas também e sobretudo, na cultura de saber-fazer e rigor que pautam a atuação da reduzida equipa da Gáslink (7 pessoas), que conduz a operação ao longo dos 365 dias do ano, 24 horas por dia.

O desafio concreto e diário que nos tem acompanhado ao longo destes anos é o de fornecer, semanalmente, mais de 36 contentores de GNL, pontualmente 40 a 42, dispondo de uma frota de 55 contentores, sem falhas de abastecimento e em segurança. Isto exige um grande esforço e sincronismo ao nível operacional e de manutenção.

Decorridos estes anos continua a ser a maior operação deste género, pelo menos no espaço Atlântico, o que explica o facto de sermos regularmente contactados por operadores de referência mundial da indústria do Oil & Gas, bem como por operadores logísticos e investidores, com o propósito de replicarem este modelo de operação noutras geografias.

Os desafios são permanentes, mas a realidade é que a experiência nos tem ensinado muito, sobretudo na otimização da operação, mas também temos uma enorme vantagem competitiva que deriva do facto de a cadeia logística ser, quase na totalidade, assegurada com meios próprios do nosso grupo empresarial. Refiro-me em concreto à intervenção direta e permanente na cadeia logística da empresa de navegação, dos operadores dos terminais marítimos, do agente de navegação, do transporte rodoviário e dos serviços de manutenção.

Ou seja, a operacionalização do gasoduto e a sua gestão diária pela Gáslink assegura um elevado nível de integração, otimização e flexibilidade em todo o processo que será difícil igualar.

3. Revista de Marinha. Sendo apontada como um caso de estudo e uma referência a nível internacional, com mais de 11.000 operações realizadas sem interrupção de fornecimento e zero acidentes, isto é resultado de quê?

Pedro Amaral Frazão
Não obstante a vantagem competitiva que identifiquei, não deixa de ser uma operação complexa e muito exigente, que nos obriga a manter uma atenção redobrada em vários domínios para garantirmos a segurança do abastecimento.

Penso que o sucesso decorre também da prioridade que conferimos à formação e treino do pessoal, à monitorização da cadeia logística, à avaliação da condição e manutenção dos sistemas e equipamentos afetos à operação, e ao processo de melhoria contínua implementado desde o primeiro dia.

São pilares fundamentais do gasoduto virtual de GNL, é esta a cultura que norteia a Gáslink e que se estende às restantes empresas envolvidas, sejam elas do Grupo Sousa, ou externas.

A Gáslink tem igualmente sido um parceiro ativo na colaboração e preparação dos Serviços Regional e Municipais de Proteção Civil da Região Autónoma da Madeira, bem como envolvendo outras entidades institucionais, através realização de treinos e exercícios de combate a incêndios de Gás Natural.

Exercício de demonstração (You Tube)

 

4. Revista de Marinha. Quem são os beneficiários desta operação?

Pedro Amaral Frazão
Os principais beneficiários do gasoduto virtual de GNL são, na verdade, os residentes e os visitantes da ilha da Madeira, já que a introdução do gás natural na matriz energética regional permitiu reduzir significativamente as emissões poluentes, contribuindo, portanto, para o ar mais puro que todos respiramos.

Em complemento ao crescimento dos centros produtores de energia renovável na Região Autónoma da Madeira, o gasoduto virtual de GNL vem, ainda, contribuir para o processo de descarbonização em curso, de uma forma sustentada, importando sublinhar que as capacidades instaladas poderão também acomodar, no futuro, o biometano (bioGNL), que é um gás 100% renovável. Por outro lado, importa realçar a geração de valor que o gasoduto virtual de GNL aportou para a Região Autónoma da Madeira nas vertentes social e económica, já que tem permitido fixar postos de trabalho qualificado na Madeira, como também a otimização dos recursos existentes e um baixo custo de investimento, reforçando a competitividade desta Região.

5. Revista de Marinha. O sucesso da introdução de GNL numa ilha como a Madeira não se esgota na produção de energia elétrica; existem porventura outras oportunidades?

Pedro Amaral Frazão
Com certeza que existem outros segmentos onde o gás natural pode ser introduzido, seja no abastecimento de navios de cruzeiro, como já sucedeu e em que fomos pioneiros, sejam ainda a iates ou mesmo rebocadores, ou outras embarcações que utilizem o gás natural como combustível. Mas também nos transportes terrestres de mercadorias e pessoas, veículos públicos ou privados, constituindo o gás natural uma boa opção tanto mais que a questão principal, a logística, está resolvida.

Por outro lado, não é de descartar a possibilidade de utilizar gás natural na indústria e serviços (hotelaria, fábricas de laticínios, hospitais etc.) seja na Madeira como nos Açores, ou mesmo em Cabo Verde, ou na Guiné-Bissau, onde também estamos presentes e onde esta operação poderá ser replicada.

A Revista de Marinha entrevista Pedro Amaral Frazão Administrador e Chief Sustainability Officer Grupo Sousa
Pedro Amaral Frazão Administrador e Chief Sustainability Officer Grupo Sousa (imagem Grupo Sousa)

O Cte. Pedro Amaral Frazão nasceu em Luanda, Angola, é Administrador e Chief Sustainability Officer (CSO) do Grupo Sousa com os pelouros da Sustentabilidade, Responsabilidade Social Corporativa, Comunicação estratégica, Segurança e Proteção.

Licenciado em Ciências Militares Navais-Marinha, especializou-se em Comunicações e Guerra Eletrónica, sendo pós-graduado em Gestão Estratégica da Comunicação.

Ao longo da sua carreira naval embarcou em fragatas da classe CTE. JOÃO BELO e comandou o navio-patrulha ZAIRE. Prestou serviço no Comando-Chefe da Área Ibero Atlântica (CINCIBERLANT), foi Diretor da Estação Radionaval e Capitão do Porto do Porto Santo, Adjunto do Chefe da Missão Militar de Portugal na NATO e UE (Bruxelas), oficial de planeamento no Estado-Maior da Armada e Assessor para a Marinha do Ministro da Defesa Nacional.

Entre 2009 e 2012 foi Comandante da Zona Marítima da Madeira, Capitão dos Portos do Funchal e do Porto Santo, e Comandante Regional da Polícia Marítima.

Transitou, a seu pedido, para a situação de Reserva com o posto de Capitão-de-mar-e-guerra.

(Acerca deste assunto, leia o artigo Operação pioneira para fornecer gás natural a uma ilha)

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