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Construção e Reparação Naval

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Perante a perspetiva do fim de vida das Corvetas e dos Patrulhas, a Marinha Portuguesa tomou a iniciativa com um projeto de substituição destes navios por outros que conseguissem executar as mesmas tarefas e que fossem uma aposta na indústria nacional. Assim se deu início ao projeto de construção daqueles que viriam a ser conhecidos como os NPO (Navios Patrulha Oceânicos), “navios idealizados por portugueses, projetados por portugueses e construídos em Portugal”, como referido pelo Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, no dia da entrega do NRP SINES.

A evolução tecnológica e as grandes diferenças

Há mais de duas décadas que se fala na construção dos NPO para a Marinha Portuguesa, algo que foi consumado com o aumento ao efetivo do primeiro navio, que dá nome à classe, em dezembro de 2011, o NRP VIANA DO CASTELO.

Uma perspetiva do interior da ponte de comando do navio
Uma perspetiva do interior da ponte de comando do navio

Simultaneamente à construção do primeiro navio da classe foi construído o NRP FIGUEIRA DA FOZ, navio este que viria a ser aumentado ao efetivo cerca de dois anos depois, em novembro de 2013. Nestas construções verificou-se já alguma necessidade de alteração de sistemas relativamente ao contratualizado, pois o avanço tecnológico trazia mais capacidades ao nível da operação e automação. Adicionalmente, alguns aspetos de construção foram melhorados do primeiro para o segundo navio da classe, algo que demonstra a capacidade de aprendizagem e aperfeiçoamento na construção.

O NRP SINES só começa a ser construído 3 anos depois de ser aumentado ao efetivo o segundo navio da classe. Esta distância temporal, nos dias que correm de avanço tecnológico célere e constante, impossibilitaram a utilização de diversos equipamentos e sistemas idênticos, isto porque alguns equipamentos mais recentes aperfeiçoavam a operação e também pela descontinuidade no fabrico de um ou outro sistema. Por estas razões, cerca de 80% dos equipamentos e sistemas do NRP Sines são distintos dos dois primeiros navios da classe.

Importa, portanto, referir algumas das alterações que tiveram maior impacto na construção e que efetivamente trouxeram mais capacidades ao navio e aproximaram a Marinha do progresso tecnológico, assim como aquelas que se mantiveram por mostrarem manter-se eficazes.

Aspeto da ponte do NRP SINES com a guarnição em postos de faina
Aspeto da ponte do NRP SINES com a guarnição em postos de faina

SISTEMA INTEGRADO DE GESTÃO DA PLATAFORMA – Esta classe de navios possui um sistema apelidado de SIGP – Sistema integrado de gestão da plataforma, também conhecido como IPMS (Integrated platform management system). O SIGP é um sistema de automação que permite o controlo remoto e a monitorização de equipamentos e sistemas. É um sistema de automação digital, com aquisição de sinais, processamento e controlo, distribuídos por subestações e providencia uma monitorização extensa da plataforma permitindo adicionalmente, em tempo real (útil) que os elementos da guarnição tenham uma visão precisa do estado em que se encontram todos os sistemas da plataforma, incluindo o estado do próprio sistema. Este sistema foi desenvolvido pela Rolls-Royce, de acordo com os requisitos definidos pela Marinha Portuguesa, sendo que nos novos NPO houve uma evolução no hardware e software, tornando o sistema mais redundante e fiável.

Um militar operando o SIGP, um sistema de automação que permite o controlo remoto e a monitorização de equipamentos e sistemas
Um militar operando o SIGP, um sistema de automação que permite o controlo remoto e a monitorização de equipamentos e sistemas

PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA – Quanto à instalação elétrica existem algumas modificações, nomeadamente na melhoria do processo de distribuição da energia relativa entre geradores, tornando-a assim mais eficiente. Os próprios geradores são diferentes dos anteriores, tendo sido ajustada a sua potência e adequada às necessidades tornando este sistema mais adaptado às exigências de um navio altamente automatizado e com uma guarnição reduzida.

SISTEMAS AUXILIARES – Em termos dos sistemas auxiliares, nomeadamente, ar condicionado e sistemas de frio, foram redimensionados às necessidades da plataforma e criadas mais redundâncias.

MEIOS ORGÂNCIOS E DE MOVIMENTAÇÃO DE CARGA – Os novos NPO estão providos de dois meios de movimentação, um turco e uma grua, de características e especificações técnicas distintas dos meios de movimentação dos primeiros NPO. Além das características físicas distintas, os novos meios de movimentação de carga foram melhorados tendo em vista as lições aprendidas da experiência obtida nos dois primeiros NPO. Com o turco do SINES e do SETÚBAL, o arriar e içar da embarcação pode ser efetuado em qualquer posição, inclusivamente junto ao costado, o que nos VIANA DO CASTELO e FIGUEIRA DA FOZ não é possível. A grua dos novos NPO apresenta várias diferenças de operação relativamente aos anteriores, nomeadamente uma lança móvel para movimento de cargas (apenas operável com o navio atracado) e um modo de operação dedicado à embarcação que irá ser utilizada a bordo. A primeira diferença permite a utilização da grua para movimentar carga que esteja a maior distância. Os meios orgânicos de bordo, as duas embarcações a jato de água, são distintas das dos dois primeiros navios da classe. Estas embarcações adquiridas à Palfinger, cumprem todos os requisitos IMO (International Maritime Organization) de fast rescue boat (embarcação rápida de salvamento marítimo) e possuem diferenças não apenas ao nível estrutural, mas também de alguns equipamentos de navegação e salvamento que foram providos para aumentar ainda mais a capacidade dos meios de bordo para as várias tarefas executadas, especificamente para a busca e salvamento marítimo.

A nova e evoluída grua de movimentação de cargas com uma das modernas embarcações Palfinger, propulsionada a jato de água.
A nova e evoluída grua de movimentação de cargas com uma das modernas embarcações Palfinger, propulsionada a jato de água.

SISTEMAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÕES – Nesta área, caracterizada por constante desenvolvimento tecnológico, a Marinha optou por integrar, pela primeira vez, um NPO no domínio de Marinha, isto é, a estrutura, segurança e gestão da rede de bordo passou a ser conduzida e supervisionada de acordo com os critérios do organismo diretor técnico, a DITIC (Direção de Tecnologias de Informação e Comunicações). Por outro lado, no que concerne à integração da informação de todos os equipamentos e sensores, passou a ser efetuada por um sistema integrador de informação (SII) autónomo, melhorando assim a fiabilidade deste sistema.

ARMAMENTO – Visualmente conseguimos detetar a ausência de uma peça de artilharia à proa: a peça Oto Melara 30mm não se encontra instalada a bordo, por se encontrar em processo de aquisição. Está previsto ser idêntica à dos outros navios da classe. Para colmatar esta ausência foram instaladas duas softmounts localizadas a ré da ponte junto aos rufos das chaminés, uma em cada bordo, para a utilização de metralhadoras Browning de 12,7mm. Nestes locais, nos dois primeiros navios da classe são montadas duas metralhadoras HK.

A ré da ponte junto aos rufos das chaminés, foram instaladas duas softmounts, uma em cada bordo, para a utilização de metralhadoras Browning de 12,7mm
A ré da ponte junto aos rufos das chaminés, foram instaladas duas softmounts, uma em cada bordo, para a utilização de metralhadoras Browning de 12,7mm

De uma forma geral, tendo realçado as principais diferenças entre os primeiros e os novos NPO, é notório que os novos NPO apresentam um conjunto de equipamentos com características diferentes dos primeiros navios da classe. Grande parte das diferenças resultam numa natural evolução tecnológica dos equipamentos marítimos, mas sem alterar a capacidade operacional da plataforma para a qual esta classe de navios foi idealizada. É justo dizer que estes novos NPO representam uma nova geração.

Certo, será também dizer que algumas das características e dos padrões de exigência destes navios de patrulha oceânica mantêm-se imutáveis, como seja, as boas qualidades náuticas, os elevados padrões de habitabilidade, o nível elevado de tecnologia e automação, a autonomia e endurance da plataforma e, consequência de tudo isto, a possibilidade de operarem com uma guarnição reduzida.

Patrulha… será?

Usando as palavras de um camarada mais antigo: “Os NPO são patrulhas de nome, corvetas de tamanho e fragatas em complexidade”. Efetivamente, estes navios trouxeram um salto tecnológico e uma capacidade de executar diversas tarefas, algumas delas que não eram possíveis nem com uma Corveta, como por exemplo a aterragem de um helicóptero, tudo isto com uma Guarnição reduzida de 44 militares. O desafio é enorme, mas a satisfação em ultrapassá-lo é ainda maior!

O NRP SINES a navegar na ZEE nacional
O NRP SINES a navegar na ZEE nacional