Ciência e Tecnologia

Alberto do Mónaco, o príncipe explorador

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As campanhas oceanográficas dos Príncipes Alberto I e Alberto II do Mónaco em águas portuguesas

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Capa do álbum de banda desenhada “Albert Ier de Monaco, Le prince explorateur”, de Christian Clot, Philippe Thirault e Sandro

Acaba de ser publicado, pela casa francesa Éditions Glénat ( Abril de 2018), um muito interessante álbum de banda desenhada com o título ‘Albert Ier de Monaco. Le prince explorateur’, da autoria de Christian Clot, Philippe Thirault e Sandro. Trata-se de uma obra que percorre a extraordinária acção do soberano monegasco na área da oceanografia, que proporcionou avanços significativos nesta área, que resultaram de 28 campanhas oceanográficas levadas a efeito entre 1885 e 1915. Durante essa campanhas foram nomeadamente objecto de estudo as águas portuguesas dos Açores, nas quais o Príncipe efectuou 13 campanhas, tendo visitado todas as ilhas da Região. Este álbum faz a devida referência à presença nos Açores, mas também nas Ilhas Desertas, na Madeira, e a um diálogo com o nosso rei D.Carlos, precursor da moderna oceanografia portuguesa.

No final do álbum foi inserida uma resenha histórica, da autoria de Jacqueline Carpine-Lancre, que traça o percurso do Príncipe, desde os primeiros passos até à descoberta do mundo e à investigação científica por ele levada a cabo.

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Alberto I a bordo do Hirondelle, cerca de 1880 (foto Fundation Albert 1er)
Para além disso, descreve o tipo de navios utilizados na investigação e a tripulação, explica os objectivos das campanhas e o modo como se levava a efeito a difusão dos respectivos resultados.

Convém não esquecer que a carta batimétrica dos Açores, elaborada em 1899, contou com a colaboração dos trabalhos de investigação do Príncipe. No final do texto, é indicada bibliografia selectiva. O álbum contém uma nota introdutória do Príncipe Alberto II, actual soberano monegasco.

O Príncipe Alberto II tem-se afirmado como um grande defensor da boa governação dos oceanos e tem sido um impulsionador muito relevante da investigação oceanográfica.

Encontra-se em curso uma campanha oceanográfica de sua iniciativa, com a duração de 3 anos (de 2017 a 2020, que tem lugar no Oceano Atlântico, nas Caraíbas, nos Oceanos Pacífico e Índico e no Mar Negro), operada através do navio YERSIN (da Monaco Explorations, equipado com 6 laboratórios e um ‘drone’ submarino). Esta campanha visa identificar e tentar compreender a biodiversidade marinha, as ameaças que impendem sobre os oceanos (acidificação, poluição), potenciar a acção internacional relativamente aos objectivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pelas Nações Unidas e à salvaguarda da biodiversidade nas áreas situadas para além da jurisdição nacional, e ainda fomentar a inovação, através de soluções tecnológicas novas que propiciem um desenvolvimento sustentado das actividades ligadas aos oceanos.

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O mega-iate de investigação, YERSIN, de 77m e 2.250 toneladas, “escoltado” por um grupo de baleias-piloto (foto Monaco explorations)

O navio esteve recentemente nas águas das Ilhas Desertas, na Madeira. A equipa científica ligada ao navio tem por objectivo efectuar a cartografia deste espaço marítimo com vista à adopção de medidas de protecção de um ecossistema rico em corais. Durante esta passagem pelas águas da Madeira, o Príncipe teve oportunidade de efectuar mergulho organizado por cientistas portugueses.

Na sequência dum mergulho nas Desertas, o príncipe Alberto ouve as explicações da Dra. Rosa Pires, coordenadora do Projeto de Conservação do Lobo-marinho na Madeira. (foto Monaco Explorations)

De tudo o que precede pode extrair-se que as campanhas do passado constituem um património que importa preservar, pelo conhecimento que proporcionaram, e que as campanhas do presente devem assegurar uma eficaz cooperação internacional, a fim de que as nações detenham os instrumentos aptos a uma adequada preservação do meio marinho.

Pelas referências portuguesas e pela forma como é apresentada a obra do soberano monegasco Alberto I, vale a pena deter a atenção neste álbum de grande qualidade. Indica-se a seguir bibliografia seleccionada que permite aprofundar os elementos históricos e questões actuais relacionados com esta temática.

Bibliografia:

Albert Ier de Monaco, Mémoires d’un navigateur, Éd. Presses de la Renaissance, Paris, 2006.

Calcagno, Robert, Les Grands Fonds. Voyage dans un monde inconnu, Éd. Institut Océanographique – Fondation Albert Ier, Prince de Monaco/éditions du Rocher, 2011.

Castel, Pierre, ‘Albert de Monaco. Éclairer les abysses’ in Point de Vue, n° 3609, Paris, 2018, pp. 18-19.

Geistdoerfer, Patrick, ‘L’océanographie perce les secrets de la mer’ in L’Atlas de l’eau et des océans, éd. Le Monde, Paris, 2017.

Porteiro, Filipe Mora, ‘ A importância das campanhas oceanográficas do Príncipe Alberto I do Mónaco para o conhecimento do Mar dos Açores’ in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, n° 18, 2009, pp. 179-219.

Assessor Jurídico na Direcção-Geral dos Assuntos Marítimos e Pescas da Comissão Europeia. Anteriormente foi assessor jurídico da Direção Regional das Pescas do Governo Regional dos Açores de 1979 a 1985. Foi também coordenador da Comissão Baleeira Regional, tendo integrado a Delegação Portuguesa à International Whaling Commission, em representação da Região Autónoma.