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Em louvor de Les Étoiles, de Alphonse Daudet

 – Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado? Perguntou o Bom Zé Fernandes.

Este diálogo aparece sensivelmente a meio de A Cidade e as Serras, romance de Eça de Queiroz, escrito nos últimos anos do século XIX e publicado postumamente em 1901.

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Casa de Vila Nova em Santa Cruz do Douro (TORMES) (foto Fundação Eça de Queiroz)

Na mesma altura em que, empoleirados na serraria de Tormes, os dois amigos, perscrutam o céu, na catalogação prazerosa das estrelas, em África, procurávamos com outras estrelas, mapear o terreno, em missões cartográficas, espalhadas pelo território ultramarino, empenhadas  activamente no frenesim que se tinha apoderado da civilização, de medir a Terra em múltiplos de milímetros e polegadas.

Toda a Terra; em longitude, latitude, altitude e profundidade.

Aquele trabalho foi promovido em grande parte pelas sociedades de geografia, fundadas naquela altura em todas as capitais cultas do mundo, em resposta a dois impulsos simultâneos, um altruísta e outro egoísta. O primeiro, corresponde ao desejo de aquisição de conhecimento, e o segundo, ao registo de propriedade.

Os dois processos juntos, permitiram satisfazer o objectivo de conhecer, primeiro, e cadastrar depois, o nosso património ultramarino, sob pena de que se não o fizéssemos, outros fariam por nós, e claro, no seu nome.

Mais claro ainda, era a precaridade da legitimidade daquela propriedade, porque se tratavam de terras ancestralmente na posse das populações locais, e que se possuíam o direito a elas, não tinham tido, contudo, a força para o defender, uma prática típica do imperialismo a que tinham sido submetidas, processo injusto, mas que foi comum a todas as grandes nações da altura, Portugal incluído.

Na passagem do século XIX para o XX, era preciso evidenciar nas grandes conferências coloniais europeias, perante as chancelarias, o direito à posse daquelas terras, o qual só podia ser reivindicado depois de perfeitamente conhecidos os contornos dos territórios em disputa.

Estes, depois de multiplicados, divididos e trocados, à mesa das negociações, passavam a incorporar os impérios coloniais.

Em Portugal, esta missão, quase quinhentos anos depois da epopeia dos descobrimentos, voltou a ser confiada aos marinheiros. Já tinham dado provas na descoberta dos caminhos do mar, iam agora fazer o mesmo nos caminhos da terra.

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O oficial da Marinha Gago Coutinho, na Missão de Delimitação da Fronteira Sueste de Angola, 1912. (foto Arquivo Científico Tropical)

Também o Exército e a sociedade civil, contribuíram de forma relevante para aquele processo, mas os oficias de marinha, para além das características que vamos encontrar naqueles dois grupos, como sejam um conhecimento muito relevante de astronomia, indispensável aos sistemas de navegação da época, e o espírito de missão, possuíam uma grande afinidade com a solidão, adquirida nas vastidões do oceano, e transposta para o sertão.

Com os pés na terra, e o olhar no céu, eram íntimos das estrelas. Estas mitigavam-lhes o vazio com a sua presença benfazeja, quando acampados, e forneciam-lhes o rumo, quando em movimento.

As distâncias no céu, reproduziam, depois de compatibilizadas, as distâncias na terra. Bastava olhar as estrelas.

Quase cem anos depois, na transição do século XX para o XXI, o céu continua a indicar os contornos da terra, a profundidade dos mares, o exacto lugar das coisas. Mas agora já não é necessário observar o firmamento para saber como é que é a Terra; é o firmamento que está constantemente a observar e a informar a Terra.

Com o recurso a estas ferramentas, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (emepc) vem actualmente a aumentar o nosso território.

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Mergulhos e percursos da campanha da Estrutura de Missão de Extensão da Plataforma Continental (foto empec)

Através de satélites, e do Sistema Global de Posicionamento, o célebre Global Positioning System, ou o ainda mais célebre GPS, as distâncias e a sua significação relativa, informam instantaneamente dados que permitem levantamentos hidrográficos rigorosos, mapeamentos de fundos marinhos fiáveis, e monitorização constante de marés.

A quantidade da plataforma continental reivindicada por Portugal, depende daqueles dados. Estes são sucessivamente mais sofisticados, para colmatar necessidades de conhecimento progressivamente mais exigentes, e para permitirem renovar perpetuamente a questão matricial do saber, como o fizeram os dois amigos, a vaguear na noite sideral.

– Não sei…E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?

– Não sei. Não sabíamos.

Zé Fernandes, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe Espiritual.

E Jacinto, por causa da sua biblioteca, onde possuía trezentos e oitenta tratados de Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta.

Não sabíamos.

Nós também não. E também já não precisamos, e por isso podemos devolver a liberdade aos astros, flanando entre eles com os olhos gratos de tamanha beleza.

E sobretudo sem precisarmos de mentir, quando alguém nos tentar mostrar uma ursa maior (ou até mesmo menor), num amontoado sem nexo de estrelas às mãos cheias.

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O céu estrelado nocturno