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Construção e Reparação Naval

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Canoa Baleeira denomina as embarcações usadas ​​na caça à baleia e outros barcos de características semelhantes, caracterizadas por extremidades iguais, aguçadas.

No início do século XIX, foram utilizadas a bordo dos navios baleeiros norte-americanos e depois nas estações costeiras espalhadas pelo mundo.

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Cachalote “A caça”, desenho baseado numa litografia de Endycott e Co, NY, 1859, desenho de A. Van Best e R.S. Gifford

Trata-se de um barco aberto, entre os 27 e os 38 pés de comprimento, de propulsão a remos e à vela. Bem adaptado à sua função, revela uma estética peculiar. Se o tamanho varia, assim como as linhas e os métodos construtivos, as suas características básicas são reconhecíeis.

No final de 1800 foi utilizado em lugares longínquos do Pacífico, Índico e Árctico. No Atlântico, há registos da sua utilização um pouco por todo o lado: Groenlândia, ilhas Granadinas, Brasil, Tristão da Cunha e Macaronésia, incluindo as ilhas dos Açores. Conquistaram até os mares mais remotos sendo, por isso, a mais comum das embarcações de pequeno porte.

bote baleeiro, canoa baleeira, beetle whale boat, açores, são miguel,Após o declínio da baleação americana offshore (década 1920), as canoas baleeiras conheceram o seu apogeu de aperfeiçoamento construtivo por força da sua utilização na baleação costeira e do desenvolvimento tecnológica associado às guerras.

A caça à baleia marcou o carácter e o modo de vida dos Açorianos. A baleação, como actividade organizada surge nas ilhas a ocidente, por volta de 1830, e estende-se por todo o arquipélago ao longo quase meio século. Faz sobressair especificidades locais e deixa marcas distintas nas ilhas, nas pessoas e nas Comunidades.

Tal como a baleia/cachalote, o bote baleeiro (na terminologia regional) é um símbolo dos Açores. Constitui um vestígio material marcante no Património e Cultura Açoriana, que resulta de uma dimensão arquipelágica.

É um dos activos da Região com maior valor, considerando as suas múltiplas facetas. Extravasa o interesse histórico-patrimonial e afirma uma Identidade própria. Potencia novas oportunidades no plano cultural, desportivo, educativo e turístico. Presta um contributo relevante na preservação das tradições, incluindo a construção naval tradicional. Finalmente, poderá desempenhar um papel de ligação das pessoas e das ilhas, entre si, e estas ao mundo.

Nos Açores, o bote baleeiro revela igualmente o seu carácter evolutivo. Adapta-se às circunstâncias inerentes a embarcações de trabalho e transforma-se pelo engenho criativo dos construtores navais locais e dos seus utilizadores: os baleeiros.

Do design inicial, inspirado no «Beetle whaleboat» americano foi ganhando novas formas. Mais alongado, melhor adaptado às condições de navegação nos nossos mares e ao tipo de baleação costeira artesanal.

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Canoa baleeira americana Beetle, WesternAustralia_Maritime_Museum

Ao longo dos tempos, incorporou um intrincado conjunto de conhecimentos, de artes e saberes, resultado da disponibilidade de materiais, do acesso às técnicas construtivas, às tecnologias e aos métodos de fabrico, adequando-se aos diferentes contextos da baleação nas ilhas.

Esta diversidade constitui «partes de um todo» de uma gigantesca «dimensão cultural Açoriana» que assenta na diversidade e na complementaridade.

Beneficiando de um enquadramento legislativo facilitador da preservação do património baleeiro na Região, foram recuperados (e reconstruídos) mais de 40 botes nos Açores. Em todos, foram adoptadas as antigas técnicas da construção naval, tendo como referencial o «modelo de bote baleeiro do Pico».

Contudo, contemplando o bote baleeiro “SANTA JOANA” percebe-se que na ilha de São Miguel o fabrico destas embarcações seguiu métodos construtivos divergentes, particularmente os contemporâneos ao início da II Guerra Mundial, no arranque da fase pujante da industrialização da caça à baleia nos Açores.

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A canoa SANTA JOANA, do Museu Carlos Machado, em exibição nas galerias do Centro comercial “Parque Atlântico, em Ponta Delgada ( foto António Simas)

O «tabuado horizontal com mata-juntas» foi substituído pelo «tabuado cruzado», tornando o processo construtivo mais barato, mais rápido e mais eficiente. Segundo os antigos baleeiros das Capelas, este método permitiria inclusive aumentar a segurança «no trabalho com a baleia» em caso de abalroamento do cetáceo, uma vez que esta construção seria mais resistente a embates. Há ainda aqueles que realçam as extraordinárias performances à vela e a remos que este design permitiria, sobretudo em mar agreste.

Ora, isto conduz-nos ao centro comercial Parque Atlântico, onde está exposto o bote baleeiro “SANTA JOANA”. Esta embarcação, propriedade do Museu Carlos Machado (1998), constitui uma peça indispensável para a explicação da dinâmica evolutiva do bote baleeiro Açoriano. O seu verdadeiro interesse não reside no simples facto de ser um bote baleeiro, nem tão pouco de ser um bote baleeiro da ilha de São Miguel…

O que justifica a sua classificação como «Património Regional» é o facto de testemunhar o carácter evolutivo no design, nas técnicas e nos métodos construtivos, aspecto que atesta a especificidade dos Açores e confere primordial interesse à baleação Açoriana no contexto mundial. Afinal, não há «um modelo» de bote baleeiro açoriano. Há pelo menos dois!

Isso justifica uma atenção especial para o estudo sistematizado da embarcação, aprofundando o conhecimento sobre o «bote baleeiro de São Miguel», permitindo salvaguardar este modelo diferenciado, contribuindo para preservar as técnicas e métodos construtivos tradicionais também na ilha de São Miguel.

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SANTA JOANA (foto António Simas)

Uma boa oportunidade seria aproveitar uma intervenção de reparação [necessária] no bote “SANTA JOANA”, devolvendo-lhe as capacidades de navegabilidade [mesmo que não volte ao mar] porque esta é a única forma de o preservar para o futuro. Seria do maior interesse a construção de uma réplica do bote que pudesse navegar e explicar ao público este “mundo imenso da baleação Açoriana”. Regista-se que não há nenhum bote baleeiro reconstruído segundo o método construtivo do «tabuado cruzado» a navegar nos Açores!

Seria um projecto do maior interesse, utilidade pública e prestígio para os parceiros envolvidos, designadamente o Museu Carlos Machado e o Parque Atlântico. Certo é que a diversidade e a complementaridade promovem o verdadeiro potencial da história da baleação nos Açores.

O todo é incomensuravelmente maior do que a simples soma das partes!

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