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Desportos Náuticos

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É habitual identificar-se uma competição de vela, com a observação de uma frota de barcos monotipo, ou não, num campo de regata, que inicia a competição ao som do tiro de largada, completando um percurso pré-estabelecido, normalmente com a obrigatoriedade da rondagem de várias bóias ou obstáculos, terminando num local limitado por dois pontos que se chamada linha de Chegada.

Para o vulgar observador do desporto Vela, a palavra Match Racing pouco lhe depreende o significado que se trata, contudo é a disciplina da modalidade responsável pela forma de competição à vela, que se orgulha de ter induzido o mais antigo Troféu mundial desportivo – America’s Cup (Taça América). Criada em 1851. 169 anos de história de Vela e de Match Racing.

Então o que é o Match Racing? Dois barcos iguais, dois Árbitros, duas balizas e uma linha de largada/chegada. São estes os requisitos necessários para se competir, nada mais fácil!

O Match Racing é uma especialidade da Vela de competição que significa essencialmente “regata a dois” ou seja que a regata é efectuada como um duelo entre dois barcos. Os velejadores não necessitam de comprar barco próprio nem de adquirirem dispendiosos e sofisticados equipamentos para poderem vencer. Não ganha o que tiver o melhor barco, mas aquele que for técnica e tacticamente superior.

A primeira prova que poderíamos chamar de Match Racing e de que há conhecimento, teve lugar em 1661 no rio Tamisa, disputada entre o rei Carlos II e o seu irmão.

Mas o primeiro Match Racing corrido em barcos idênticos foi a Omega Gold Cup, nas Bermudas, em 1937 cujo vencedor foi Briggs Swift Cunningham, que aliava a paixão da construção e corridas de automóveis à vela, venceu a primeira America’s Cup disputada na classe 12 metros.

Por o Match Racing ser fácil de organizar, competir e decifrar o desenrolar da competição, torna-se também a forma adequada e mais honesta de se apurar quem é o melhor, para além de outros benefícios que apresentaremos ao longo desta longa história.

Foram estes válidos atributos que estimularam Armando Goulartt a implementar esta disciplina em Portugal, tornando-se o 1º árbitro internacional (umpire) da modalidade no país, título que juntou aos restantes que possuía e o distinguiram durante muitos anos como o único no mundo a angariar a categoria de internacional nas três vertentes: Oficial de Regata, Juíz e Umpire. Estávamos no ano de 1994.

Armando Goulartt, um dos mais prestigiados velejadores portugueses na vela internacional, onde foi competidor, juiz, árbitro de regatas. Presidiu a Comissão Nacional de Match Racing entre 1995 e 2002
Armando Goulartt, um dos mais prestigiados velejadores portugueses na vela internacional, onde foi competidor, juiz, árbitro de regatas. Presidiu a Comissão Nacional de Match Racing entre 1995 e 2002

Então o que era preciso e por ele foi idealizado e realizado?

Incentivar adeptos a aderirem a esta forma de competir, sensibilizar a federação e clubes a optarem pela realização de campeonatos regionais e nacionais, angariar barcos capazes de satisfazerem os requisitos necessários no cumprimento dos regulamentos que gerem a especialidade de Match Racing. Sim, porque as próprias Regras de Regata à Vela (RRV), publicadas quadrienalmente pela World Saling (WS, organismo que tutela a Vela mundial) existem para esta especialidade. Estas regras têm um capítulo próprio relativo ao Match Racing no livro RRV, sendo específicas, orientadoras e explicativas, para, e na, forma de organização de provas e da conduta desportiva em competição.

O mais difícil estava feito, o tiro de largada estava dado!

A argumentação para a angariação de adeptos era de convicção, pois todos os argumentos do Match Racing são apelativos:

  • Pode ser praticado por todos, desde a regata de clube até às provas internacionais de alto nível;
  • Os praticantes competem em igualdade, pois os barcos são iguais e mesmo assim vão sendo utilizados rotativamente;
  • Os velejadores não necessitam de comprar barco próprio nem de adquirirem dispendiosos e sofisticados equipamentos para poderem vencer;
  • Não ganha o que tiver o melhor barco, mas aquele que for técnica e tacticamente superior;
  • As decisões dos Árbitros são instantâneas e o primeiro a chegar é o vencedor;
  • O jogo é simples e compreendido por todos: velejadores, espectadores e comunicação social.
O Match Racing em Portugal - surgimento (1ª parte) 50
Lisboa, Belém, durante o Campeonato Nacional 2008, em regata no rio Tejo (imagem A. Peters)

Isto é o Match Racing…

Chegava a hora de pôr em prática a acção na água, os velejadores aderiram em força à chamada, criaram-se bastantes equipas de velejadores, clubes entusiasmados na organização de provas, a federação sob a égide do Presidente do Conselho de Arbitragem, o entusiasta Goulartt, liderava o processo e os primeiros ensaios “a sério” começaram, foram com embarcações iguais, embarcação espanhola, classe Fortuna, alugadas a federação de origem para a realização do primeiro campeonato nacional, embarcações que não foram do agrado generalizado, mas na altura foram o possível e viável, no ano seguinte recorreu-se ao First Class 8, mas a comunidade da vela começava a querer mais e melhor.

A federação, sob a batuta do mentor A. Goulartt, respondeu ao apelo, adquiriu quatro excelentes robustos barcos J24, a melhor opção no momento. Pelo pioneirismo e estímulo no incremento da especialidade no país e no mundo, a argumentação na negociação com o fabricante foi categórica e este resignou-se aos factos, cedendo os barcos novos a custo de saldo. Excelente acordo do maestro, todos os protagonistas estavam a postos para a “sinfonia”. Quatro barcos e respectivos atrelados de qualidade, com uma série de equipamento de substituição e velas eram propriedade da federação. Novo ensaio do maestro, criou-se uma activa Comissão de gestão, toda ela pro bono, que desenvolveu trabalho de organização profissional, capaz de satisfazer todas as exigências relacionadas com a actividade e sua gestão pré e pós eventos. A “orquestra” podia e percorria o país de Norte a Sul e ilhas (Açores e Madeira). Que mais se poderia querer?

– O céu? Mas aí não havia Mar!

Ânimo era a palavra de ordem em todos os músicos da orquestra, trabalhava-se para um futuro de sustentabilidade da Vela e cultura desportiva do país, todos queriam partilhar as partituras.

Quais os “concertos” que agora se escutam?

A História do Match Racing em Portugal é longa e tinha tudo para dar certo, mas nem sempre os desígnios dos decisores percebem e sabem decifrar/governar em prol do benefício colectivo que lhes é oferecido.

É uma história que nós Revista de Marinha acompanhámos e queremos partilhar a sua continuidade com os nossos leitores. Fica a promessa de se ouvir o som dos concertos e dos aplausos dos eventos que contribuíram para esta História que, acreditamos sejam ainda um dia possível repetirem-se quando deixarem os músicos tocarem.

 

Que se escute a bordo a sinfonia do “Mar de Portugal”.