Desportos Náuticos

Arbitragem na Vela – entrevista com Armando Goulartt

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Qualquer desporto de competição para ser justo requer regras bem definidas e cumpridas, para que haja justiça desportiva e os participantes tenham prazer em competir.

A Vela é uma das modalidades de maior complexidade, exigindo experiência e “paixão” na arbitragem. Neste propósito a Revista de Marinha considerou entrevistar Armando Goulartt.

Currículo do Presidente do Conselho de Arbitragem da FPV

Armando Castro Goulartt Branco iniciou-se na vela nos Açores, terra natal de seus antepassados e veio com sete anos para Lisboa onde competiu nas classes Lusito, Cadete, Snipe, Sharpie, Finn, Europe, 420, Dragão e Cruzeiros.

Venceu inúmeras provas internacionais incluindo o Campeonato do Mediterrâneo e foi Presidente de cinco classes de vela e fundador da Escola de Vela da Associação Naval de Lisboa (ANL) e da Classe 420. Foi o único português que obteve todas as graduações internacionais da World Sailing (Juiz, Umpire e Oficial de Regatas) tendo sido o Delegado Técnico Internacional durante doze anos nas grandes provas disputadas no continente americano. Foi Diretor da Federação Iberoamericana de Vela e durante vinte anos membro de comités da World Sailing (Match Racing, Windsurfing Kiteboarding e Racing Rules). Escreveu na Sailing World, Nautic Press e Revista Náutica BRA e é autor de vários livros e manuais de vela.

Em regata navegando no Snipe 9294, barco vencedor do Campeonato do Mundo (D.R.)
Em regata navegando no Snipe 9294, barco vencedor do Campeonato do Mundo (D.R.)

Revista de marinha (RM) – Uma prolongada carreira competitiva de mérito com inúmeros títulos alcançados, qual o aliciante que o fez despertar para uma carreira de Árbitro?

Armando Goulartt (AG) – Competi a nível internacional em seis classes de vela, Snipe, Sharpie, Finn, Dragão, Europe e 420 e em estas duas últimas fui selecionado para representar Portugal em doze Mundiais e dezenas de outras provas internacionais, mas perdi alguns títulos por ter sido injustamente penalizado por arbitragens irregulares e incompetentes. Por motivo dessas ocorrências, a frustração e revolta que senti, foi um incitamento para me envolver na arbitragem com o objetivo de a melhorar, para que os futuros velejadores não fossem vítimas do que me acontecera.

Vencedor do Campeonato do Mediterrâneo em 420 (D.R.)
Vencedor do Campeonato do Mediterrâneo em 420 (D.R.)

RM – O que tem feito como Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Vela para melhorar a arbitragem em Portugal?

AG – Estive envolvido em duas fases distintas. A primeira teve início em 1992 quando se iniciou a arbitragem organizada da Vela. Começámos da estaca zero e criámos regulamentação apropriada, formação a todos os níveis, etc.

Fui eleito novamente em 1996 e 2000, e quando me demiti em 2003 tínhamos preparado 112 juízes, 129 oficiais de regata, 70 balizadores, 7 juízes internacionais, 3 oficiais de regata internacionais e 1 umpire internacional.

A segunda fase, passados treze anos, com a nossa eleição em finais de 2016, foi como começar de novo, dado o estado em que se encontrava a arbitragem e bem revelador era o facto de nos últimos oito anos ter havido cinco Conselhos de Arbitragem.  Mas temos enfrentado um desafio altamente promissor e com o valioso empenho dos meus colegas Francisco Mourão e João Corrêa, dois velejadores da primeira linha, respetivamente ex-olímpico e vencedor de 12 Campeonatos de Portugal e o histórico e excelente Presidente da classe Laser, temos dado o nosso melhor atuando diariamente pró-bono em todos os setores da arbitragem, tais como:

  • Pela primeira vez formamos e reciclamos por ano uma média de 135 árbitros (Juízes + Oficiais + Medidores + Balizadores) e, além da parte teórica, passou a ter também uma componente prática;
  • Nomeámos 102 árbitros para 197 provas;
  • Divulgámos informação com completa e integral transparência, tendo publicado até hoje 78 boletins informativos além de responder a 12.207 emails e somos o único Órgão da federação que publicou todas as atas das reuniões;
  • Elaborámos Anúncios e Instruções de Regata Padrão, com aprovação de 394 e 130 alterações em 197 provas e fizemos a revisão dos livros de Regras de Regata de 2017/2020 e de 2021/2024, assim como do Regulamento ORC;
  • Atualizámos o Regulamento de Arbitragem e elaboramos o Plano de Formação, Regulamento de Pagamentos, Guias para Comissões de Protestos e para Conflitos de Interesse;
  • Pela primeira vez decidimos Apelações em menos de 30 dias, quando o habitual era levarem meses ou ficarem por resolver como aconteceu nos anos que nos antecederam;
  • Pela primeira vez temos um grupo de árbitros do sexo feminino bem qualificadas e competentes e nomeamos para provas no Algarve todas as comissões com árbitros da região.
Como director do Curso de Vela no Algarve (Faculdade de Ciências) (D.R.)
Como director do Curso de Vela no Algarve (Faculdade de Ciências) (D.R.)

RM – E quais têm sido os maiores obstáculos?

AG – Temos feito um longo caminho, mas ainda há muito a fazer; os obstáculos são os resquícios do passado em que alguns árbitros atuavam em roda livre e pouco controlo.  Esses saudosos dos “bons tempos”, são muito poucos em número, mas muito ativos no boato, no “diz que disse”, na desinformação e em opiniões não alicerçadas em factos e realidades.

RM – Porquê a contestação desses “saudosos”?

AG – A partir de 2007 os árbitros, além de receberem as despesas de deslocação no seu automóvel, alimentação e alojamento, passaram a receber honorários por cada dia de prova e este pagamento passou a ser o mais bem pago de todas as modalidades amadoras. Esses honorários permitiram que tivessem uma atividade “profissional” única ou complementar duma reforma e o objetivo dos contestatários é não haver mais árbitros em funções para que lhes caibam mais provas e consequentemente mais proveitos. Desagrada-lhes também termos estabelecido critérios na procura de dar a todos a oportunidade de igualdade de arbitrar, privilegiando a prioridade aos árbitros da região onde se efetua a prova, criámos também normas quanto a Conflitos de Interesse e um melhor rigor em todas as despesas de arbitragem.

Formando Juízes de Regata nos Açores Ponta Delgada (D.R.)
Formando Juízes de Regata nos Açores Ponta Delgada (D.R.)

RM – Falando da profissionalização da arbitragem da vela, quais as vantagens e inconvenientes para a modalidade?

AG – Essa “profissionalização” traz inconvenientes para o desenvolvimento da vela. É benéfica apenas para alguns, mas ao contrário de se selecionarem os de maior qualidade estaríamos a selecionar os que não conseguem emprego em outra atividade, o que, via de regra, só muito por acaso seriam os melhores. Reduzia o universo dos árbitros a um pequeno grupo fechado sobre si mesmo, com todos os inconvenientes que daí advêm. Teria consequências negativas na qualidade, porque ciclicamente a restringe a um agregado reduzido com interesses particulares, dificultando a sua renovação quando a qualidade dos árbitros é tão importante para a modalidade.

RM – Tendo um profundo conhecimento da Arbitragem mundial e nacional em todas as vertentes ao longo dos muitos anos, como Presidente do Conselho de Arbitragem, o que implementaria?

AG – A vela e a sua federação são ao fim e ao cabo um espelho da nossa sociedade. Temos boas leis e regulamentos, mas o problema está na sua aplicação. Temos tido como objetivos a formação contínua e alargar as nomeações para, de forma progressiva, desenvolver as capacidades de todos aqueles que se mostrem dispostos a abraçar a arbitragem. É essencial para a evolução da vela não limitar as nomeações a um número restrito de “eleitos”.

Navegando na Holanda (D.R.)
Navegando na Holanda (D.R.)

RM – Por que razão se tem vindo a reduzir o número de praticantes de vela?

AG – Sempre lutei para que a vela fosse um desporto acessível a todos, mas as diretrizes vigentes levam-na à exclusividade. Só se obtém melhores resultados quando a qualidade advém de uma maior quantidade. É o mesmo com a arbitragem, só se obtém melhores árbitros formando maior número para selecionar a qualidade.

RM – O que implementaria no desporto Vela para esta ter um maior número de praticantes?

AG – A vela é um desporto que pode ser praticado dos 8 aos 80 anos. É pena que uns poucos a possam usar para proveito pessoal em detrimento da vela para todos. O Estado nas últimas décadas já entregou à federação muitas dezenas de milhões de euros e nos últimos 60 anos esta apenas obteve uma medalha de bronze nos JO. Em todo o território os clubes, como células base do desporto, deveriam ser apoiados e não apenas os favorecidos. Enquanto não se mudar de paradigma, tudo continuará na mesma. Mas tudo isso são “outros quinhentos” que mereciam uma reflexão profunda na qual estarei disponível para colaborar.

 

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