Ambiente

Baleias de Primavera

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Fomos até Vila Franca do Campo, no centro sul da maravilhosa ilha de São Miguel. Embarcamos novamente à descoberta do mundo fantástico das baleias e dos golfinhos dos Açores.

Dia sereno e solarengo. Convidativo a uma manhã espetacular. E concretizou-se. Do alto da Vigia de Ponta Garça confirmam-se várias baleias de barbas ao largo da costa. No briefing, a Guia bióloga marinha explica em várias línguas a razão porque os Açores são um dos melhores sítios para ver cetáceos. Pode ver-se um terço das espécies existentes no mundo. Nestes mares existem espécies migratórias e outras residentes. Que a empresa segue as boas práticas de conduta na observação dos animais no seu meio natural. Que respeitam e contribuem para preservar os ecossistemas. Mais diante, sensibilizou de forma competente os whalewatchers sobre a fantástica Megafauna marinha, que inclui também aves marinhas, tartarugas e peixes.

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“No briefing, a Guia bióloga marinha explica em várias línguas a razão porque os Açores são um dos melhores sítios para ver cetáceos.” (foto Terra Azul)

Em tom seguro, alerta: “atenção que este Tour não é apenas um passeio de barco. Terão a oportunidade de aprender sobre a fauna marinha selvagem”. De seguida, o comandante da embarcação avisou para cuidados no embarque e desembarque, bem como todos os aspetos da segurança a bordo durante a viagem. Vestidos os coletes salva-vidas, reparamos nos rostos ansiosos dos turistas, na sua maioria estrangeiros. Confortáveis a bordo de modernos semirrígidos amarelos, saímos do porto pelas nove horas. Mais instruções da Guia sobre segurança e procedimentos para boa observação no mar. Em pano de fundo, escutávamos as comunicações rádio VHF entre o Skipper e o Vigia. Era um cenário perfeito para uma verdadeira aventura à descoberta de uma Natureza misteriosa e sedutora. A embarcação segura, acelera para sul direcionada pela voz entendida do Filipe. Procura baleias e golfinhos nas vagas e na bruma com os seus potentes binóculos há treze anos para a empresa. Na embarcação, sentimos os cabelos ao vento no sol matinal, o perfume da maresia e um oceano imenso que se abre. Sensações que nos fazem sentir o pulsar da vida. Em poucos minutos, chegamos a lugar nenhum. No meio dos mar. Longos jatos de ar e água, lançados à superfície, indicam a presença dos maiores mamíferos do planeta. São baleias de barbas em alimentação, entre Ponta Garça e Ribeira Quente. “Nesta área, a ocorrência de baleias Comuns e Azuis é elevada. Desde março que as vemos praticamente todos os dias…”, informou a guia. O skipper posiciona gentilmente a embarcação mais próximo dos animais. Guarda distância de segurança. O suficiente para não as perturbar. A cena é única.

Um ser gigante, de corpo azul-acinzentado e manchas claras no dorso, desliza calmamente pela água.

Ouve-se a respiração cavernal, potente, vinda das entranhas do animal colossal. Ao fundo, a ilha revela-se em múltiplas tonalidades de verdes, contornada por azul intenso, do céu e do mar. A bordo, espalha-se um burburinho contemplativo. A tripulação está habituada a esta alegria contagiante dos turistas a verem as baleias. Para alguns é como realizar um sonho difícil de alcançar. A bióloga explica: “Pertencem ao grupo das baleias de barbas, os misticetos. Reparem nos dois espiráculos na parte de trás da cabeça. Distinguem-se dos por odontocetos, do grupo das baleias com dentes. Vejam as manchas de krill debaixo de água. Este alimento sustenta uma vasta cadeia alimentar, levado pelas correntes oceânicas, chegando nesta altura do ano ao largo das ilhas. A biodiversidade dos Açores é única…”. Entretanto a baleia mergulha nas profundezas. O Skipper indica para Leste. Vêm-se mais sprays dissiparem-se no ar. “São pelo menos sete animais na área, entre as quais duas baleias Azuis e cinco Comuns”. “Há uma cria no grupo”, diz o Vigia pelo rádio. Sozinhos naquele barco, a cena digna dos documentários do National Geographic prolonga-se durante alguns minutos, entre o que que vemos à superfície e o que imaginamos da vida das baleias nas profundezas da imensa coluna de água. Embarcações aproximam-se velozmente vindas de Ponta Delgada. É tempo de abandonarmos a área e ver outras espécies. O Vigia dá instruções para nos dirigirmos “mais à terra, em frente a Água d’Alto”. Vamos ao encontro de um grupo de Roazes. Carregados de nova adrenalina, os turistas ficam atentos à procura de saltos, sombras e bufos dos simpáticos animais. Rapidamente aparecem os golfinhos atraídos pelo movimento do barco amarelo. Acrobáticos, fazem soltar sorrisos infantis nos turistas. “Estes roazes são um grupo conhecido. A Guia bióloga marinha dá informações sobre a espécie, enquanto tira fotos para o catálogo de foto-identificação associado ao MONICET (www.monicet.net). A Terra Azul colabora neste projeto científico que visa recolher dados sobre os animais durante as observações. Validados cientificamente segundo uma metodologia específica são disponibilizados numa plataforma digital aos cientistas para estudo sobre os cetáceos. Iniciado há dez anos, constitui uma base de dados única com informações científicas relevantes. “A nossa empresa é cofundadora deste projeto, em parceria com o CIRN – Universidade dos Açores”, informa a Guia enquanto mostra a placa acrílica onde inscreve os dados.

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“Rapidamente aparecem os golfinhos atraídos pelo movimento do barco amarelo.” (foto Terra Azul)

Encantados pelo espetáculo dos golfinhos, os turistas colocavam questões à bióloga a bordo.

“Como dormem? De que se alimentam? Como comunicam no grupo?… entre outras curiosidades que a tripulação aproveitada para fazer do passeio turístico numa oportunidade educativa. Afinal, esta é a razão do Ecoturismo. Onze e trinta. É tempo de regresso à marina. O Skipper agradece o trabalho fantástico dos Vigias, que farão intervalo antes da próxima saída. Meia hora antes, terão novamente que encontrar baleias e golfinhos na imensidade atlântica à sua frente. A embarcação ruma ao ilhéu de Vila Franca encontrando pelo caminho uma tartaruga careta-careta para contentamento dos passageiros. A Guia volta a explicar: “Esta é uma das sete espécies de tartarugas marinhas que se podem ver nos Açores. Viajam na Corrente do Golfo juntamente com o seu alimento, águas vivas e medusas. Sempre que possível, capturamo-las para as marcar e medir, enviando os dados para o projeto Costa (http://costapopa.wixsite.com/costa). Aproximamo-nos do fim do passeio. Damos a volta a um icónico vulcão subaquático, classificado de zona protegida pelo seu interesse biofísico. No regresso do passeio de whale Watching, o barco avança em marcha lenta, enquanto a Guia explica a geologia e vulcanismo, a fauna e a flora, a história e património do Ilhéu de Vila Franca. Este é um momento tranquilo antes de voltar a terra. Olhamos a piscina natural interior e o casario branco da primeira Capital da ilha de São Miguel. Depois, a embarcação atraca no seu pontão em frente à Base. Invadidos por uma sensação positiva desta manhã fantástica passada no mar, partilhamos momentos inesquecíveis, abençoados por uma riqueza ímpar da Natureza. Sentimos um desejo de voltar, apesar de conscientes que a vida tem de continuar. Apenas a equipa profissional e multicultural da Terra Azul regressará ao mar, proporcionando mais momentos à descoberta do mundo fantástico das baleias e dos golfinhos dos Açores.

Licenciado em gestão e administração pública e com uma pós-graduação em desenvolvimento local, tem no seu currÍculo profissional duas décadas como técnico superior. Contudo, é como empresário no sector marítimo-turístico que lhe dá prazer contribuir para a sociedade. É sócio gerente da TERRA AZUL. Fundou esta empresa de observação de beleias e golfinhos de Vila Franca do Campo em 2001, sendo hoje uma referência excelência no sector do Turismo nos Açores. Destaca-se ainda pela sua actividade cívica no âmbito da preservação da cultura marítima, como promotor da recuperação do bote baleeiro “Senhora de Fátima”, o único a navegar na Ilha de São Miguel e a participar nas polulares regatas nas ilhas. Defende para os Açores um ecoturismo de qualidade e com identidade, respeitador dos ecossistemas e da natureza, promotor da educação ambiental marinha e da investigação, diferenciador na oferta do produto e do destino. (Por decisão pessoal, Miguel Cravinho não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)