Náutica de Recreio

António Fontes e Frederico Melo a caminho do Cabo Horn

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António Fontes e Frederico Melo – dois jovens velejadores portugueses no Cabo Horn

Dois jovens velejadores portugueses, o António Fontes, a bordo do Scallywag, e o Frederico Melo, a bordo do Turn the Tide on Plastic, aprestam-se para cruzar nas próximas semanas o mítico Cabo Horn, tendo zarpado de Auckland, na Nova Zelândia, no dia 18 de Março de 2018, a caminho de Itajaí, no Brasil, onde se prevê que cheguem a 6 de Abril próximo, naquela que será a 7ª e a mais longa e mais dura etapa da Volvo Ocean Race 2017-2018.

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Antonio Fontes e Ben Piggot no 19º dia da Etapa 6, a bordo do Team Sun Hung Kai/Scallywag

Esta etapa representa uma distância de mais de 7.000 milhas náuticas, ao longo de mais de 20 dias de navegação no Oceano Antártico, por mares encapelados, com ondas alterosas que podem atingir  10 a 12 metros de altura, e com ventos ciclónicos, cuja velocidade pode ultrapassar folgadamente os 50 nós. Em edições anteriores da prova houve registo de ventos com mais de 70 nós, o que por si só diz muito dos perigos e das dificuldades que navegar nestas águas encerra.

Com uma importante curiosidade: o Turn the Tide on Plastics “enverga” a bandeira portuguesa pintada à popa, fruto da circunstância da Fundação Mirpuri emprestar o seu patrocínio a esta embarcação, a qual veícula pelos quatro cantos do Mundo uma importante mensagem ecológica que alerta para a necessidade da salvaguarda da qualidade ambiental dos Oceanos.

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Turn the Tide on Plastic, patrocinado pela Fundação Mirpuri – Por um Mundo Melhor

o Cabo Horn, terror dos antigos navegadores

Como é sabido por muitos daqueles que nos lêem na Revista de Marinha On-line, o Cabo Horn, terror dos antigos navegadores e último ponto de terra firme no caminho para a Antártida, é considerado o Evereste da Vela.

Situado no Estreito de Drake, na Terra do Fogo, em território chileno, é o último pedaço de terra habitado no extremo do continente sul-americano, conhecido como o “Fim do Mundo”, um lugar isolado, com um cenário inóspito e um horizonte vazio que nos desperta a atração pelo desconhecido e o desejo de exploração.

Descoberto em 1616, o Cabo Horn é hoje uma Reserva da Biosfera e como tal declarado pela UNESCO, encerrando em si mesmo o mito de ser um local de difícil acesso, sendo uma importante rota de navegação para as embarcações que navegam entre os oceanos Pacífico e Atlântico, revelando-se extremamente perigosa para todos aqueles que se aventuram nestas latitudes extremas, onde, neste momento (Verão Austral), a temperatura sentida (sensação térmica), fruto da intensidade dos ventos nestas latitudes, atinge os -5º celsius.

Que o diga Genuíno Madruga, pescador e velejador açoriano, que em 2008 cruzou o Cabo Horn na sua segunda Volta ao Mundo em solitário, cujo testemunho reflete bem as dificuldades de navegar nestas águas: “Aqui cheguei (a Ushuaia, no extremo sul do Chile) após passar o mítico e tenebroso Cabo da Ilha de Horn, facto histórico e sem precedentes na navegação marítima Portuguesa. Efetivamente chegar até a Ilha de Horn não foi tarefa fácil […]. Creio mesmo que muitas dessas histórias só podem ser entendidas por aqueles que, navegando em pequenas e (sempre) frágeis embarcações, conseguem viver o suficiente para assim relatarem tão marcante evento. Muitos não o conseguiram! Para estes últimos a minha e, certamente, nossa, maior Homenagem!”

Há registo de mais de 100 embarcações naufragadas nestas águas gélidas, próximas do Continente Antártico.

Embora jovens na idade, o António Fontes e o Frederico Melo têm pouco mais de 30 anos, são velejadores experimentados com muitas milhas náuticas percorridas nos mais variados tipos de embarcações de recreio.

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A família Fontes reunida na chegada a Auckland – Mariana Lobato, António Fontes e o respectivo rebento

O António Fontes, licenciado em pilotagem pela Escola Náutica Infante D. Henrique, em Paço de Arcos, cuja jovem esposa, Mariana Lobato, é também ela uma experimentada velejadora, contando com uma participação nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, averbou muitas milhas náuticas “under his belt” nos últimos anos, contando no seu impressionante currículo com uma importante e significativa participação na Mini-Transat em 2015, regata oceânica em solitário para embarcações de 6,5 metros, a qual concluiu num brilhante 13º lugar entre mais de 40 participantes.

Exemplo da determinação do António Fontes para integrar a Alta-roda da Vela Mundial, foi o trabalho que desenvolveu ao longo de mais de um ano no Boatyard da Volvo Ocean Race, em Pedrouços, previamente ao início da prova. Todos os dias víamo-lo com as mãos e t-shirt sujas, fruto do insano trabalho de estaleiro que aí desenvolveu, o que lhe permitiu conhecer “inside out” a embarcação na qual percorre neste momento os mares do planeta.

Já o Frederico Melo, filho de pais portugueses, nascido em Washington DC, cresceu em Portugal onde ganhou o gosto pela Vela desde tenra idade no Clube Naval de Cascais. Representou as cores nacionais em sucessivos Jogos Olímpicos ao integrar a Olímpica de Vela em Finn e em Star, facto de que muito justamente se orgulha.

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Frederico Melo, ao leme do Turn the Tide on Plastic, durante a etapa 6.

O Frederico Melo participa pela primeira vez numa prova oceânica. Previamente esteve muito ativo nas Extreme Sailing Series a bordo do Sail/Portugal/Visit Madeira, tendo também participado na Regata Sydney Hobart a bordo do Sydney 38.

A equipa Turn the Tide on Plastic integra também o velejador Bernardo Freitas, igualmente do Clube Naval de Cascais, o qual alterna com o Federico Melo, como acontece no caso desta etapa entre Auckland (Nova Zelândia) – Itajaí (Brasil).

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A equipa do VOR de pavilhão português, Bernardo Freitas (segundo da esquerda, a skipper Dee Cafari (quarta da esquerda) e Filipe Melo (segundo da direita)

Para os três, a Revista de Marinha deseja os maiores sucessos, votos que estendemos também às respetivas equipas, as quais continuaremos a acompanhar ao longo do seu périplo pelos Mares e Oceanos do planeta.

 

 

 

 

Licenciado em gestão, tem uma larga experiência no associativismo desportivo, é especialista no tema da Náutica de Recreio, tendo feito parte do Conselho Nacional da Náutica de Recreio e, no âmbito do Fórum Oceano, integrado o Grupo Dinamizador do Portugal Náutico. É autor da obra “Náutica de Recreio em Portugal – Um pilar do Desenvolvimento Local e da Economia do Mar” e de inúmeros artigos e noticias na Revista de Marinha e no Jornal da Economia do Mar. É membro da Confraria Marítima de Portugal. Como desportista náutico tem muitas milhas percorridas pela costa portuguesa e pelo Mediterrâneo em veleiros de cruzeiro, quer em lazer, quer em regata.