História

De volta a 1806: BANG!

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

A Secção Brigada de Artilharia Naval e Guerra (BANG), parte da Associação Portuguesa de Recriação Histórica (APRH), dedica-se à recriação do período Napoleónico, sendo parte integrante da Associação Napoleónica Portuguesa (ANP). Representa o R.A. 1 de Lisboa, bem como uma equipagem de desembarque da Marinha Real.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval, Vimeiro
Logo da APRH

O Regimento de Artilharia nº 1 pertencia à “Divisão do Centro”, estava sediado em Lisboa e, tendo como base o Regimento de Artilharia da “Corte”, foi renomeado e numerado em 1806. As baterias regimentais eram constituídas por duas peças de 3 libras, duas peças de 6 libras, uma peça de 9 libras e um morteiro de 5 polegadas. Enquanto artilheiros do R.A. 1 de Lisboa, os membros da APRH, tripulam uma peça de 3 libras ou de 6 libras, uma vez que, após a reorganização de Beresford, os regimentos foram organizados em destacamentos que formavam brigadas similares a baterias, mas com três peças de 3 libras e outras três peças de 6 libras, cada.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval,
Um marinheiro-artilheiro do R.A. 1. De notar as ferramentas de limpeza e obstrução do ouvido (foto BANG)

Durante o período das “Guerras Peninsulares”, a vasta maioria da Armada Real acompanhou a família Real, tendo ficado apenas poucos navios de guarda-costas ao serviço de Portugal Continental e, após a vitória em Trafalgar, a frota Inglesa ganha o de facto domínio dos mares, sendo agora necessária a vitoria terrestre sobre as forças de Napoleão. Para esse propósito, quer quando Wellington desembarca em Porto Novo, quer, mais tarde, quando se procede à construção e guarnição das Linhas de Torres, todos os marinheiros disponíveis eram desembarcados, bem como todas as peças que pudessem ser dispensadas, no primeiro caso; e TODAS as peças, no caso das Linhas de Torres (incluindo de navios mercantes – caso documentado de um cargueiro Russo, que se viu despojado das suas peças, para estas irem guarnecer as Linhas).

Os marinheiros do BANG representam assim, os marinheiros-artilheiros da Armada Real, comandados por um Sargento de Mar e Guerra, que eram desembarcados para fortalecer as linhas. Guarnecem uma peça de acompanhamento (peça de montanha ou de 3lbs), que, por ser muito ligeira, conseguia quando necessário acompanhar as movimentações da Infantaria, e são apoiados, na sua ação, por marinheiros equipados com armas ligeiras e de combate corpo a corpo.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval,
O Sargento de Mar e Guerra equipa de acordo com o regulamento de 1807 (foto BANG)

Não existindo, nos regulamentos de 1797 e de 1807, fardas específicas para os marinheiros (marinheiros-artilheiros, marinheiros-artífices e marinheiros de manobra) – sendo estas à descrição do Comandante do navio – com base, quer nas relações de fornecimento com Inglaterra, quer nas muitas gravuras de época, o BANG equipa de pantalona branca; colete e casaca azul ferrete, sapatos de fivela, meias brancas, cartola e botões com a simbologia de marinheiros-artilheiros.

Existem várias dificuldades em equipar seja quem for de acordo com os regulamentos, uma vez que há uma enorme dificuldade em encontrar panos originais (apesar das cores serem descritas nos regulamentos, variações no processo de produção poderiam produzir diferentes tonalidades da mesma cor), botões originais em boas condições etc. Assim a grande parte dos ataviamentos são feitos pelos recriadores, com base nos originais, utilizando posteriormente processos modernos. Um exemplo disso são os botões regimentais, cujos módulos grande e pequeno foram feitos em software CAD 3D com base em originais de um único regimento, de acordo com as dimensões e letras da altura sendo posteriormente impressos com uma impressora 3D e fundidos. Isto permitiu equipar os recriadores de vários regimentos com os botões regimentais corretos, uma vez que os originais eram de regimentos diferentes nos seus módulos grande e pequeno; (módulo – diâmetro dos botões que variava conforme o sítio onde era aplicado e que seriam de 19 e 15.5mm respetivamente).

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval,
(foto BANG)

É de notar que, neste processo de recriar algo “simples” como um botão, intervieram um conjunto alargado de pessoas, desde colecionadores privados, vários membros da ANP, com particular destaque para o seu Presidente, o Eng. Faria e Silva, e a direção da APRH, entre outros, que utilizando a suas pesquisas e conhecimentos técnicos conseguiram, no espaço de cerca de seis meses, recriar os botões regimentais com a vantagem de que, após identificada a “fonte” e estando sob a forma digital editável, agora se podem produzir  os botões da totalidade dos regimentos. Hoje em dia podemos socorrer-nos destas tecnologias, mas até agora para se conseguir uma boa reprodução de qualquer coisa como uma chapa de barretina, um punho de sabre, as armas nacionais que eram colocadas nos talabartes etc. era necessário que alguém tivesse um original em boas condições, e o cedesse para se fazerem cópias.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval,
(foto BANG)

As casacas e coletes são feitos de acordo com os modelos sobreviventes e com a melhor interpretação possível, quer dos planos de uniformes, quer das gravuras de época, sendo muitas vezes costurados por modistas, que ainda conseguem interpretar os “feitios” disponíveis.

A atividade de recriação é uma atividade que se pretende pedagógica, divertida, segura e inclusiva, razões pelas quais “permitimos” mulheres nas nossas equipagens, com o mesmo papel que qualquer outro marinheiro, algo claramente anacrónico. Pelas mesmas razões, parte da nossa recriação inclui sempre explicações pedagógicas sobre o funcionamento das armas, calibres e alcances, ritmo de fogo, etc. As concessões que fazemos são essencialmente de segurança, como por exemplo equipar todos os marinheiros com sapatos (um luxo à época) e utilização de rastilho moderno em vez de carregar o ouvido da peça com pólvora negra.

Os membros do BANG passam por um período probatório de um ano durante o qual recebem instrução sobre artilharia e armas ligeiras, bem como noções básicas da estrutura de comando e funcionamento de um exército do séc. XVIII/XIX. Este período permite à estrutura da APRH, nomeadamente o seu conselho técnico, avaliar a capacidade dos “recrutas” e permite igualmente aos recrutas participarem em diversas recriações para perceberem se de facto a recriação em todas as suas vertentes é algo que lhes agrade. Findo o período probatório os novos membros são inscritos como membros “ativos”.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval,
Tripulação de Marinheiros Artilheiros desembarcados e Artilheiro do RA 1 (foto BANG)

Alguns dos membros do BANG fazem recriação histórica do período das “Guerras Peninsulares” desde 2002 e participaram ativamente em várias iniciativas, e na então incipiente ANP, que se constituiria em 2003, com o objetivo de comemorar o bicentenário das Guerras Peninsulares.

Tendo participado regularmente nas iniciativas das comemorações do Cerco de Almeida e nas comemorações da Batalha do Vimeiro, esta seção da APRH participou igualmente no bicentenário da Batalha de Waterloo, em Waterloo –  até à data aquela que maior número de recriadores juntou, com cerca de doze mil recriadores no total.

BANG, APRH, recriação histórica, associação napoleónica portuguesa, almeida, vimeiro, brigada de artilharia naval, waterloo
Nas comemorações dos 200 anos da Batalha de Waterloo, na Bélgica. (foto BANG)

Para além das participações nos variados eventos, a APRH, dada a sua experiência e rigor histórico, tem participado com os seus elementos e capacidades técnicas na produção de variados interativos multimédia, com fotografias e descrições de variados uniformes das Guerras Peninsulares. Nomeadamente, para o centro de interpretação das Linhas de Torres Vedras, no forte de S. Vicente.

Nota da redação: A Revista de Marinha, agradece a colaboração da direção da APRH na redação deste artigo.

Os leitores que desejarem mais informação sobre a APRH ou a BANG, podem encontrar no respectivo website)

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Excelente artigo, que apreciei de sobremaneira, já que dado o facto de ser engenheiro de minas e ter lidado bastante com explosivos, também sou devoto de Santa Bárbara.

    Com parabéns à redação da Revista de Marinha, e cordialmente,

    Artur Manuel Pires