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Adelino Rodrigues da Costa

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Na dura guerra que, entre 1963 e 1974, as Forças Armadas portuguesas travaram na Guiné contra as forças do PAIGC, as unidades navais portuguesas tiveram sempre um domínio absoluto sobre as inúmeras vias fluviais que percorrem aquele território e, nessa actividade operacional, destacaram-se especialmente as Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG).

 Ao longo dos séculos, os rios da Guiné foram importantes vias de penetração para o interior e, em finais do século XVI, já André Álvares de Almada,

natural da ilha de Santiago de Cabo Verde, prático e versado nas ditas partes,

informava que

tratei em muitos rios, metendo-me por eles muitas léguas.[1]

Os Rios da Guiné (imagem OSM Open Street Map)
Os Rios da Guiné (imagem OSM Open Street Map)

Os rios são, de facto, uma referência constante nos relatos que se conhecem da evolução histórica e económica da Guiné, tanto como vias de penetração para o interior, como portas de saída para o mar. Porém, a partir de 1963, com o início da guerra de libertação desencadeada pelo PAIGC contra o domínio colonial português, a sua importância aumentou exponencialmente, porque os rios se tornaram a alternativa a uma rede viária demasiado precária, muito vulnerável ao efeito das chuvas e cada vez mais sujeita às minas e às emboscadas da guerrilha. A importância das vias fluviais intensificou-se quando a guerra se estendeu a quase todo o território guineense, em consequência dos apoios políticos e militares que o PAIGC recebia e com o crescente envolvimento directo da chamada “ajuda internacionalista cubana”.

Os rios da Guiné ou a rede hidrográfica guineense, constituída por diversos rios navegáveis ou braços de mar que penetram pelo território e servem algumas povoações do interior, permitiam a satisfação das principais necessidades logísticas das autoridades civis e militares portuguesas. No início do conflito, cerca de 80% de toda a carga ou pessoal movimentados na Guiné utilizava a via marítima ou fluvial e só cerca de 18% seguia por estrada[2], mas depois intensificaram-se as ligações marítimas e fluviais entre Bissau e a generalidade das povoações do interior onde se localizavam aquartelamentos militares.

A LFG (Lancha de Fiscalização Grande) SAGITÁRIO fundeada no rio Cacheu (imagem Adelino Rodrigues da Costa)
A LFG (Lancha de Fiscalização Grande) SAGITÁRIO fundeada no rio Cacheu (imagem Adelino Rodrigues da Costa)

A utilização dos rios era, portanto, um factor operacional decisivo na Guiné durante a guerra. Os rios permitiam assegurar a logística militar e civil da parte portuguesa, mas também eram importantes para o PAIGC, não só para isolar as posições portuguesas, mas também porque o seu uso ou a sua travessia lhe permitia a ligação entre as suas diferentes áreas operacionais e, também, entre as suas bases no exterior e no interior do território.

Daí que a missão de fiscalização das vias fluviais tivesse sido sempre muito importante para as unidades navais portuguesas para impedir a sua utilização pelas colunas do PAIGC que, da mesma forma, também sempre lhes procurou contrariar a sua missão.

Os rios da Guiné foram, por isso, um dos principais campos de confronto entre as forças portuguesas e as forças do PAIGC e nele participaram muitas unidades navais.

Vista aérea da foz do rio Cacheu (imagem de gbissau.org)
Vista aérea da foz do rio Cacheu (imagem de gbissau.org)

É habitual referenciar-se que a guerra da Guiné teve início no dia 23 de Janeiro de 1963 quando o PAIGC atacou o aquartelamento militar português de Tite e que durou até ao dia 25 de Agosto de 1974, data em que o governo português e o PAIGC assinaram o acordo de Argel, o que significa que a guerra da Guiné durou onze anos, sete meses e dois dias!

As circunstâncias políticas que conduziram àquele conflito, bem como a sua evolução operacional, têm sido objecto de muitas apreciações que mostram como foi duríssimo e envolveu grandes operações militares, a utilização de modernas armas de guerra e diversas tentativas de assalto e ocupação de aquartelamentos militares. As crónicas referem a morte de quase três mil militares portugueses e alguns milhares de homens afectados psiquicamente, a captura de soldados portugueses pelo PAIGC, a activa participação de milicianos cubanos nos combates, a utilização de modernos mísseis terra-ar, o abate de aeronaves, o bombardeamento da capital e outras localidades com foguetões de 122 mm e outras situações de grande intensidade bélica.

Apesar de todas essas contingências, as unidades da Marinha – desde as Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG) até às pequenas Lanchas de Desembarque Médias (LDM), mas também todas as outras unidades em missão na Guiné, como as Lanchas de Desembarque Grandes (LDG) e as Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP) – transitaram sempre pelos rios e asseguraram o cumprimento das missões que lhes foram atribuídas[3]. Os ataques dos guerrilheiros do PAIGC aconteciam, nomeadamente no rio Cacheu, embora as reacções das Boffors de 40 mm e das Oerlikon de 20 mm fossem quase sempre disssuasoras e, possivelmente, terão desmobilizado muitas vezes os grupos atacantes.

A lancha NRP SAGITÁRIO, atracada em Ganturé com duas LDM de braço dado (imagem Adelino Rodrigues da Costa)
A lancha NRP SAGITÁRIO, atracada em Ganturé com duas LDM de braço dado (imagem Adelino Rodrigues da Costa)

Os principais rios da região norte da Guiné são o rio Cacheu que corre ao longo da fronteira norte com o Senegal, o rio Mansoa que circunda a chamada ilha de Bissau e o rio Geba em cuja margem direita se situa a cidade e o porto de Bissau. Depois, na zona sul do território, encontram-se o rio Grande de Buba e alguns dos seus afluentes, o rio Tombali, o rio Cumbidjã e o rio Cacine, todos navegáveis em maior ou menor extensão.

Nos anos da guerra a navegação nos rios da Guiné era um exercício sui generis, pois não se enquadrava na tipologia da navegação costeira, mas também não tinha as características próprias da navegação em águas restritas.

A cobertura cartográfica era quase completa e inspirava confiança, embora as cartas náuticas resultantes de levantamentos mais antigos já revelassem alguma desactualização a requerer cuidados adicionais por parte dos seus utilizadores. Eram quase sabidas de cor, mas em casos especiais, cada navegante fazia o seu próprio esboço cartográfico para auxiliar a navegação, depois de estudar as fotografias aéreas e de escolher os melhores resguardos. Navegava-se com a sonda em cima e “com a Tabela de Marés na mão”, não só para permitir que se passasse em áreas de fundos mais escassos, mas também para aproveitar ou evitar as correntes de maré favoráveis ou desfavoráveis, porque qualquer percurso fluvial podia demorar muito menos, ou muito mais tempo, do que a normal ponderação da velocidade e da distância a percorrer.

O NRP SAGITARIO a navegar à noite no rio Cacheu (imagem Adelino Rodrigues da Costa)
O NRP SAGITARIO a navegar à noite no rio Cacheu (imagem Adelino Rodrigues da Costa)

De noite navegava-se em ocultação de luzes, mas a ajuda do radar permitia que as LFG, as LDG e as LFP navegassem 24 horas por dia se necessário fosse. Porém, as pequenas LDM que eram utilizadas em missões operacionais e em missões logísticas, estavam muito mais limitadas, não só pelo desconforto das suas guarnições, mas também por não possuírem radar nem girobússola, o que dificultava ou impossibilitava a sua navegação nocturna.

A juntar a estas dificuldades náuticas havia ainda o risco de emboscadas montadas nas margens ou nas curvas mais apertadas dos rios, que aconteceram de dia, mas também de noite, para além da ameaça de minas aquáticas. No entanto, no rio Cacheu ou no rio Cacine, no Cumbidjã ou no Geba, no Fulacunda ou no Tombali, no Buba ou no Mansoa, as unidades navais navegaram por todos esses rios sempre que foi necessário. Poucas não terão sido atacadas e atingidas, sobretudo no rio Cacheu e em especial nas clareiras do Tancroal e de Jagali, no Sambuiá e no Iador, mas sem quaisquer consequências demasiado graves.

A SAGITÁRIO no dia Natal de 1971 , regressando a Ganturé depois de uma missão no rio Cacheu. (imagem Adelino Rodrigues da Costa)
A SAGITÁRIO no dia Natal de 1971 , regressando a Ganturé depois de uma missão no rio Cacheu. (imagem Adelino Rodrigues da Costa)

A Guiné “foi o mais difícil e complicado teatro de operações dos portugueses em África”[4], escreveu o Professor António Telo. Foi uma guerra muito intensa, feita essencialmente por tropas especiais, por Allouettes e Fiat, por Zebros e Berliet, mas também pelas unidades navais, designadamente as Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), que constituíram a classe ARGOS, que eram navios proporcionados, elegantes e que dispunham de uma guarnição base de 24 homens.

As LFG foram construídas em Viana do Castelo (4) e no Arsenal do Alfeite (6) e, dessas dez unidades de que a Marinha dispôs, sete estiveram na Guiné – Argos, Cassiopeia, Dragão, Hidra, Lira, Orion e Sagitário.[5]

As dez lanchas da classe ARGOS, foram construídas em Viana do Castelo e no Alfeite, entre 1963 e 1965 (imagem Arlindo Rodrigues da Costa)
As dez lanchas da classe ARGOS, foram construídas em Viana do Castelo e no Alfeite, entre 1963 e 1965 (quadro de Adelino Rodrigues da Costa)

Navegaram por todos os rios da Guiné e, por vezes, bem próximo das suas margens, mas também participaram em outros tipos de operações.

Nos rios, o seu comandante passava grande parte do tempo na ponte do navio, avaliando o cenário operacional e coordenando a navegação, a artilharia e as comunicações, enquanto o oficial imediato, quase sempre um oficial da Reserva Naval, assegurava o normal funcionamento das actividades de bordo. Navegava-se por bordadas, muitas vezes em postos de combate e, de noite, em rigorosa ocultação de luzes. Os telegrafistas estavam sempre prontos a pedir apoio aéreo em poucos segundos e os apontadores e os municiadores da artilharia ocupavam os seus postos para reacção imediata a qualquer ataque.

A guarnição era uma comunidade que passava muito tempo a bordo, em que os mais velhos enquadravam os mais novos, com um forte sentido de hierarquia e num quadro de permanente aprendizagem. Cada missão era explicada em reunião na coberta: para onde se ia, por quanto tempo, com que objectivo e que dificuldades eram esperadas. A alimentação era excelente porque os navios tinham um cozinheiro profissional e a padaria abastecia as unidades navais que não produziam pão.

A guarnição posou para fotografia no dia de Natal de 1971 (imagem Adelino Rodrigues da Costa)
A guarnição posou para fotografia no dia de Natal de 1971 (imagem Adelino Rodrigues da Costa)

Porém, as missões no rio Cacheu que corre ao longo de cerca de 150 quilómetros a pouca distância da República do Senegal, serão as marcas mais intensas daqueles que navegaram nos rios da Guiné entre 1963 e 1974.

Na sua margem direita situava-se a Base de Fuzileiros de Ganturé, que dispunha de uma pequena ponte-cais onde as unidades navais atracavam e onde, em estreita cooperação com as unidades de fuzileiros, eram preparadas as acções operacionais conjuntas em função das informações que eram recebidas a bordo.

As missões no rio Cacheu visavam assegurar o trânsito em segurança da navegação e impedir que fosse utilizado pelo PAIGC. As cambanças, ou travessias do rio, aconteciam em locais previsíveis, próximo da preia-mar e, sobretudo, de noite, porque durante o dia podiam ser mais facilmente detectadas pelas patrulhas dos fuzileiros ou por qualquer meio aéreo. Para neutralizar a possibilidade de as colunas do PAIGC fazerem as cambanças, as unidades navais navegavam de dia ou de noite. Porém, o PAIGC conhecia o seu procedimento habitual e ouvia os seus motores quando estas se aproximavam, o que lhe permitia aguardar por um momento mais favorável para atravessar o rio, embora por vezes se confrontasse com botes de fuzileiros silenciosos e a deslocar-se ao sabor da corrente.

Os motores do barco enchiam completamente o ambiente de escuta e expectativa, quando os camaradas alertaram a nossa atenção: emergia da mata compacta do tarrafe, como o periscópio de um submarino, o mastro do barco cuja presença, até ali invisível, interrompera a cerimónia de recepção aos oficiais da OUA, na tabanca de Djagali.[6]

Combatentes cambando um rio, de canoa Guiné (imagem do blog Luís Graça e camaradas da Guiné)
Combatentes do PAIGC cambando um rio, de canoa  (imagem do blog Luís Graça e camaradas da Guiné)

As referências às cambanças do rio Cacheu são frequentes na documentação do PAIGC, que inclui vários relatos de ataques dirigidos contra as unidades navais, alegadamente com sucesso e até com afundamentos, no âmbito da sua propaganda[7]. No entanto, qualquer balanço que possa ser feito relativamente a esses combates fluviais é sempre favorável às unidades navais portuguesas que, pela sua prontidão e eficiente poder de fogo, certamente dissuadiam muitos dos potenciais atacantes. A esse facto se referiu Amílcar Cabral:

Ouve-se o motor [de um barco] no rio e não se utiliza a bazuca que se possui, de forma que os barcos portugueses vão passando incólumes. Deixem-me repetir-lhes isto: podemos fazer mais. Temos de expulsar os Portugueses. E digo-vos claramente que não é tolerável que os seus barcos passem à vontade pelos nossos rios.[8]

Nesta reprimenda de Amílcar Cabral aos seus homens é reconhecido que as unidades navais portuguesas passavam incólumes e à vontade nos rios da Guiné e, de facto, assim aconteceu desde 1963 até 1974.

Estima-se que, durante os seus anos de actividade operacional, tenham embarcado nas LFG da classe Argos cerca de 1500 homens, incluindo uma centena e meia de oficiais do Quadro Permanente e da Reserva Naval e cerca de duas centenas de sargentos.

Este texto é dedicado a todos eles.

 

[1] Luís Silveira (ed.), Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo-Verde […] feito pelo Capitão André Álvares d’Almada, Ano de 1594, Lisboa, Edição patrocinada pelo Governo da Guiné, 1946, p. 5.

[2] António José Telo (coord.), História da Marinha Portuguesa – Homens, Doutrinas e Organização, 1824-1974 (Tomo I), Lisboa, Academia de Marinha, 1999, p. 575

[3] A. Rebelo Duarte e J. Pires Neves, Portugal e a Guerra de África – A Marinha com as “Argos” nas águas da Guiné, Lisboa, Comissão Cultural da Marinha, 2018.

[4] António José Telo (coord.), op. cit., p. 593

[5] Adelino Rodrigues da Costa, Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Lisboa, Comissão Cultural da Marinha, 2006.

[6] Luís Cabral, Crónica da Libertação, Lisboa, Edições “O Jornal”, 1984, p. 293.

[7] Jornal mensal Libertação – Unidade e Luta, orgão mensal do PAIGC, Lisboa, Fundação Mário Soares, Arquivo Amílcar Cabral.

[8] Amílcar Cabral, citado em Basil Davidson, A libertação da Guiné – Aspectos de uma Revolução Africana, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1975, p. 138.