História

 Aconteceu no Atlântico Sul

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No dia vinte e nove de novembro de 1807, em Belém, na zona ribeirinha de Lisboa, a família real e a corte portuguesa preparavam-se para embarcar para o Brasil.

As tropas de Napoleão Bonaparte, coligadas com Espanha, que tinha perdido a sua independência, tinham invadido Portugal há pouquíssimos dias atrás e, depois de derrotas, empates e vitórias com o exército português, marchavam a toda a brida para a capital.

Era por esta razão que o Senhor D. João VI e a sua família, encabeçada pela Rainha Mãe e o governo, símbolos da nossa soberania, iam ser transferidos para o outro lado do Atlântico, para que a Pátria conservasse a sua independência, subtraindo-se ao destino de quase todos os países europeus, que tinham tombado sob os estandartes das invasões francesas.

A ideia de transladar a sede do governo e, portanto, a soberania para um território ultramarino fora da Europa, não era nova, tendo sido equacionada já por D. João IV e, inclusivamente, pelo Marquês de Pombal.

Esta ideia, implementada na conjuntura napoleónica, passava pela existência de territórios ultramarinos, que Espanha, por exemplo, também possuía, e por uma estratégia marítima assente no pressuposto de que havia mais pátria para além do território europeu, que Espanha igualmente possuía.

Mas, se substituirmos marítima por atlântica, o caso espanhol começa a complicar-se, dado que, excetuando as Antilhas e o México, o seu império americano estava maioritariamente concentrado no lado do Pacífico.

Os portugueses que embarcavam naquele dia, quase invernoso, de finais de Outono, em Lisboa, sabiam que tinham à sua espera uma costa com sete mil e quinhentos quilómetros de extensão para aportarem e um território que já era quase metade da América do Sul para desembarcarem, feito de um litoral ameno, planícies férteis e montanhas suaves.

Embarque em Lisboa do Príncipe Regente, D. João VI, para o Brasil, no dia 29 de novembro de 1807. (gravura de Francesco Bartolozzi, 1813)

Os espanhóis tinham a outra metade da América do Sul, que, à exceção das pradarias férteis dos pampas e da bacia amena do Rio da Prata, era dividida de alto a baixo por uma espinha dorsal formada pelos Andes, no meio da qual se acantonavam em altitude as suas cidades, para as quais era necessário transportar tudo no lombo de mulas, até oxigénio.

E o pior, não era  o inóspito da geografia, mas o relacionamento que Madrid tinha com os seus vice-reinados americanos, assente na rivalidade explicita entre eles e na sua incompreensão dos problemas da metrópole europeia, o que impediu Espanha de adotar a estratégia de Portugal, de se transferir para o outro lado do Atlântico, facto aproveitado por Napoleão para anexar o país, e depois para tomar posse da Luisiana espanhola, a norte do México, para a vender aos norte-americanos, e desta feita para sempre.

A coroa portuguesa esteve no Brasil o tempo suficiente para produzir resultados relevantes para o território, para Portugal e para a Europa.

Efetivamente, durante aquele período, o continente europeu reconfigurou-se significativamente, com as sucessivas vitórias e derrotas de Napoleão, seguido do formato geográfico, político e social, saído da Conferência de Viena entre 1814 e 1815, assente no (re)fortalecimento das antigas casas monárquicas reinantes, e no equilíbrio de poderes, com o contributo português a chegar à mesa das negociações desde o Rio de Janeiro.

Este lado exótico permitiu a Portugal preparar a sua inserção na vida continental, em moldes diferentes dos restantes parceiros europeus, nomeadamente através da feição liberal, que os cariocas, os reinados de D. Maria II, nascida no Rio, do seu filho D. Luís e do seu neto D. Carlos, disseminaram numa Europa maioritariamente conservadora e autoritária, constituída por cortes quase absolutistas.

Uma das consequências maiores da estadia da coroa portuguesa no Brasil foi a independência do território, num processo que nunca atingiu as perturbações trágicas das secessões americanas em relação a Madrid e que, inclusivamente, foram depois passadas aos novos países independentes e vizinhos.

Na América espanhola, o cativeiro do rei em Madrid, refém às ordens de Napoleão, associado à difusão das ideias deste pelo continente, vão fomentar um processo de independência confuso e tumultuoso, onde os caudilhos, os exércitos e os mercenários vagavam entre os pântanos, as cordilheiras, os desertos e a selva, à procura de causas.

A batalha de Ayacucho, nas Pampas de Quinua, que marca em 9 de dezembro de 1824 a independência do Peru, foi travada entre um exército de peruanos leais à coroa espanhola e um exército de libertadores, composto maioritariamente por argentinos e colombianos.

Os vice-reinados espanhóis tornaram-se repúblicas independentes, sem que um único monarca espanhol tenha visitado aquelas possessões, em mais de três séculos de história.

Mas agora, a vinte e cinco de abril de 1821, no cais do Rio de Janeiro, o Senhor D. João VI prepara-se para regressar a Portugal.

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No 25 de abril de 1821, descendo a rampa no Cais do Valongo (hoje aterrado na Praça Quinze), no Rio de Janeiro, a Rainha Carlota Joaquina, embarcava de regresso a Portugal. (aguarela de Jean Baptiste Debret, 1834)

Naquela altura, o Rio de Janeiro era a Paris dos trópicos, sobretudo porque tinha vindo a receber os expatriados republicanos franceses, caídos em desgraça pela reviravolta conservadora e monárquica ocorrida em França, e que levou para a cidade um contingente notável de artistas, arquitetos, cientistas, livreiros, modistas e chapeleiros.

Já no mar, o rei ainda foi capaz de divisar a terra que deixava para trás e que em breve seria um país independente, com lugar marcado com a sua história entre as grandes nações do mundo.

Pela frente ficava Portugal, onde o liberalismo tinha penetrado, empurrado pelos canhões franceses e, portanto, era quase sinónimo de estrangeiro.

O mundo, mesmo nas xácaras cariocas, não tinha parado e as coisas em Portugal começavam a complicar-se, com o país ocupado pelo exército inglês, quase tão opressivo quanto o francês, e os postos de governação, as benesses e privilégios de toda a ordem, a serem disputados entre os que tinham permanecido no Reino e os que regressavam do Brasil.

Esta disputa, porventura, mais do que a rivalidade entre as mentalidades e políticas dos dois irmãos, Pedro e Miguel, filhos de D. João VI, iria precipitar Portugal numa guerra civil.

Entretanto, numa daquelas cenas maravilhosas de que só a história é capaz, em pleno Atlântico Sul, a embarcação que transportava o Senhor D. João VI de regresso à Europa, depois de treze anos no Brasil, escorraçado pelas invasões napoleónicas, passou rente à ilha de Santa Helena, onde dias antes, em cinco de maio, tinha morrido, abandonado por todos, Napoleão Bonaparte.

 

 

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.