Economia

Bacia da Foz do Rio Arade, Problemas e Soluções — Uma Visão Para o Futuro (parte 1)

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A Revista de Marinha aborda neste número a situação de um conjunto de projectos ligados à Economia Mar cujo contributo para o Desenvolvimento Local e Regional é percebido como estruturante, mas que por uma razão, ou por outra, demoram a sair do papel, sem que muitas vezes se percebam as razões de fundo para um tal estado de coisas.

O sucessivo adiamento da concretização destes projetos não só penaliza fortemente o desenvolvimento económico e a competitividade local e regional, como tem evidentes consequências não só para a geração de emprego e para a qualidade de vida das populações que aí vivem e trabalham mas também para aqueles que para aí se deslocam regularmente em férias, ou em trabalho.

Esta iniciativa da Revista de Marinha visa, assim, trazer à luz do dia projectos de relevante interesse público com o objectivo de os recolar na agenda política e económica, dando desta forma o seu humilde contributo para o Desenvolvimento Local e Regional das regiões litorais, numa aposta clara no reforço da Economia do Mar nas suas diferentes vertentes.

Neste artigo sobre o tema do Desenvolvimento Local e Regional a nossa atenção foca-se na Bacia da Foz do Rio Arade, Região do Barlavento Algarvio, à volta da qual confluem importantes municípios, como são os casos de Portimão, Lagoa, Silves e Monchique.

Nesse sentido, e para melhor enquadrar a problemática deste território, a Revista de Marinha encetou ao longo dos últimos meses um conjunto alargado de contactos com os mais representativos stakeholders da Região, tanto públicos como privados, aos quais nos cabe agradecer a sua generosa e imprescindível colaboração sem os quais este artigo não teria sido possível.

Tal circunstância permitiu-nos não só recolher ampla informação documental mas também sedimentar uma visão alargada e abrangente dos problemas que mais afetam este território com reconhecido potencial de desenvolvimento marítimo-turistico.

A ponte Romana, sobre o rio Arade, em Silves. O nome faz-nos pensar que a ponte teria sido construída pelos romanos, quando esta é uma ponte do século XV. Apesar de se supor que ali teria existido uma ponte romana, tal não foi ainda provado. (Foto LucT via Flickr)
A ponte Romana, sobre o rio Arade, em Silves. O nome faz-nos pensar que a ponte teria sido construída pelos romanos, quando esta é uma ponte do século XV. Apesar de se supor que ali teria existido uma ponte romana, tal não foi ainda provado. (Foto LucT via Flickr)

Assim, pese embora as características que a individualizam, a Bacia da Foz do Rio Arade não se pode dissociar do conjunto da Região do Barlavento e mesmo da Região do Algarve no seu todo, a qual poderíamos caracterizar sumariamente da seguinte forma, no quadro de uma Análise Swot (Pontos Fortes e Fracos, Riscos e Ameaças, Oportunidades), em que nos socorremos do Plano Estratégico do Barlavento Algarvio:

Pontos Fortes

  • Consolidação da Região do Algarve enquanto principal destino turístico nacional, com participação relevante do Barlavento, p.e., nos segmentos golfe, resorts e turismo de saúde, náutica de recreio e mergulho;
  • Grande variedade de recursos (naturais, paisagísticos, património histórico e cultural, com destaque para o património associado à cultura árabe e aos Descobrimentos Portugueses);
  • Potencial para desenvolver segmentos alternativos e complementares do produto “Sol e Praia”, de elevado valor acrescentado e que podem contribuir para a reorganização, qualificação e consolidação sustentável de toda a fileira do turismo (golfe, turismo náutico, turismo de cruzeiros, turismo desportivo de alto rendimento, turismo de eventos, mergulho, turismo de natureza / ambiental e turismo cultural);
  • Existência de infraestruturas de suporte ao desenvolvimento do turismo náutico, nomeadamente o Porto de Cruzeiros em Portimão e as seguintes estruturas de apoio à náutica de recreio: Marina de Portimão com 620 postos de amarração, Porto de Recreio Bartolomeu Dias com 69, Porto de Recreio de São Francisco com 74, Clube Naval de Portimão com 252, Marina de Lagos com 462 e os Estaleiros da Sopromar em Lagos e Portimão;
  • Capacidade para a realização de eventos de carácter internacional ligados ao turismo náutico e motorizado (p.e., Fórmula Windsurfing World Championship, Global Ocean Race, Med Cup – Troféu Portugal, P1 World Championship – Grande Prémio de Portugal, Campeonato Internacional de Pesca Grossa e Campeonato do Mundo da Classe Dart 18 – prova de vela, em Lagos)
  • Existência de unidades hoteleiras de excelência, nomeadamente em Portimão e Lagoa:
  • Potencial para alavancar segmentos e fileiras da indústria ligados a produtos turísticos a consolidar (turismo náutico, golfe, natureza, etc.)
Velas em regatas no Portimão Windsurfing World Championships (foto gentilmente cedida pela CM Portimão)
Velas em regata no Portimão Windsurfing World Championships (foto gentilmente cedida pela CM Portimão)

Já entre os Pontos Fracos podemos elencar o seguinte conjunto de aspectos:

Pontos Fracos

  • Especialização elevada em actividades turísticas associadas ao produto “Sol e Praia”, de baixo valor-acrescentado e com forte sazonalidade;
  • Deficiente qualificação da oferta hoteleira e dos serviços complementares;
  • Reduzida articulação/integração entre as actividades turísticas e outras actividades, como resultado, em grande parte, do subaproveitamento dos recursos endógenos pelo sector turístico;
  • Localização de empresas em espaços não infraestruturados e vocacionados para o efeito, comprometendo o desenvolvimento e qualificação das actividades económicas;
  • Quebra da importância económica e acentuada obsolescência das actividades das tradicionais, como sejam o caso das indústrias agro-transformadoras e de outras actividades industriais, como sejam as conservas, metalurgia ligeira e outros ramos de fileira metálica, de apoio à construção);
  • Incapacidade de consolidar iniciativas empresariais no domínio dos serviços relacionados e de suporte à qualificação do alojamento hoteleiro e da restauração;
  • Insuficiente dinamização de projectos de iniciativa privada no domínio da saúde, principalmente de saúde preventiva, face às potencialidades de desenvolvimento deste segmento de oferta.
A lancha de fiscalização NRP HIDRA a entra a barra de Portimão (foto de ddzphoto via Pixabay)
A lancha de fiscalização NRP HIDRA a entra a barra de Portimão (foto de ddzphoto via Pixabay)

Desta relação entre Pontos Fortes e Pontos Fracos destacam-se, por sua vez, um conjunto de Riscos e Ameaças que seguidamente elencam e que importa reter pela sua relevância:

Riscos e Ameaças

  • Dificuldade de atracão/fixação de empresas e de consolidação dos pólos de competitividade empresarial, em processo de criação;
  • Incapacidade do tecido empresarial para aproveitar as condições criadas pelo investimento público (Administração Central e Municípios) no domínio das infraestruturas/equipamentos;
  • Atraso/não concretização de projectos estruturantes dependentes de investimentos da Administração Central e de investimentos privados, fruto de um uma insuficiente articulação e/ou comunicação entre os principais stakeholders, aspeto que importa rever rapidamente a bem da competitividade da região;

Esta situação não é exclusiva do Algarve, ou sequer da Região do Barlavento, mas é patente na região uma acentuada rivalidade local e regional a par com uma certa fulanização da temática do Desenvolvimento Local e Regional, o que prejudica de sobremaneira a implementação de projectos e/ou iniciativas de carácter estruturante, dilatando no tempo a sua concretização, de que o exemplos dos projetos abordados neste artigo são exemplo acabado;

  • Incapacidade de diversificação e qualificação da oferta turística, com sub- aproveitamento das oportunidades potenciais de procura de um conjunto de produtos alternativos e complementares ao produto “Sol e Praia”;

Esta situação é patente como o Turismo de Cruzeiros, para o que Porto de Portimão apresenta inegável potencial, uma vez que está nas rotas das embarcações de cruzeiro que se dirigem, ou provêm, do Mediterrâneo, Ilhas da Macaronésia (Madeira, Porto Santo, Açores e Canárias) e Caraíbas, mas onde se verifica carência das devidas infraestruturas que importa colmatar;

  • Perda de competitividade e/ou obsolescência das actividades agroindustriais e de transformação de pescado, nomeadamente em Monchique, Lagos, Silves e Portimão.
O forte de Ferragudo, hoje importante atração turística na margem esquerda do rio Arade (foto de Cristiano Sequeira via Pixabay)
O forte de Ferragudo, hoje importante atração turística na margem esquerda do rio Arade (foto de Cristiano Sequeira via Pixabay)

A conjugação dos Pontos Fortes e Fracos e Fracos com os Riscos e Ameaças detetados permite configurar um conjunto de Oportunidades que seguidamente se enumeram e que importa reter:

Oportunidades

  • Qualificação do Porto de Portimão, no sentido de o dotar de condições de operação e segurança adequadas à navegação de cruzeiros, potenciando o aproveitamento da intensificação das rotas de cruzeiro e de náutica de recreio entre o Atlântico e o Mediterrâneo. O Ministério do Mar prevê a concretização dos projectos do terminal de passageiros, os trabalhos de dragagem do canal e a aquisição do rebocador, imprescindível a esta actividade;

Este projecto permitirá também reforçar a centralidade turística de Portimão e o volume de turistas no Barlavento, não havendo, contudo, data definitivas para a sua concretização, uma vez que a conclusão do novo Estudo de Impacto Ambiental tem vindo a ser sucessivamente adiado, conforme nos referiu a Presidente da Câmara de Portimão, Dra. Isilda Gomes;

  • Qualificação e acréscimo da capacidade das marinas (construção da Marina do Ferragudo e expansão da Marina de Lagos), potenciando o desenvolvimento dos desportos e dos serviços náuticos;

Neste particular a construção da Marina de Ferragudo afigura-se de primordial importância não só para ampliar a capacidade de oferta da Marina de Portimão praticamente esgotada, mas também para alicerçar uma nova oferta dirigida aos chamados Megayachts, um sector de atividade em grande expansão na Europa e no Mundo, com alto valor-acrescentado, para além de contribuir decisivamente para a requalificação urbana da orla ribeirinha do Concelho de Ferragudo;

  • Criação de centros de apoio ao surf em Vila do Bispo e Aljezur, potenciando o turismo associado as desportos de mar;
  • Intenção do Ministério do Mar de elaborar um Plano Estratégico para o Porto da Baleeira em Sagres no sentido de avaliar as potencialidades de desenvolvimento da náutica de recreio e do turismo de natureza, explorando os recursos do mar;
  • Projecto de navegabilidade do Rio Arade, potenciando o desenvolvimento do turismo ambiental/de natureza;
  • Criação do Bio Parque de Monchique, cujo objectivo é restaurar a economia local através do desenvolvimento de actividades turísticas em meio rural;
  • Crescimento do mercado de congressos e seminários internacionais, actividades para as quais a sub-região possui condições privilegiadas, naturais e logísticas;
  • Acréscimo da oferta de produtos turísticos de qualidade (resort e golfe), na sub-região, designadamente nos concelhos de Portimão e de Lagos, o que potencia a qualificação, diversificação e complementaridade da oferta turística, mormente de náutica;
  • Condições de desenvolvimento do subsector da saúde e bem-estar, designadamente da saúde preventiva, devido à localização no Barlavento do único complexo termal da Região e ao elevado peso do turismo residencial, para o qual a área da saúde assume uma importância estratégica;

Em todos os concelhos, exceto Silves, o peso da 2ª residência é superior à média regional (mais de duas vezes superior à média nacional, 38,2% face a 18,3%).

Silves (foto de Sergei Gussev, Flickr)
Silves (foto de Sergei Gussev, Flickr)

É neste enquadramento que na Bacia da Foz do Rio Arade sobressaem 3 projectos que as respetivas autarquias e populações há muito reclamam, porventura há décadas, sem que se perceba a verdadeira génese dos sucessivos adiamentos que se verificam, como são os seguintes casos, tidos como os de maior impacto económico e no desenvolvimento de novas formas de oferta turística de elevado valor-acrescentado:

    • O Desassoreamento do Rio Arade da Foz entre Portimão e Silves;
    • Obra de acessibilidade Marítima do Porto de Portimão e de ampliação do Cais de Acostagem do Terminal de Cruzeiros de Portimão;
    • A Construção da Marina de Ferragudo;

os quais analisaremos seguidamente.

Não perca a 2ª parte deste artigo, a publicar brevemente.

 

Artigo publicado na edição nº 1009 da Revista de Marinha. Caso esteja interessado na sua aquisição ou tornar-se assinante clique AQUI

 

Eduardo Almeida Faria

Licenciado em gestão, tem uma larga experiência no associativismo desportivo, é especialista no tema da Náutica de Recreio, tendo feito parte do Conselho Nacional da Náutica de Recreio e, no âmbito do Fórum Oceano, integrado o Grupo Dinamizador do Portugal Náutico. É autor da obra “Náutica de Recreio em Portugal – Um pilar do Desenvolvimento Local e da Economia do Mar” e de inúmeros artigos e noticias na Revista de Marinha e no Jornal da Economia do Mar. Como desportista náutico tem muitas milhas percorridas pela costa portuguesa e pelo Mediterrâneo em veleiros de cruzeiro, quer em lazer, quer em regata.

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