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Vasco Gil Mantas

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(artigo premiado)

É habitual que os grandes choke points marítimos associem a uma história prestigiosa e movimentada um permanente valor estratégico.

Assim sucede com o Estreito de Gibraltar, pelo que tem representado no jogo político das potências interessadas no uso do canal que separa, ou liga, a África e a Europa e que é, simultaneamente, acesso do Atlântico e do Mediterrâneo, ponto alto de geografias imaginárias ou reais. Os muitos problemas que na actualidade perturbam este portal de mares e de culturas, mesmo abstraindo dos que pela sua natureza política se inserem no terreno do imaginário nacionalista, desde logo os da soberania em Ceuta e em Gibraltar, são suficientes, como os do radicalismo islâmico, do narcotráfico e da constante pressão da imigração clandestina, para garantir o valor estratégico do Estreito de Gibraltar, mesmo ignorando o caldeirão de paixões em ebulição ao longo do Mediterrâneo, de consequências imprevisíveis.

O período que se seguiu à II Grande Guerra Mundial contribuiu, através da aparente estabilidade entre os dois poderes que dela emergiram, para desviar um pouco a atenção dos fenómenos que se iam desenvolvendo no flanco sul do dispositivo euro-atlântico, sobretudo a partir da década de 60 do século passado, os quais, naturalmente, renovaram o valor do Estreito de Gibraltar, afinal na linha da sua história milenar, reintroduzindo o efeito de fronteira, ideológica e cultural, que constitui um dos pontos centrais dessa mesma história. Na verdade, o Estreito congrega um espaço de transição, um cruzamento de rotas comunicando, em latitude, a África com a Europa, e, em longitude, o Mediterrâneo com o Atlântico, realidade geográfica do ponto de vista histórico bastante complexa.

gibraltar, espanha, marrocos, portugal, e.u.a., argélia, reino unido
O estreito de Gibraltar (foto NASA / JPL / NIMA)
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