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ARA LIBERTAD esteve cinco dias em Lisboa

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De Buenos Aires a Lisboa

O grande veleiro (tall ship) Fragata ARA LIBERTAD atracou no cais da Rocha do Conde de Óbidos, na manhã do passado dia 2 de outubro, naquela que foi a sua quarta escala da viagem de instrução de 2019, a 48ª desde 1963.

Esta viagem iniciou-se em Buenos Aires, no dia 15 de agosto, numa cerimónia solene com a presença do Presidente da República, Sr. Mauricio Macri.

O navio-escola argentino a navegar a todo o pano (foto Armada Argentina)
O navio-escola argentino a navegar a todo o pano (foto Armada Argentina)

Me siento emocionado como argentino por estar en un navío con tanta historia, momentos antes de que ustedes vuelvan a partir para recorrer el mundo”, Mauricio Macri, Presidente da República Argentina

No dia 15 de Agosto, a Fragata LIBERTAD recebeu o Presidente da República Argentina (foto Armada Argentina)
No dia 15 de Agosto, a Fragata LIBERTAD recebeu o Presidente da República Argentina (foto Armada Argentina)
Os guardiamarinas saúdam uma personalidade em terra_ - Vivó! (fotografia Armada Argentina)
Os guardiamarinas saúdam o Presidente à largada de Buenos Aires  – Vivó! (fotografia Armada Argentina)

Desde então, já escalou os portos de Salvador da Baía, no Brasil, Santa Cruz de Tenerife, ilhas Canárias e Cádiz, em Espanha.

À chegada, foram cumprimentados pelo oficial de ligação da nossa Armada e recebidos pelo mais alto representante diplomático da Argentina em Portugal, o Sr. embaixador Oscar Moscariello, o Primeiro-secretário da Embaixada, Rudolfo Lucero e o Adido de Defesa, Comodoro Fabián Celotto.

Por seu turno, o comandante do navio, capitán-de-navío Juan Carlos Romay, visitou a Câmara Municipal de Lisboa, onde foi recebido pelo Assessor Diplomático do Presidente da Câmara, embaixador António Santana Carlos. Mais tarde, encontrou-se com o vice-chefe do Estado-Maior da Armada, vice-almirante Jorge Novo Palma, e o chefe de Relações Exteriores do Estado-Maior da Armada, capitão-de-mar-e-guerra Luís Nicholson Lavrador.

Pelas 10h00,  a imprensa foi recebida a bordo, numa conferência que permitiu dar aos jornalistas uma ideia da missão que trouxe o navio a Portugal.


Durante a conferência de imprensa a bordo, capitán-de-navío Juan Romay e o embaixador da República Argentina em Lisboa, Sr. Oscar Moscariello (foto do autor)

Durante o primeiro dia, no Mosteiro dos Jerónimos, os Guardiamarinas participaram numa cerimónia conjunta com os Cadetes da Escola Naval portuguesa, com deposição duma coroa de flores no túmulo de Vasco da Gama. Posteriormente, os futuros oficiais da Armada Argentina tiveram ainda oportunidade de visitar a Base Naval de Lisboa, onde se demoraram na fragata NRP CORTE REAL e na Escola Naval. Mais tarde, visitaram também o Museu de Marinha.

Os Guardiamarinas argentinos a bordo da Fragata NRP CORTE-REAL, na Base Naval de Lisboa. A Armada Argentina possui também navios com o conceito MEKO.
Guardiamarinas durante a visita à Escola Naval portuguesa, no Alfeite (foto Marinha Portuguesa)

Durante a permanência em Lisboa, o grande veleiro esteve aberto a visitas do público em geral, entre as 15h00 e as 20h00.

No dia 7 de outubro, sexta-feira, teve lugar a tradicional Receção a bordo, expoente máximo das atividades de representação neste tipo de viagens internacionais.

A bonita sanefa da prancha para embarque na Fragata (foto do autor)
A bonita sanefa da prancha para embarque na Fragata (foto do autor)

O navio

Deslocando 3.765 toneladas, um comprimento de 103,75 metros, uma boca 14,31 metros e um calado de 6,60 metros, a Fragata ARA LIBERTAD é um grande veleiro (tall ship), uma Galera de quatro mastros, a saber, de vante para ré, Gurupés, Traquete, Grande e Mezena, os últimos três com pano redondo. Os mastros são de aço e suportam 27 velas, com uma área vélica total de 2.650 metros.

O mastro grande da ARA LIBERTAD tem 53,22m de altura, ou seja, mais 10,7 m que o mastro do mesmo nome no NRP SAGRES.

Um pormenor interessante - a ponte é revistida a chapas de latão, metal amarelo que a torna muito mais bonita. (foto do autor)
Um pormenor interessante – a ponte é revestida a chapas de latão, metal amarelo que a torna muito mais bonita. (foto do autor)
O jaque da Armada Argentina, flutua na proa no navio. (foto do autor)
O jaque da Armada Argentina, flutua na proa no navio. (foto do autor)
Cabrestrantes e amarras no castelo de proa do ARA LIBERTAD
Cabrestrantes e amarras no castelo de proa do ARA LIBERTAD
No castelo, junto à amura de estibordo, registámos uma mesa de malaguetas com os cabos impecavelmente colhidos (foto do autor)
No castelo, junto à amura de estibordo, registámos uma mesa de malaguetas com os cabos impecavelmente colhidos (foto do autor)

Quase cento e cinquenta anos de história

A Marinha da Argentina possuí navios-escola para a formação dos futuros oficiais desde 1873. E quando, em 1938, a Fragata Presidente Sarmiento ficou impossibilitada de sair para o mar, a Armada Argentina manteve o navio dando instrução aos seus Guardiamarinas sin comisión (designação do posto equivalente a de Cadete na Marinha Portuguesa), missão que cumpriu até 1950, navegando apenas em vias fluviais e depois,  até 1961, com o navio fundeado. Foi nessa época que, perante a urgente necessidade de encontrar uma solução para substituir a Fragata ARA PRESIDENTE SARMIENTO, a comunidade naval argentina se uniu no propósito de construir no país, com planos nacionais e mão-de-obra argentina, um navio-escola que reeditaria os louros desse glorioso antepassado. Os primeiros rebites da quilha do novo navio-escola foram colocados no Estaleiro Naval do Rio Santiago, no dia 11 de dezembro de 1953.

Marinheiros subindo a s enxárcias da Fragata ARA LIBERTAD (foto Armada Argentina)
Marinheiros subindo a s enxárcias da Fragata ARA LIBERTAD (foto Armada Argentina)

O armamento

A bordo pudemos admirar quatro reparos montando canhões Hotchkiss de 47mm, mod. 1885. Estas armas, de conceção e fabrico francês, fizeram história no final do século XIX ao equiparem, a partir de 1890, os navios das marinhas de guerra francesa e britânica, onde tomaram a designação de QF 3-pounder Gun.

Como curiosidade, assinala-se que, por ocasião da primeira grande guerra, os arrastões requisitados para a Marinha Portuguesa, como o heróico NRP AUGUSTO CASTILHO, foram inicialmente armados com peças Hotchkiss de 47mm.

A partir de 1933, a sua tecnologia foi considerada obsoleta, em especial pela sua ineficácia contra as novas blindagens dos navios couraçados. Em França, viram ainda utilidade para reforço da linha Maginot, em especial, e ironicamente, para a luta anticarro.

Os Hotchkiss QF 3-pounder gun, sendo QF iniciais de Quick Firing, canhão de tiro rápido, são idênticos aos instalados em local equivalente no NRP SAGRES, navio-escola português. A sua utilidade atual resume-se a tiros de salva com pólvora seca, por ocasião de atos de cerimonial marítimo.

Os dois reparos de 47mm, montados na amura de estibordo (foto do autor)
Os dois reparos de 47mm, montados na amura de estibordo (foto do autor)
Os dois reparos Hotchkiss QF 3-pounder montados no NRP Augusto Castilho (Foto Museu de Marinha)
Os dois reparos Hotchkiss QF 3-pounder montados no NRP Augusto Castilho (Foto Museu de Marinha)

A Carranca

A LIBERTAD, tal como a maioria dos grandes veleiros, ostenta à proa, junto à raiz do mastro Gurupés, uma carranca (figura de proa) ou, em castelhano mascarón de proa, que representa a imagem da República Argentina e seu sentimento arraigado de liberdade. A mulher olha para o horizonte, guardando a proa que vai rasgando os mares do planeta.

A República Argentina, rasga as águas na proa da Fragata LIBERTAD (Foto gentileza de Histarmar)
A República Argentina, rasga as águas na proa da Fragata LIBERTAD (Foto gentileza de Histarmar)

O artista original foi um jovem escultor galego, Carlos García González, que chegou à Argentina em 1943, tinha 10 anos. A encomenda de 1963 pedia-lhe para esculpir em madeira uma figura esplêndida, clássica e atual. A magnífica imagem, inspirada na mulher do escultor, só foi colocada após a primeira viagem de instrução, em abril de 1964.

Em 2005, como parte da modernização de meia vida, a Carranca foi restaurada pelo escultor Andrés Villalba Ramírez.

 

Uma navegação de cinco meses em torno do oceano Atlântico

Depois de largar de Lisboa, no dia 7 de outubro, seguir-se-ão Brest, em França, Antuérpia, na Bélgica, Londres e Dublin, de onde partirá para uma travessia transatlântica, chegando a Boston, EUA, no dia 21 de novembro. Boston será o primeiro porto de escala na América do Norte, onde também aportará a Miami. Segue-se Bridgetown, em Barbados, nas Caraíbas, Recife e Rio de Janeiro no Brasil e por fim, último porto andes de regressar à pátria, Montevideu, no Uruguai. A chegada a Mar del Plata está prevista para o dia 25 de janeiro de 2020.

à chegada limpam-se os amarelos, neste caso o escudo nacional na popa. (foto do autor)
Logo à chegada a um novo porto de escala impam-se os “amarelos”, neste caso o escudo nacional na popa. (foto do autor)

A Revista de Marinha agradece o apoio da Embaixada da República Argentina através do seu assessor de imprensa, Dr. Pedro Latoeiro, e deseja uma navegação profícua, cheia de sucessos,  mares calmos e ventos de feição à Fragata ARA LIBERTAD.

 

João Gonçalves

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Tem o curso de Informação Pública da NATO. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada. É diretor adjunto da Revista de Marinha desde janeiro de 2018.

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