Autor

Pedro Santos Serafim

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contributo para que a sociedade civil tenha uma melhor perceção sobre a vivência a bordo de um navio da Marinha Portuguesa

Ao longo dos últimos anos, nas conversas que mantenho com o meu círculo de amigos, deparo-me constantemente com o desconhecimento sobre como é a vida bordo de uma unidade naval. Por isso, como ex-Comandante do N.R.P.  BAPTISTA DE ANDRADE, decidi dar o meu contributo através deste artigo para que a sociedade civil tenha uma melhor perceção sobre a vivência a bordo de um navio da Marinha Portuguesa.

Navio, Missões e Tarefas

A corveta BAPTISTA DE ANDRADE foi construída nos estaleiros Bazan, em Cartagena, Espanha, em 1974. Serve Portugal há mais de 40 anos. A guarnição é composta por 71 elementos: 7 oficiais, 14 sargentos e 50 praças, quer masculinos, quer femininos.

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foto de grupo da guarnição do NRP BAPTISTA DE ANDRADE

Das várias missões que lhe são atribuídas, destacam-se a fiscalização dos espaços marítimos sob jurisdição nacional e a salvaguarda da vida humana no mar.

Para cumprir estas missões o navio desenvolve várias tarefas:

– Patrulha das águas sob soberania e jurisdição nacional;

– Prevenção e combate à poluição no mar;

– Fiscalização e apoio das atividades científicas, económicas e culturais;

– Busca e Salvamento;

– Assistência à população civil;

– Apoio ao treino operacional.

Em termos de atividades, o navio tem uma atuação militar e não militar. Na atuação militar, participa em operações no âmbito da NATO, EU, UN e EUROMARFOR para garantir a segurança internacional. A nível nacional, faz parte da Força Conjunta de Reação Imediata para proteção da nossa diáspora (há mais de 5 milhões de portugueses espalhados pelo mundo). Na atuação não militar executa periodicamente missões de fiscalização e proteção dos nossos recursos marítimos, busca e salvamento, patrulha costeira e oceânica, proteção ambiental e luta contra o narcotráfico e imigração ilegal.

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a bordo da CORDADE, marinheiros executando manobra de embarcação

No mar…

O navio navega normalmente a bordadas (o equivalente a turnos), com a duração de seis horas, estando a guarnição dividida em duas bordadas. Há sempre gente em serviço nos seguintes locais: na ponte, de onde se comanda o navio e se faz a condução da navegação, na central de máquinas, onde se conduz a instalação propulsora, na casa dos geradores auxiliares, onde se controla o sistema de produção de energia, no centro de comunicações, onde se recebe e envia o tráfego de mensagens e de comunicações e na central de limitação de avarias, onde se monitorizam os vários sensores e alarmes de incêndio e alagamento dos vários compartimentos do navio.

A guarnição, consoante a sua especialidade, encontra-se distribuída pelas várias áreas funcionais do navio, Operações (Comunicações, Artilheiros e Radaristas), Equipas Técnicas (Eletromecânicos e Técnicos de Armamento), Alimentação e Logística (Cozinheiros, Taifas / Copeiros e Logísticos), Serviços Gerais (Manobras e Serviços) e Saúde (Enfermeiro).

Sempre que o navio sai para o mar, além da guarnição, embarca uma equipa de mergulhadores (para as ações de busca e salvamento), uma equipa de fuzileiros (para Force Protection e boardings) e um médico naval nas missões realizadas na Zona Marítima dos Açores.

O navio tem uma equipa de três cozinheiros (militares, formados na Marinha), que diariamente confecionam as refeições para todos os elementos embarcados, com a particularidade de durante a noite a cozinha funcionar como padaria. A alimentação a bordo é normalmente boa, tendo os cozinheiros da Marinha a fama de serem profissionais muito competentes.

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A bordo da CORDADE, alguns elementos da guarnição num exercício de limitação de avarias. Neste caso um combate a incêndio simulado.

Além do cumprimento das suas tarefas específicas, no mar é dada grande importância ao treino para a proficiência da guarnição na resposta a diversas situações de emergência. Assim sendo, realizam-se diariamente vários exercícios de combate a incêndios, combate a alagamentos, simulação de “homem ao mar” e sua recolha e de avaria no leme.

Em certas situações, como por exemplo, colocar a semirrígida na água, fundear, reboque, reabastecimento, ou na aproximação dos portos, são estabelecidas condições especiais, nas quais participam elementos específicos da guarnição para além do pessoal de quarto. Nas fainas de largada e atracação, por exemplo, é estabelecida uma condição geral; todos os elementos da guarnição têm um posto onde devem estar e uma tarefa específica a cumprir.

Nos tempos livres, os militares encontram-se a descansar, ou então a conviver nas suas câmaras (locais onde tomam as refeições), ouvem música e assistem a filmes. Quando me encontrava na corveta BAPTISTA DE ANDRADE, a guarnição seguia com grande interesse a série Game of Thrones.

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Militares da guarnição da CORDADE, em postos de Reabastecimento no Mar (RAS)

Em terra…

Quando em missão, fora da Base Naval, além de um grupo de serviço que gere as atividades diárias do navio, existem locais onde está sempre pessoal em funções, como a casa dos geradores auxiliares, pois normalmente o navio continua com os geradores em funcionamento, e o centro de comunicações. O navio cumpre sempre uma prontidão Search and Rescue (SAR) de 2 horas, o que significa que se houver uma chamada SAR, o navio tem 2 horas para largar do porto onde estiver atracado. A guarnição que esteja em terra, de licença, terá que se manter atenta para se necessário, o que ocorre por vezes, voltar rapidamente para bordo.

Quando o navio chega à Base, ao Alfeite, depois de cumprir a missão atribuída, contrariamente ao que se pensa, o navio não fecha portas. Existe sempre um grupo de serviço que toma diariamente conta do navio, assegurando a limpeza e a manutenção do material e da plataforma. Durante estes períodos, a guarnição está empenhada em treino, em formação, na prática de educação física e na execução de pequenas reparações. É nesta altura que também se trata da parte burocrática das áreas do pessoal e do material.

Conclusão

Um navio é algo de muito especial, onde todos são importantes, desde o Comandante ao grumete mais moderno. A bordo desenvolvem-se laços de camaradagem que ficam para toda a vida. Ali servem militares competentes, preparados e motivados, que com o seu trabalho, fazem com que o navio chegue sempre a bom porto, cumprindo a principal missão da Marinha, ou seja  …

…contribuir para que Portugal use o mar.

(artigo publicado originalmente no nº989, janeiro-fevereiro, 2016)