Marinha de Comércio

O ATLÂNTIDA, patinho feio dos Açores, brilha agora como SPITSBERGEN

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Os navios ATLÂNTIDA (nº de estaleiro 258) e ANTICICLONE, encomendados pelo Governo Regional dos Açores e pela firma Atlânticoline, empresa regional criada para explorar a navegação entre as ilhas do arquipélago, viram-se envoltos numa novela que se desenrolou durante vários anos.

A assinatura do respectivo contrato de construção ocorreu em Setembro de 2006. O ATLÂNTIDA teve o assentamento da quilha em 14 de Novembro de 2007 e foi lançado à água em 5 de Março de 2008.

O ATLÂNTIDA durante a sua construção em abril de 2008, pouco depois de ser lançado à água , nos Estaleiros de Viana do Castelo (imagem Luís Miguel Correia)
O ATLÂNTIDA durante a sua construção em abril de 2008, pouco depois de ser lançado à água , nos Estaleiros de Viana do Castelo (imagem Luís Miguel Correia)

Segundo o jornal Público de 9 de Fevereiro de 2014, … quando os ENVC (Estaleiros Navais de Viana do Castelo) vencem o concurso público, por sugestão do armador recorrem à Petrovalt (gabinete projectista russo) para a elaboração do projecto. Esta decisão prendeu-se com o facto deste gabinete já ter elaborado o esboço do navio ATLÂNTIDA, procurando-se assim evitar atrasos na entrega, que estava prevista para Setembro de 2008, ou seja, antes das eleições legislativas regionais.

Da referida novela registem-se as várias alterações que a pedido do armador foram introduzidas no ATLÂNTIDA, que incluíram aumentar o seu comprimento em cerca de 12 m e aumentar o número de camarotes, passando a ter vinte suites em vez das sete inicialmente previstas, assim como mais sete camarotes quádruplos e outros espaços públicos. Houve, ainda, alterações nos decks de transporte de viaturas, a pedido do armador, pois no projecto inicial o navio tinha capacidade para 12 minibus, número que caiu para 8 a fim de se aumentar o número de viaturas ligeiras, que passou de 120 para 127. A Atlânticoline pediu igualmente a substituição do impulsor de proa previsto, de 800 Kwh, por dois de 600 Kwh, o que contribuiu, mais uma vez, para o aumento da tonelagem do navio. Segundo o mesmo jornal, que acompanhou a construção do navio, os problemas com a construção dos ferries surgiram desde o início, visto haver incongruências nos valores obtidos aquando da realização dos testes de tanque. Porém, quando os ENVC requereram a repetição dos testes ao gabinete russo que os realizou, foram informados de que o modelo tinha sido destruído, contrariando a prática comum de o conservar durante cinco anos.

Um nome de triste memória (imagem Luís Miguel Correia)
Um nome de triste memória (imagem Luís Miguel Correia)

Acrescente-se que a falta de estabilidade do ATLÂNTIDA, navio com seis pisos e com capacidade para 750 passageiros, talvez motivada pelas alterações introduzidas, curiosamente a pedido do armador, levou a que os ENVC tivessem de proceder a alterações estruturais para corrigir o seu centro de gravidade, introduzindo 130 tons de lastro sólido. Todas estas modificações resultaram numa alteração do deslocamento e da estabilidade do navio, como se veio a constatar na fase de flutuação. Como também não poderia deixar de acontecer, a própria velocidade viria a ressentir-se, verificando-se uma diferença de perto de 2 nós a menos do que havia sido contratado e em relação à velocidade calculada nos ensaios do instituto russo na fase de testes em tanque, que apontava para 21 nós. Aqui vislumbramos a razão da recusa da recepção do ATLÂNTIDA, mesmo tendo em atenção que as alterações introduzidas no navio não foram da responsabilidade do estaleiro, e da rescisão do contrato da construção do seu gémeo ANTICICLONE, que se ficou pelos módulos que permaneceram a ganhar ferrugem nos armazéns do estaleiro. Deve ainda referir-se que, de acordo com o que se leu nos órgãos de comunicação social insertos na internet, o custo do ATLÂNTIDA pronto para entrega, mas recusado pela Atlânticoline, somado ao valor dos módulos do ANTICICLONE que ficaram à espera de ser colocados na doca de construção e à indemnização de 40 M€ exigida ao estaleiro, teriam contribuído decisivamente para o colapso desta empresa.

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O navio, na doca seca de Viana do Castelo, no dia 2 de outubro de 2014, depois de ter sido adquirido pela Douro Azul. (imagem Luís Miguel Correia)

Este patinho feio, que no fundo era um navio de luxo, ficou amarrado durante cinco anos num dos cais do estaleiro, após os quais foi levado para o Alfeite, prazos em que decorreu o litígio entre os ENVC e a Atlânticoline e em que o ATLÂNTIDA foi colocado à venda. O navio, cujo valor inicial estava estimado em 40 M€, viria a ser adquirido pela Douro Azul por 8,7 M a 16 de Setembro de 2014 para ser utilizado como navio de cruzeiros no Amazonas. No entanto, contrariamente ao previsto, viria a ser vendido por 17 M à companhia norueguesa Hurtigruten. E que bonito e irreconhecível ficou este patinho feio açoriano com as cores da sua nova proprietária, que o classificou como a “estrela da frota”!

Em 2015 passou a ostentar o nome provisório de NORWAY EXPLORER. Após um concurso público para escolher um nome definitivo, passou a ser o M/S SPITSBERGEN a partir de 4 de Setembro, sendo esta a denominação da maior ilha do arquipélago norueguês Svalbard. Foi submetido a uma grande remodelação, entre 2015 e 2016, no estaleiro Fosen Yard em Rissa, ocasião em que foi anulada a porta de entrada para os decks de viaturas que foram por sua vez reconvertidos em cabines. Todas as acomodações foram reconfiguradas para o standard da Hurtigruten e o navio foi adaptado para navegar em águas polares. A popa também ganhou um acrescento em bico de pato para melhorar a estabilidade.

O navio atracado em Svolvaer, no dia do seu batismo (imagem Tor Farstad via Cruise Industry News)
O navio atracado em Svolvaer, no dia do seu batismo (imagem Tor Farstad via Cruise Industry News)

Após uma bem-sucedida viagem de teste, realizou a sua viagem inaugural a 21 de Junho de 2016, partindo de Bergen. A 7 de Setembro, passou a fazer parte do tráfego regular do “expresso costeiro”, de Setembro a Maio, com viagens de ida e volta entre Bergen, Trondheim, Kirkenes, Svolvaer e Tromso. Nos restantes meses faz viagens de expedição para o Cabo Norte e regiões polares entre outros destinos aliciantes que dão a conhecer os fiordes noruegueses e a possibilidade de assistir às auroras boreais. O SPITSBERGEN tem a sua própria equipa de expedição a bordo e serve como uma Universidade no mar, proporcionando diversas palestras, colóquios e outras actividades educativas para dar a conhecer os aspectos culturais e ambientais da Noruega.

O navio tem à disposição dos passageiros vários bares, um salão panorâmico, dois restaurantes, lojas, sauna e sala de fitness, lavandaria, etc.

O seu baptismo ocorreu em Svolvær, tendo tido como madrinha Cecilie Skog, uma famosa exploradora norueguesa que ficou conhecida por subir, em 2004, ao Monte Evereste  e, em 2008, ao K2, também conhecido por monte Godwin-Austen.

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A madrinha Cecilie Skog junto com o comandante do navio, administradores da empresa e autoridades de Svernae. (imagem Sander Lied Edvardsen, via Cruise Industry News)

O M/S SPITSBERGEN tem 100,54 m de comprimento, 18 m de boca e um calado de 5,2 m. Atinge uma velocidade máxima de 16 nós e a sua tonelagem é de 7.025 GT. O seu indicativo de chamada a partir de 2016 é LEIF, número IMO 9434060 e o nº MMSI é 258157000.

Tem capacidade para 335 passageiros distribuídos por 102 cabines, incluindo 8 suites com varanda. A tripulação é de cerca de 50 elementos.

Referências:

Jornal Público – “Atlântida foi projectado para ter sete suites, acabou por ter 20 e mais sete camarotes quádruplos”, 9 de Fevereiro de 2014

https://olharvianadocastelo.blogspot.com/2015/07/navio-atlantida-muda-de-nome-e-ruma.html – Navio Atlântida muda de nome e ruma à Noruega – 3 de Julho de 2015

Wikipedia – https://de.wikipedia.org/wiki/Spitsbergen_(Schiff)

https://global.hurtigruten.com/ships/ms-spitsbergen/

https://ionline.sapo.pt/artigo/499937/atl-ntida-navio-recusado-pelos-acores-navega-como-cruzeiro-noruegu-s-a-partir-de-maio?seccao=Portugal – “Atlântida. Navio recusado pelos Açores navega como cruzeiro norueguês a partir de maio” – Mariana Madrinha– 08/03/2016

http://www.radiogeice.com/fm/2016/02/29/a-nova-estrela-do-turismo-noruegues-conhece-este-navio/ – A nova estrela do turismo norueguês: Reconhece este navio? – 29 de Fevereiro de 2016

https://www.nordlys.no/se-bildene-fra-dapen-av-hurtigrutens-nyeste-skip/s/5-34-447856

Fernando Paiva Leal

Arquitecto, nascido e residente em Paredes, distrito do Porto. É membro do Grupo de Arqueologia Naval do Noroeste e da Confraria Marítima de Portugal. Por opção não respeita o acordo ortográfico.

1 Comentário

  1. Manuel de Oliveira Martins Responder

    Parabéns Arq. Paiva Leal. Belo documentário sobre um navio que podia ter contribuído para o desenvolvimento dos Açores não fossem os interesses e politiquices caseiras, incompreensíveis num país tão carenciado. Os navios que substituíram o Atlântida não foram melhores em aspeto algum.
    Um abraço do
    M. O. Martins

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