Category

Autoridade Marítima

Category

NRP SETÚBAL encontrou um náufrago que esteve cerca de 30 horas perdido a boiar no mar.

Para quem não tem experiência de navegar no alto mar é difícil compreender a quase impossibilidade de encontrar um homem caído à água no meio do oceano. Mas para a maioria dos marinheiros que conhecem a realidade do mar aberto, das ondas, do vento e sabem da gigantesca dimensão da mancha azul quando comparada com a ínfima pequenez do tamanho dum ser humano, é uma realidade que se tem bem presente todos os dias.

Milagre no Mar dos Açores  43
Um marinheiro grita e assinala a direção da posição do náufrago durante um treino de HOMEM AO MAR (imagem U.S. Navy John L. Beeman)

Cair ao mar, mesmo num dia com pouca agitação marítima é quase sempre fatal.

Por isso acreditamos que para os homens e mulheres da guarnição do Navio Patrulha Oceânico NRP SETÚBAL, o dia 14 de abril de 2020 nunca mais será esquecido.

A sala de operações do MRCC DELGADA (imagem Marinha Portuguesa)
A sala de operações do MRCC DELGADA (imagem Marinha Portuguesa)

A operação SAR (Search And Rescue)

O alerta chegou à Marinha, através do Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC Delgada), cerca das 23h35 (horas locais) do dia 12 de abril:

HOMEM AO MAR caído do navio mercante UACC MANSOURIA, numa posição a cerca de 250 milhas náuticas (mais de 460 km) a sudoeste da Ilha das Flores. ​​​

De imediato foi iniciada uma operação de busca e salvamento, coordenada pelo MRCC Delgada, em articulação com o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento das Lajes (RCC Lajes), envolvendo o navio da Marinha em missão nos Açores, NRP SETÚBAL, uma aeronave de busca e salvamento C-295M da Força Aérea Portuguesa, o próprio UACC MANSOURIA e mais dez navios mercantes que se encontravam na região e foram desviados para a área.

O avião de patrulha marítima Airbus C-295 da Força Aérea Portuguesa (imagem FAP)
O avião de patrulha marítima Airbus C-295M da Força Aérea Portuguesa (imagem FAP)

O NRP SETÚBAL dirigiu-se a velocidade máxima de 26 nós (cerca de 48 km/h), tendo chegado à área de busca cerca da meia-noite do dia 13 para 14 de abril.

Segundo um relato da imprensa, o MANSOURIA ainda teria executado a manobra de homem ao mar, que consiste numa manobra de rotação do navio por forma a sair do rumo corrido e voltar à posição onde o homem caiu ao mar. Dadas as dimensões e enorme inércia dos navios estas manobras podem chegar durar mais de meia hora, e foi o que deve ter acontecido com o MANSOURIA, que ainda teve o náufrago à vista durante algum tempo, mas que o perdeu definitivamente, só voltando a ser avistado, por um acaso, um verdadeiro milagre, pelo NRP SETÚBAL, era já noite cerrada, às 02h24, horas locais, quase 30 horas depois da queda do tripulante ao mar. Valeu-lhe o fato de sobrevivência que envergava, fundamental para o proteger da hipotermia e valeu-lhe a luz emitida pelo fato. Valeu-lhe igualmente o treino, o esforço e a persistência dos vigias do navio patrulha português e os seus equipamentos de visão noturna.

Milagre no Mar dos Açores  44
Fato de sobrevivência como o que envergava o náufrago do UACC MANSOURIA. (pode ver mais informação sobre estes fatos no site no-frills-sailing.com)

Em segundos foi arreada a lancha rápida do NRP SETÚBAL, cuja tripulação integrava o enfermeiro de bordo preparado para avaliar a condição clínica e assistir o náufrago em caso de necessidade urgente.

À chegada a bordo o homem foi recebido com uma grande ovação da guarnição do navio a quem agradeceu de mãos postas terem-lhe salvo a vida.

A lancha em aproximação ao NRP SETUBAL (imagem Marinha Portuguesa)
Tranzendo o náufrago a bordo, a lancha aproxima-se do NRP SETÚBAL (imagem Marinha Portuguesa)
Minutos depois de recolher o náufrago das águas do oceano, a lancha de inspeção e resgate do SETÚBAL, encosta ao navio para ser içada para bordo (imagem Marinha Portuguesa)
Minutos depois de recolher o náufrago das águas do oceano, a lancha de inspeção e resgate do SETÚBAL, encosta ao navio para ser içada para bordo (imagem Marinha Portuguesa)
O náufrago, acompanhado pelo enfermeiro do NRP SETÚBAL é recebido com uma enorme ovação da guarnição do navio português (imagem Marinha Portuguesa)
O náufrago, acompanhado pelo enfermeiro do NRP SETÚBAL é recebido com uma enorme ovação da guarnição do navio português (imagem Marinha Portuguesa)

O navio regressou, entretanto, a Ponta Delgada onde, na manhã do dia 15 de Abril, o tripulante foi desembarcado e transferido para observação no hospital Divino Espírito Santo.

 

O importante papel do instituto Hidrográfico da Marinha

Um dos meios mais importantes empenhados nesta operação foi o Instituto Hidrográfico, em Lisboa que, com os seus modelos matemáticos e os dados das correntes oceânicas, dos ventos e da ondulação, calculou a deriva provável do náufrago, possibilitando definir com uma grande precisão a área de busca.

Instituto Hidrográfico, uma importante instituição nacional, instalado no antigo convento das Trinas, em Lisboa.
Instituto Hidrográfico, uma importante instituição nacional, instalado no antigo convento das Trinas do Mocambo, em Lisboa.

O navio químico UACC MANSOURIA

O navio tanque UACC MANSOURIA (imagem United Arab Chemical Carriers)
O navio tanque UACC MANSOURIA (imagem United Arab Chemical Carriers)

O UACC MANSOURIA (IMO 9489089), é um navio químico, foi construído em 2013 nos estaleiros da Shina, SB, em Tongyoung, na Coreia do Sul. Mede 183m de comprimento e desloca cerca de 29.000 tons. Está registado no porto de Majuro, Marshall Islands, e é operado pela United Arab Chemical Carriers (UACC) propriedade da Qatar Investment Authority (QIA) e da Public Investment Fund of Saudi Arabia (PIF).

O NRP SETÚBAL

O Navio da República Portuguesa (NRP) SETÚBAL, o quarto da classe Viana do Castelo e o mais recente navio da Marinha, foi batizado em 6 de fevereiro de 2019, sendo comandado pelo capitão-de-fragata Rui Manuel Zambujo Madeira e tem uma guarnição de 46 elementos.

O comandante Zambujo Madeira e parte da guarnição do SETÚBAL (imagem Marinha Portuguesa)
O comandante Zambujo Madeira e parte da guarnição do SETÚBAL (imagem Marinha Portuguesa)

O SETÚBAL, foi construído em Viana do Castelo, nos estaleiros da WESTSEA, num consórcio com a EDISOFT (THALES), tem 83,10m de comprimento e desloca cerca de 1.900 toneladas.

Está desde o princípio de abril na sua segunda missão na Zona Marítima dos Açores, onde desenvolve tarefas específicas no âmbito da busca e salvamento marítimo, da monitorização e controlo da pesca e da navegação, da prevenção e combate à poluição marinha e na prevenção e combate a atividades ilegais, como o narcotráfico. Para além destas tarefas também poderá ser empregue em operações militares e está capacitado para dar apoio humanitário na sequência de desastre naturais, tendo um importante papel no apoio à estrutura da Proteção Civil dos Açores.

Recordamos que em maio de 2019, o NRP SETÚBAL foi o navio que, ao largo de Cabo Verde, apoiou a captura duma traineira brasileira com 1 tonelada de cocaína e, em outubro do mesmo ano, foi o primeiro navio da Marinha Portuguesa a chegar ao porto das Lajes, na ilha das Flores, e a prestar auxílio àquela ilha açoriana, após a destruição provocada pelo furacão “Lorenzo”.

Uma lindíssima imagem do NRP SETÚBAL, a largar de Lisboa para mais uma missão SAR, dia 17 de Julho de 2019 (foto de Luis Miguel Correia)
Uma lindíssima imagem do NRP SETÚBAL, a largar de Lisboa para mais uma missão SAR, dia 17 de Julho de 2019 (foto de Luis Miguel Correia)

​Estiveram envolvidos nesta operação o MRCC Delgada, o RCC Lajes, o NRP Setúbal, o Instituto Hidrográfico,​ uma aeronave C-295 da FAP e os navios mercantes “UACC Mansouria”, “CMA CGM Marseille”, “Vitakosmos”, “Nordseine”, “Manzanillo”, “MSC Lucy”, “TORM Kansas”, “Golar Seal”, “Star Herdla”, “Frontier Sky” e “Callisto”.