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Património Cultural Marítimo

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CATRAIA-DE-PESCAR, CONGREIRO

A 20 e 21 de Outubro de 2011 levei a cabo uma entrevista a um dos mais antigos pescadores da Póvoa de Varzim, à data com 85 anos, sobre a sua actividade de várias décadas, desde a pesca em barcos locais à vela até ao advento da motorização da pesca. Os relatos recolhidos focam-se principalmente na actividade da pesca à linha à vela.

João Bonito dos Santos, alcunha “Beira Alta” – Póvoa de Varzim, 1926. Marca “meia pena”

Nasci na Rua da Lapa, nr.26.

Eu comecei a andar ao mar com 12 anos, nesses barcos à vela. O primeiro em que andei chamava-se “Recordação 2.ª”. Era um barco que já pertencia aos meus pais e foi feito aqui no Sr. Joaquim, na Caverneira, mas não me lembro do ano. O comprimento do barco era 21 palmos, naquele tempo era por palmos, não por metros. Quando o barco ficou pronto, a gente não fazia festa nem nada; estava pronto para ir para a água, preparava-se tudo e metia-se para baixo. Levava 4 remos de cada lado. A construção dos barcos naquele tempo não levava muito tempo. Por exemplo uma catraia levava uns quatro ou cinco meses a fazer, sempre em estaleiros ao ar livre.

O tratamento que dávamos ao barco era um bocado de óleo de fígado do peixe; derretia-se, dava-se com um escopeiro e depois fazia-se um bocado de breu que era por via também de tapar as costuras do barco, isto todos os anos e só pela parte de dentro. Pela parte de fora era tintas. Era usual botar uma ferradura à proa do barco, por dentro do caixão. Os barcos desde pequenos aos grandes eram quase todos em pinho e só a labaça da quilha (também de pinho) era em sobro, pois andava constantemente abaixo e acima nos paus e aguentava mais. Quando estivesse a labaça coçada, tirava-se e levava uma nova. Alguns barcos também usavam uma tira em ferro na roda de proa, que terminava mais ou menos quando começava a recta da quilha. Quando o barco era novo, o mastro e a verga ia-se buscar tudo à bouça. Escolhíamos mais ou menos, aqueles mais direitos por via de não ter de ser vergado, mas alguns até metíamos entre umas pedras um bocadinho ao alto, os que estavam assim um bocadinho mais vergados e botava-se então um peso em cima para aquilo enquanto estavam meios verdes endireitar. Depois quando estavam secos ficavam direitos. Quando se ia para o mar levava-se mastro e uma verga só. Se a verga partisse, tinha-se emendá-la. Quem levava duas vergas eram as lanchas, mas as catraias só uma.

Leme só se levava um. Mesmo as lanchas só levavam um. Em caso de alguma aflição, usava-se então um remo. Com bom tempo, como o leme empatava um bocado a água, então tirava-se o leme fora para cima e botava-se o remo pela popa, enquanto o pessoal remava. Com um remo o barco ia mais leve a navegar.

Estaleiro do mestre Joaquim, na Caverneira, Póvoa de Varzim circa 1960. Foto, Centro Português de Fotografia.

O meu pai era quem fazia os panos, mas fazia só para os barcos dele. Talhava os panos botando os fios na areia, que era onde se trabalhava as medidas e depois mandava coser, mas ele também os cosia, tudo à mão.

O tratamento dado à vela para ela durar tempo era pintura. Cozia-se um bocado de casca, botava-se depois um pó por via de fazer a cor que se queria. Podia ser em castanho, ou em azul a cor que se entendesse. As nossas velas dos barcos eram em azul, sendo que a maior parte dos barcos eram todas em castanho, mas também muitas brancas, sem tratamento. O problema dessas era que ganhavam mais caruncho depois de algum tempo, da água, e quando eram pintadas, já não deixava ganhar tanto o que a gente chamava “a purga”, essa espécie de caruncho. Sem o tratamento os panos iam apodrecendo e ao fim de três, quatro anos era preciso fazer uma vela nova.

Era uma catraia de pescarmos à linha ao congro, ia-se para os profundos, ao cherne, à pescada, gorazes, eram diversas pescarias. À linha também se apanhavam muitos cações, lixões, forretas, tintureiras, alguns de tamanhos enormes.

A companha no “Recordação 2.ª” eram para aí 7, 8 homens, era o que se usava. O máximo eram os 8 homens e usava-se um rapaz, como eu fui. As funções do rapaz novo que ia a bordo eram, em terra, dar sebo na quilha do barco tanto para o mar no bota-abaixo como para terra no ala-arriba; tinha de botar os toletes nos corredores, que se encontravam guardados no caixão de ré; as cunhas do mastro, os malhetes das galeotas. Quando não se ia ao mar, o rapaz tinha a canseira de vir ao barco tirar todo o material guardado no caixão de modo a tomar ar. O caixão era tapado e reforçado com um ferro e aloquete. Ficava aí também a agulha de marear, baldes, bartedouros, tralhas de prender os mastros, chumbadas de chumbo e de ferro, etc. O rapaz em terra também tinha de encher o barril da água e essa era a primeira tarefa de todas antes de tratar do caixão. A linha da sonda era também responsabilidade do rapaz que a tinha de trazer para o mar, caso o mestre não o fizesse. Depois então no mar, quando era preciso um engodo, pegando nas cabeças de algum peixe como a sardinha, carapau, faneca, metia-as num pio e pisava-se aquilo bem pisado. Depois junto com um bocado de areia, embrulhava-se o macerado numa rede presa a uma linha e deixava-se ir para o fundo; quando tocasse no fundo, começava-se a puxar aquilo de modo a ir desfazendo e assim atrair peixe ali para a beira. O rapaz só depois de dois, três anos a andar ao mar é que começava a pegar numa linha de pescar.

A comida que levávamos para o mar, ao princípio era em cestas, depois estas foram desistindo e apareceram os foquins de madeira feitos pelos tanoeiros, depois destes foram aparecendo os baús em chapa feitos pelos picheleiros, de vários tamanhos, onde se levava o tachinho, a garrafa do vinho, a panelinha da sopa, o pão, etc. Quantas vezes se houvesse, o que se levava para comer era uma laranja e um bocadinho de pão.

Congro, (“conger conger”), comprimento máximo 3 metros, peso máximo 110 kg. Foto, wikimedia.

Para a nossa pesca, (congro e profundos, cherne, goraz, melo, abróteas, peixe-pau) saíamos da parte da manhã, aí entre as nove e o meio-dia e passava-se ao regresso ao outro dia só à tardinha. Passávamos toda a noitinha no mar. Não ficava ninguém de vigia porque de noite estávamos todos a pescar. Pescávamos toda a noite. De dia pescávamos aos gorazes, ao peixe miúdo e à noite pescávamos ao congro, um homem a cada banco e o de ré, o mestre, também pescava. Eram uns de cada lado. A faneca, carapau ou goraz eram uma isca mais dura que a sardinha e aguentava mais no anzol. Nós no mar escalávamos esse tipo de peixes para substituir a sardinha, por via de usar no profundo ao congro, que pescávamos durante a noite. Como havia muita pulga no fundo, a sardinha era por esta muito sugada e o congro chegando ali não comia. Mas a isca principal no resto da pesca era sempre a sardinha. Quando era para pescar só ao congro com linha de mão, era um anzol grande e comprido que se usava, já dobrado era mais longo que um dedo. Às vezes vinham congros de duas, três arrobas.

Sobre os locais de pesca por onde se andava, a viagem com a catraia grande lá mais fora levava três, três horas e meia e com a catraia pequena eram mais ou menos três horas e um quarto. Os nomes dos pesqueiros, tínhamos a Quebrada, Beirada, as Lages, que era pousado na pedra e tínhamos os profundos que era já para pescar peixes diferentes, como o cherne, o melo, o sarrão, a pescada. Ia-se pescar por vezes para noroeste de Viana, a Oeste nos nossos pesqueiros, ia-se para o sudoeste de Aveiro para os profundos, mas aí era muito raro, não se podia facilitar por ser com barcos de vela. Era preciso ter vento suficiente para levar e para trazer e só se ia mais no Verão, cerca de Julho. Agosto e Setembro já não se facilitava tanto.

Mal se chegava ao pesqueiro, mastro e verga eram desmontados. Os barcos congreiros não usavam forquetas, pois pousavam sempre mastro e verga ao comprido a meio do barco, onde aí não empachavam ao trabalho, uma vez que a pesca à linha era manobrada dos dois lados da embarcação. Ao meio, em cima dos bancos e da galeota ficava toda a “madeira”: mastro e verga, que se prendiam à proa no caramelho, remos e leme, nada ficava amurado. O pé do mastro ficava contra o capelo da proa.

Morfologia subaquática entre Caminha e Ovar. Foto, google maps.

Quando não se matava pesca numa pedra onde se estava, procurava-se outro sítio, que seria aí meia hora ou uma hora a remar, nunca à vela. Mal se ancorasse de novo, passavam os remos para o meio.

Nas artes da pesca à linha, cada pescador é que tinha de levar as suas linhas prontas, incluindo o mestre que levava a sua. Se na minha linha de trol viessem cinco congros, os cinco repartiam pela companha, ou seja, todo o pescado era junto e depois repatido; metade era logo pertença do barco e a outra para a companha, mas antes dessa divisão era logo tirado o montante para a despesa.

Para lastro, os barcos levavam sacos de areia, todos eles. Eram três, quatro sacos de arroz e alguns mais pequenos, por via de um homem pegar neles sozinho. Esses mais pesados, usavam-se a meio do barco e os outros é que se iam ajeitando por barlavento por via do barco não tombar muito. Todos os dias se levavam os sacos, cheios de areia da praia com um bertedouro e quando se vinha do mar, esvaziavam-se. Quem tratava disso eram os camaradas e as mulheres, que ajudavam a encher os sacos.

Para ancorar o barco usava-se um ferro macho, de duas unhas que era quando o fundo era limpo (arenoso), mas a maior parte era tudo poita. No barco tinha-se pelo menos duas armadas e sempre uma ou duas sobresselentes que se levava debaixo da cadeira de ré, debaixo da pana, sempre à cautela. As poitas eram quase como marcos (geodésicos, granito), graúdos, que nós íamos buscar às pedreiras.

Mal a gente chegava à praia vindos da pesca, antes de varar tirávamos primeiro a madeira de dentro do barco: mastro, verga, remos, leme e levava-se tudo para cima, para o barco ficar mais leve e para desempachar. Por vezes pegava-se também nas poitas de pedra e carregavam-se às costas para cima de modo a aliviar ainda mais o barco. Chegados à praia, tínhamos um cabo ao qual chamávamos “do estai” que enfiávamos pelo buraco na quilha à ré e depois levado para cima era puxado por muita gente. Para varar, as catraias necessitavam de uns três homens de cada bordo do barco e este vir direito para cima sobre os paus. Quando os paus acabavam, deixava-se o barco adornar a um lado, dava-se um bocado de sebo debaixo da quilha para correr melhor nos paus e não custar tanto a varar. Deste pessoal que puxava a corda por vezes até vinham tropas que andavam a passear, quando era com mau tempo. Mesmo banhistas de fora a passar o seu tempo de praia vinham ajudar, pois gostavam de ver aquilo, o falar, o “Ala-arriba! Ala-arriba!”. E quantas vezes apareciam no areal em força vindos da praia dos banhos, só para ver os barcos a chegar e a encostar aqui à praia, a varar e a puxar pelo cabo. Eles gostavam muito de ver.

Catraia-de-pescar em acção de ala-arriba após a faina na Póvoa de Varzim, circa 1950. Foto de autor desconhecido.

De outros barcos que me lembre dessa altura, um era o “Novo Triunfo”. Este barco foi o que participou no filme “Ala-Arriba” e era pintado em verde, cujos donos viviam aqui à beira do casino. Por acaso lembro-me dessa altura em que estavam cá a fazer o filme, embora fosse rapaz pequeno. Eles com um molho de carqueja e um regador da água a fazer a tempestade, com uma ventoinha e o pessoal a vir a correr aqui para a Sr.ª da Lapa, ajoelhados. Estiveram aqui uma teca de tempo, quase um Verão todo e filmaram tudo ali em frente ao casino.

Nos nossos barcos usávamos a bandeira portuguesa pintada à proa. Um deles tinha também uma bandeira belga à popa, dos dois lados, por via de ir aos arrastões (belgas) para dar um bocadinho de graxa aos comandantes. O contacto com eles fazia-se por gestos e por via de nos darem peixe, levávamos uns xailes de merino usados naquele tempo e que custavam bom dinheiro, levava-se umas voltas de ouro por via de oferecer tudo ao comandante, umas garrafas de bebidas alcoólicas. No fim da troca, se fosse um caso de eles nos estarem a dar valor de 1.000$00, nós dávamos valor cerca de 100$00. Eles carregavam-nos o barco de peixe até a gente não querer mais, o peixe que eles não queriam, tipo a pescada miúda, carapau ou peixe-espada. O que eles queriam mais era o linguado e depois a raia e o congro, tudo o resto era deitado fora ao mar. Eram barcos graúdos em ferro, pareciam vapores. Mas era mais pelas chaminés e pelos emblemas que tinham que sabíamos que barcos eram. Os franceses também vinham para aqui à lagosta com barcos à vela e motor auxiliar; os espanhóis vinham com barcos vermelhos de chaminés muito altas, as mais altas de todos os estrangeiros.

Arrastão a vapor “Rosetta”, construído em 1907, Aberdeen. Era comum pescadores belgas, entre outras nacionalidades, usarem estes arrastões típicos britânicos. Foto, cortesia de Alan Hirst.

Os peixes mais raros ou estranhos que me lembre de apanhar ao anzol, foi dois bacalhaus que apanhei aqui na nossa costa, um na Galega e outro aqui no fundo da Quebrada. Por acaso estava connosco um homem que andou muito tempo no bacalhau a quem chamávamos o Pouca-Rama e disse logo ele: “Hei, ainda me vens parar aqui? Deixei esta vida do bacalhau e agora ainda me vens parar aqui?”

Gostava de voltar a ver esses barcos antigos outra vez a navegar, mas andar neles já não gostava (risos).  A idade agora… o gostar deles naquele tempo, gostava, a gente era novo.