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Despacho 100

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Um navio “feliz”, que navegou sob três bandeiras, sueca, portuguesa e grega, e deixou boas recordações em Portugal.

O navio tanque MARÃO foi o mais moderno dos três petroleiros de origem sueca adquiridos a peso de ouro pelo Estado Português na década de 40 do século passado, para minorar os problemas de abastecimento de combustíveis líquidos com que o País teve de lutar durante a II Grande Guerra Mundial, pelo facto de a nossa Marinha Mercante não dispor de petroleiros.

O MARÃO fora acabado de construir na Suécia em 1943, mas só foi possível concretizar o seu afretamento pelo Instituto Português de Combustíveis (IPC) em 1945, já no final da guerra, seguindo-se a compra e depois a cedência à SOPONATA, entretanto constituída para ter o exclusivo dos navios petroleiros portugueses, e que tão importantes serviços prestou à nossa economia.

O NT GlIMMINGEHUS no dia 14 de janeiro de 1943, na cerimónia de lançamento à água, no estaleiro Kockums em Västra Hamnen, Malmö (fotografia de Arne Andersson, Bohuslän museum)
O NT GlIMMINGEHUS no dia 14 de janeiro de 1943, na cerimónia de lançamento à água, no estaleiro Kockums em Västra Hamnen, Malmö (fotografia de Arne Andersson, Bohuslän museum)

O MARÃO foi um navio feliz, tendo navegado com três nomes e sob três bandeiras: sueca, como GLIMMINGEHUS (o nome de um castelo medieval em Scania); portuguesa, como MARÃO, alimentando a tradição adotada pelo IPC e mantida pela SOPONATA e Sociedade Geral de se denominar os petroleiros com nomes de serras, e por fim a bandeira grega e o nome HENRIETTA (nome da mulher do armador Latsis), quando foi um dos primeiros petroleiros a integrar a frota do famoso armador grego John Latsis, que mais tarde seria o último proprietário do nosso paquete PRÍNCIPE PERFEITO e um dos 100 homens mais ricos do mundo.

O NT MARÃO visto da alheta de EB
O NT MARÃO visto da alheta de EB

Entre nós, o MARÃO deixou tão boas recordações que o seu nome foi repetido num segundo MARÃO, que integrou a frota da SOPONATA de 1973 a 1992. O casco foi construído na Margueira pela Lisnave e o acabamento feito na Suécia (Eriksbergs); com 135.351 toneladas de porte bruto foi o primeiro de três gémeos da classe M, que incluía o MONTEMURO e o MAROFA, os quais, com o ORTINS BETTENCOURT (1973-1993), de dimensões semelhantes, mas feito no Japão, se destinavam a abastecer a refinaria da Boa Nova, em Leça da Palmeira, tendo sido construídos com as dimensões máximas possíveis em Leixões. Tempos em que havia a preocupação de assegurar o transporte das importações de importância económica estratégica em navios nacionais. Enfim, histórias de antigas maritimidades, que sabe bem recordar no atual contexto de penúria marítima nacional.

MARÃO (1947-1961)

Características técnicas: Navio-tanque a motor, construído de aço, em 1942-1943. Nº Lloyd´s: 5514781. Nº oficial: G 485. Indicativo de chamada: CSIP. Porto de registo: Lisboa (registado na Capitania do Porto de Lisboa a 27-01-1947, Livro 17, fls. 36). Arqueação bruta: 8.604 tons; Arqueação líquida: 5.383 tons; Porte bruto: 13.375 tons. Capacidade de carga: 19 tanques para 17.845 m3 de combustíveis líquidos a granel. Comprimento ff.: 151,26 m; Comprimento pp.: 141,73 m; Boca: 18,90 m; Pontal: 10,51 m; Calado: 8,36 m. Máquina: 1 motor diesel MAN Kockums de 7 cilindros, construído em 1943. Potência 4.500 BHP a 110 rpm, 1 hélice de 4 pás. Velocidade: 14 nós. Tripulantes: 40. Custo: 7.000.000 de coroas suecas, cerca de 41.300.000$00.

História: O MARÃO foi construído em Malmo, na Suécia, por Kockums Mekaniska Verkstads A.B., (construção nº 248), por encomenda do armador sueco Trelleborgs Angfartygs Nya A.B., de Trelleborg. A quilha foi assente a 20-05-1942, tendo o lançamento à água ocorrido a 14-01-1943, com o nome GLIMMINGEHUS e a entrega ao armador a 11-05-1943. O navio gémeo LILLOHUS foi entregue em 1942.

Como consequência da II Grande Guerra, o GLIMMINGEHUS foi utilizado de 1943 a 1945 como armazém tanque flutuante de produtos petrolíferos ao serviço da refinaria de Karlshamm, na Suécia.

O navio como armazém tanque flutuante de produtos petrolíferos ao serviço da refinaria de Karlshamm, na Suécia. (imagem do http://www.varvshistoria.com)
O navio como armazém tanque flutuante de produtos petrolíferos ao serviço da refinaria de Karlshamm, na Suécia. (imagem do http://www.varvshistoria.com)

A 22-05-1945 foi fretado a tempo (time charter), com opção de compra, pelo organismo estatal Instituto Português dos Combustíveis (IPC), de Lisboa, efetuando 10 viagens de abastecimento de combustíveis líquidos refinados com bandeira sueca, a última terminada em Lisboa a 18-12-1946. Comprado pelo Instituto Português de Combustíveis a 2-01-1947, foi entregue e embandeirado a 14-01 em Lisboa,

numa cerimónia efetuada a meio do rio Tejo, com a presença dos Srs. Ministros da Marinha e da Economia, Secretário de Estado do Comércio e Indústria (notícia de O Diário da Manhã, de 15-01-1947),

… e muitas outras personalidades de relevo na vida marítima de então e do Embaixador da Suécia, alterando-se o nome para MARÃO, tendo o IPC confiado a gestão técnica do navio à Companhia Colonial de Navegação.

Foi primeiro Comandante do MARÃO o Capitão Henrique Ciríaco de Gouveia, então o único oficial da Marinha Mercante no ativo condecorado com a Ordem da Torre e Espada. A 15-01-1947 o MARÃO largou do Tejo para Puerto de La Cruz (Venezuela), na primeira de 5 viagens ao serviço do IPC, em que transportou 62.195 tons de carga.

O MARÃO foi comprado pela SOPONATA – Sociedade Portuguesa de Navios Tanques a 7-08-1947, por 40.927.500$00 e registado na Capitania do Porto de Lisboa a 4-09-1947, Livro 17, fls. 43, quando alterou o nº oficial para G – 492. O navio foi entregue em Lisboa a 28-09-1947, data em que largou para Curaçau, tendo como Comandante o Capitão Alberto Freitas Cruz.

O MARÃO foi um dos navios mais prestáveis de entre a primeira geração de unidades da empresa, tendo completado 110 viagens para a SOPONATA até à sua imobilização em Lisboa a 3-09-1960.

O navio registou poucos incidentes, mas a 2-03-1951 abalroou o iate-motor MAR NOVO, ao atracar ao molhe sul de Leixões, devido a avaria na máquina; a 3-07-1952 encalhou no Canal do Suez por avaria no leme, foi desencalhado por um rebocador da Companhia do Canal e prosseguiu viagem para o Mediterrâneo.

O armador grego Ioannis Spyridon Latsis (John S. Latsis) 1910- 2003
O armador grego Ioannis Spyridon Latsis (John S. Latsis) 1910- 2003

A SOPONATA foi autorizada a vender o MARÃO por despacho de 23-09-1960 do Ministro da Marinha, Almirante Quintanilha, após o que o navio foi vendido a 30-12-1960 ao armador grego Ioannis Spyridon Latsis (John S. Latsis). Entregue em Lisboa a 5-01-1961, passou a chamar-se HENRIETTA, e foi registado na Grécia, navegando por mais 4 anos. Vendido para desmantelamento na Jugoslávia, chegou a Split a 13-03-1965, onde se procedeu à sua demolição.