Ambiente

Ameaças às aves marinhas em Portugal

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Foram os dados recolhidos pelo Centro de Reabilitação de Animais Marinhos CRAM-ECOMARE, que possibilitaram realizar o primeiro estudo sobre as causas dos traumas e da mortalidade das aves marinhas em Portugal.

Milhares de animais marinhos são feridos e mortos todos os anos em toda a Europa. As causas antropogénicas mais comuns de mortalidade de aves marinhas incluem as capturas acidentais, emaranhamento (Moore et al. 2009; Zydelis et al. 2013) e derramamentos de óleo e similares (Troisi et al. 2016).

Num estudo publicado em 2021 por Costa et al. (Threats to seabirds in Portugal: integrating data from a rehabilitation centre and stranding network, European Journal of Wildlife Research 67:41), com dados relativos ao centro de reabilitação de animais marinhos CRAM-ECOMARE nos anos compreendidos entre 2010 e 2016, destaca-se a importância dos centros de reabilitação de vida selvagem para a conservação das aves marinhas e o alto número de admissões de aves marinhas devido a causas associadas à atividade humana (emaranhamento/captura acidental, trauma). Este estudo foi a primeira tentativa de avaliar em conjunto as principais causas de admissão de aves marinhas num centro de reabilitação e as causas de mortalidade de aves marinhas com base na recolha e análise de aves marinhas mortas na costa de Portugal.

Aves recolhidas e tratadas no CRAM. Gansos-patola (Morus bassanus) são grandes aves marinhas. A sua área de nidificação é o Atlântico Norte, normalmente em grandes colónias, em penhascos sobre o oceano ou em ilhotas rochosas. O estado de conservação desta espécie está classificado como "Quase ameaçada" (imagem CRAM_Morus bassanus)
Aves recolhidas e tratadas no CRAM. Gansos-patola (Morus bassanus) são grandes aves marinhas. A sua área de nidificação é o Atlântico Norte, normalmente em grandes colónias, em penhascos sobre o oceano ou em ilhotas rochosas. O estado de conservação desta espécie está classificado como “Quase ameaçada” (imagem CRAM_Morus bassanus)
Ave recolhida e tratada no CRAM. Um Guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus). É uma pequena gaivota relativamente fácil de observar em Portugal. É mais abundante junto à faixa costeira, sendo particularmente numerosa nos grandes estuários. (imagem CRAM)
Ave recolhida e tratada no CRAM. Um Guincho-comum (Chroicocephalus ridibundus). É uma pequena gaivota relativamente fácil de observar em Portugal. É mais
abundante junto à faixa costeira, sendo particularmente numerosa nos grandes estuários. (imagem CRAM)

Neste estudo foram registadas 2042 admissões de aves marinhas de 26 espécies diferentes.

Os grupos mais comuns foram gaivotas grandes, tordas, patolas, cagarras e pardelas. A principal causa de admissão foi emaranhamento/captura acidental, seguido de trauma e toxicidade. Entre as aves marinhas vivas inicialmente admitidas, 39% foram libertados com sucesso na natureza após a reabilitação, 31% morreram durante a reabilitação e 30% foram considerados irrecuperáveis após o diagnóstico e foram eutanasiados ou transferidos para outros centros onde são mantidos em cativeiro para fins de educação e conservação.

Para além do esforço efetivo de reabilitação e posterior libertação dos animais marinhos, muito importante para a conservação das espécies, é essencial salientar a importância da recolha de dados consistentes e durante períodos de tempo longos. Esta recolha de dados poderá aumentar a informação sobre a ocorrência de aves em determinadas áreas, contribuir para a monitorização dos impactos das atividades humanas nas populações de aves marinhas fora das suas áreas de reprodução e também revelar padrões de população relacionados com mudanças climáticas ou mudanças fenológicas.

Ave recolhida e tratada no CRAM. Uma Pardela-do-Mediterrâneo (Puffinus mauretanicus), ou Pardela-balear, também Fura-bucho-das-Baleares. Como nidificante está confinada às Ilhas Baleares. O estado de conservação desta espécie ´está classificado como "Em perigo crítico" (imagem CRAM)
Ave recolhida e tratada no CRAM. Uma Pardela-do-Mediterrâneo (Puffinus mauretanicus), ou Pardela-balear, também Fura-bucho-das-Baleares. Como nidificante está confinada às Ilhas Baleares. O estado de conservação desta espécie ´está classificado como “Em perigo crítico” (imagem CRAM)
Ave recolhida e tratada no CRAM. Um Pato-preto ou Pato-do-mar (Melanitta nigra). Oriundo do norte da Europa, nidifica em zonas de água doce, principalmente na Escandinávia e inverna no mar, sendo relativamente comum durante o Inverno na faixa marítima do Norte de Portugal, especialmente nas regiões da foz do rio Cávado, do estuário do rio Minho e do litoral centro (imagem CRAM)
Ave recolhida e tratada no CRAM. Um Pato-preto ou Pato-do-mar (Melanitta nigra). Oriundo do norte da Europa, nidifica em zonas de água doce, principalmente na Escandinávia e inverna no mar, sendo relativamente comum durante o Inverno na faixa marítima do Norte de Portugal, especialmente nas regiões da foz do rio Cávado, do estuário do rio Minho e do litoral centro (imagem CRAM)

O CRAM-ECOMARE é o maior centro de reabilitação de animais marinhos da Europa e tem como principal missão o resgate, reabilitação e devolução à natureza de aves, répteis e mamíferos marinhos. O centro é coordenado por uma parceria entre a Sociedade Portuguesa da Vida Selvagem e a Universidade de Aveiro, está localizado em Ílhavo e está disponível 24 horas por dia para o resgate de animais marinhos (919 618 705).

 

Referências:

Moore et al. 2009: A review of marine mammal, sea turtle and seabird bycatch in USA fisheries. Mar Policy 33(3):435–451

Zydelis et al. 2013: The incidental catch of seabirds in gillnet fisheries: a global review. Biol Conserv 162:76–88

Troisi et al. 2016: Impacts of oil spills on seabirds: unsustainable impacts of non-renewable energy. International Journal of Hydrogen Energy 41(37):16549–16555

Rute Costa

Investigadora no CESAM – Centre for Environmental and Marine Studies, no Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, é doutorada em Ciências, ramo da biologia pela Universidade do Minho, com a tese A avifauna florestal como bioindicador da poluição por metais pesados (2012)

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