Marinha de Guerra

A VOR no Cabo Horn, vista pela Marinha do Chile

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Cabo Horn … 400 anos como um dos lugares mais perigosos do mundo para velejar.

Desde a sua descoberta, há mais de 400 anos, que o mítico Cabo Horn deve ser um dos lugares mais perigosos do mundo para velejar. Essa fama deve-se aos ventos fortes e aos mares agitados que o rodeiam, com registo de uma série de naufrágios e perda de vidas, numa lista que pareceria interminável se a quisessemos agora inúmerar.

O Cabo Horn, vendo-se o farol do lado direito (Ainhoa Sanchez/VOR)

Lá, onde as águas dos dois maiores oceanos do mundo se juntam, é normal enfrentar ventos de mais de 60 nós e ondas acima dos 8 metros. Foi nestas condições, em que um simples mortal não arriscaria sair de casa, que um grupo de marinheiros, com os seus barcos, desafiaram a travessia do Cabo Horn no final do mês de março.

Com a esperança que o vento e o mar os recebesse de feição, os veleiros da regata Volvo Ocean Race fizeram a aproximação ao Cabo Horn pelo Oceano Pacífico, vindos da Nova Zelândia.  No dia 25 de março, começaram a navegar nas águas do Estreito de Drake, uma das zonas de navegação mais perigosas para qualquer barco, independentemente do seu tamanho.  Em 29 de março, os veleiros cruzaram o Cabo Horn para o Oceano Atlântico, rumo ao seu próximo porto no Brasil.

Muito antes, já os velozes barcos estavam a ser seguidos pela Marinha do Chile, garantindo ajuda em caso de necessidade. Desde a sua largada da Nova Zelândia que se manteve o contacto com a organização da corrida, permitindo acompanhar a rota de cada participante e antecipar quaisquer problemas que pudessem surgir, contando com o conhecimento que os marinheiros chilenos têm daquela zona de navegação.

A Marinha do Chile preparou um dispositivo para acompanhar a VOR

Foi preparado todo um dispositivo para que na área de responsabilidade da Marinha do Chile, existissem unidades que pudessem prestar auxílio a qualquer dos barcos que se aproximavam do Cabo Horn, a uma velocidade perto dos 25 nós. Lamentavelmente, no dia 26 de março, o veleiro “Sun Hung Kai / Scallywag” informou o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo (MRCC Chile) que, devido às péssimas condições de mar e vento na área, um dos seus tripulantes tinha caído ao mar e não tinha sido encontrado. Imediatamente, o MRCC Chile desencadeou uma operação de busca e salvamento, de emergência prioritária, para encontrar e resgatar o velejador, envolvendo vários navios mercantes que estavam na área, infelizmente, sem resultados positivos até à data.

A paragem forçada do MAPFRE, na ilha de Horn.

Os restantes barcos com as suas tripulações emocionalmente abatidas pela triste notícia, continuaram a derrota prevista, enfrentando as águas colossais da Passagem Drake, tendo dobrado o Cabo Horn, mas não sem problemas técnicos. Assim, a 26 de março, chegou a Puerto Williams, a cidade mais austral do mundo e muito perto do Cabo Horn, uma equipa técnica do veleiro Mapfre (espanhol), liderada por Antonio Piris,  informando sobre a necessidade de reparar um problema mecânico no mastro principal, que impedia içar a vela até ao tope.

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O “Mapfre”, de braço dado com o Ketch “Kat”, fundeados numa pequena enseada, junto à ilha Horn. (Ugo Fonolla/VOR)

Claro que a Marinha do Chile, empenhada em prestar todo o apoio possível e promover os interesses marítimos, desenvolveu os procedimentos necessários para, sem quaisquer demoras, autorizar a ancoragem dum navio de apoio na proximidade da ilha de Horn, o que permitiu ao veleiro Mapfre atracar de braço dado e fazer as devidas reparações, uma paragem, que de acordo com as regras da VOLVO OCEAN RACE, teria forçosamente de ser inferior a 12 horas.

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drone view do “Mapfre” de braço dado com o “Kat”, durante as reparações do mastro. (Ugo Fonolla/VOR)

O NPO MARINERO FUENTEALBA e a LSG ALACALUFE, navios empenhados no apoio à VOR

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A LSG ALACALUFE, com base em Puerto Williams. A sua missão principal é busca e salvamento e apoio ào assinalamento marítimo, desempenhando também missões de polícia marítima e fiscalização da pesca. (Marinha Chilena)

No dia 29 de março os barcos começaram a cruzar o meridiano do Cabo Horn, encontrando-se com o Navio Patrulha Oceânico MARINERO FUENTEALBA da Marinha do Chile que, desde o início, tinha sido destacado para fazer o acompanhamento desta regata. Este NPO é dotado de helicóptero embarcado, o que proporcionou aos jornalistas uma oportunidade para ver, filmar e fotografar o encontro com cada veleiro. Na missão, também foi empenhada a Lancha de Serviço Geral ALACUFE, que esteve posicionada nas imediações da ilha de Horn para, em caso de necessidade, poder intervir no menor espaço de tempo possível.

Os movimentos das embarcações, enquanto navegaram dentro das águas jurisdicionais chilenas, foram sempre acompanhados a partir do Comando do Distrito Naval de Beagle, sedeado em Puerto Williams, o que permitiu um trânsito rápido e sem inconvenientes, na passagem de Drake.

O Team Brunei acompanhado pelo NPO MARINERO FUENTEALBA (Ainhoa Sanchez/VOR)

Vale referir que a embarcação “Sun Hung Kai / Scallywag”, uma vez terminadas as buscas pelo tripulante caído ao mar, foi encaminhada para a cidade de Puerto Montt, onde foi obrigada a abandonar a etapa, para se proceder ao inquérito decorrente da normal investigação das autoridades nestes casos.

Distrito Naval Beagle (DISNABE)
Comando do DISNABE (Distrito Naval Beagle) e Gobernación Marítima de Puerto Williams (Ainhoa Sanchez/VOR)

Foi assim que, um a um, os veleiros atravessavam o meridiano do Cabo Horn com ventos SW entre 35 e 45 nós e ondas de 4 metros, condições que permitiam uma boa navegação pelo colossal Mar Drake, iniciando rapidamente a derrota em direção ao Oceano Atlântico, rumo a Itajaí, meta final desta pernada da VOR.

A Revista de Marinha agradece a colaboração do Sr. Comandante César Quiroga e da Revista de Marina, publicação oficial da Marinha Chilena.

Nota da redação:  O texto foi traduzido e adaptado do Espanhol.

César Quiroga Torres, é Capitán de Navio (capitão-de-mar-e-guerra) da Marinha Chilena e colabora regularmente com a Revista de Marina, publicação oficial da Marinha Chilena. Actualmente exerce funções como Comandante do DISNABE (Distrito Naval Beagle) e Gobernador Marítimo de Puerto Williams.