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Marinha de Guerra

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O NS[1] MIRCEA da Marinha Romena fez, mais uma vez, escala em Lisboa. Atracou em 12 de julho no Cais da Rocha em Alcântara, no âmbito da viagem de instrução de 2019, largando na manhã de 15 de julho com destino a Valeta, em Malta.

 Cadetes portugueses a bordo na viagem de instrução de 2019

A presente missão deste grande veleiro iniciou-se em 5 de maio, em Constança no Mar Negro, estando previsto praticar 12 portos europeus de 10 países até 7 de agosto, data a que regressa à Constança, o seu porto base. O navio regressa da Europa do Norte, onde participou no famoso encontro de grandes veleiros Armada de Rouen, em França, na regata Liberty Tall Ships Regatta e no festival náutico Scheveningen Op. Sail, na Holanda. Depois destes eventos atracou em Hamburgo, onde foi realizada uma cerimónia de celebração do 80º aniversário do navio, que contou com a presença de diversas entidades da Marinha Romena e da Marinha Alemã. Sob as ordens do comandante do navio, Comandorul Mircea Tarhoaca, o NS MIRCEA está a praticar os mesmos portos da sua primeira viagem, realizada em 1939, comemorando assim o seu 80º aniversário. Nesse ano o navio largou de Hamburgo, onde foi construído, a 29 de março, atracou nos portos de Southampton, Lisboa, Valeta e entrou pela primeira vez em Constança, a 17 de maio de 1939. Ao longo destes 80 anos o NS MIRCEA já praticou diversos portos da Europa, Médio Oriente, Norte de Africa e Norte da América.

NS MIRCEA a navegar à vela com todo o pano (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
NS MIRCEA a navegar à vela com todo o pano (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

Na viagem de 2019, para além dos 57 cadetes da Escola Naval romena e dos 32 alunos da Escola de Sargentos, encontram-se embarcados dois oficiais albaneses e 13 cadetes estrageiros das Marinhas da Bulgária , China, França, Polonia, Portugal e Ucrânia. Em representação da Marinha Portuguesa encontram-se atualmente embarcados o cadete Martin Fedorchuk e o cadete Martins Sousa, do 4º ano da Escola Naval, que começaram a sua missão em Lisboa e irão navegar até Constança. Estes cadetes renderam o cadete Caldeira Chaves e o cadete Clara Marques, do 3º ano, que iniciaram a sua experiência neste navio escola em 26 de junho, em Hamburgo, terminando-a na capital portuguesa.

O comandante Mircea Tarhoaca com dois dos cadetes portugueses embarcados no navio romeno (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
O comandante Mircea Tarhoaca com dois dos cadetes portugueses embarcados no navio romeno (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Cadetes portugueses embarcados no NS MIRCEA subindo pela enxárcia do mastro grande (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Cadetes portugueses embarcados no NS MIRCEA subindo pela enxárcia do mastro grande (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
O cadete Caldeira Chaves durante a formatura no poço do navio (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
O cadete Caldeira Chaves durante a formatura no poço do navio (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

Durante a presente viagem de instrução os cadetes que se encontram embarcados tem oportunidade de manobrar e operar com o velame o navio, realizar as funções de marinheiro do leme, vigia e ronda e praticar navegação costeira. Todas estas funções são intercaladas com aulas de diversas disciplinas.

Navio em faina geral de mastros (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Navio em faina geral de mastros (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Navio em faina geral de mastros (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Navio em faina geral de mastros (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
 Casa de navegação do NS MIRCEA (foto do autor).
Casa de navegação do NS MIRCEA (foto do autor).

Durante a estadia do navio em Lisboa o Comandante Mircea Tarhoaca, comandante do navio, prestou os tradicionais cumprimentos à Camara Municipal de Lisboa e à Marinha Portuguesa.

Foi também realizada, junto ao túmulo do Vasco da Gama no Mosteiro dos Jerónimos, uma cerimónia de homenagem aos navegadores portugueses que contou com a presença da senhora Ioana Bivolaru, a Embaixadora da Roménia em Portugal, do Coronel Marian Voicu, Adido de Defesa romeno em Portugal, do Contra-almirante Simões Marques, Comandante da Escola Naval portuguesa e diversos cadetes romenos e portugueses. Estas entidades, conjuntamente com o Capitão-de-mar-e-guerra Domingos Vaz, Chefe da Divisão de Relações Externas do Estado-Maior da Armada e o Capitão-de-fragata Maurício Camilo, comandante do NRP[2] SAGRES, participaram num almoço realizado a bordo do navio escola romeno.

 Cerimónia de homenagem aos navegadores portugueses com a presença da senhora Ioana Bivolaru, a Embaixadora da Roménia em Portugal, do Coronel Marian Voicu, Adido de Defesa romeno em Portugal, do Contra-almirante Simões Marques, Comandante da Escola Naval portuguesa e diversos cadetes romenos e portugueses (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Cerimónia de homenagem aos navegadores portugueses com a presença da senhora Ioana Bivolaru, a Embaixadora da Roménia em Portugal, do Coronel Marian Voicu, Adido de Defesa romeno em Portugal, do Contra-almirante Simões Marques, Comandante da Escola Naval portuguesa e diversos cadetes romenos e portugueses (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

Uma delegação de 40 cadetes romenos, embarcados no NS MIRCEA, deslocou-se ao Alfeite com o intuito de visitar a nossa Escola Naval e a fragata NRP VASCO DA GAMA. Foi ainda dada uma receção a bordo do NS MIRCEA que contou com diversas entidades civis e militares portuguesas e romenas.

Troca de lembranças entre o NS MIRCEA e a Escola Naval (foto gentilmente cedida pela Escola Naval).
Troca de lembranças entre o NS MIRCEA e a Escola Naval (foto gentilmente cedida pela Escola Naval).
Delegação de cadetes embarcados no NS MIRCEA em visita à Escola Naval no Alfeite (foto gentilmente cedida pela Escola Naval).
Delegação de cadetes embarcados no NS MIRCEA em visita à Escola Naval no Alfeite (foto gentilmente cedida pela Escola Naval).
NS MIRCEA atracado no Cais da Rocha em Alcântara com a iluminação de gala estabelecida (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
NS MIRCEA atracado no Cais da Rocha em Alcântara com a iluminação de gala estabelecida (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

A história do MiIRCEA começou na Alemanha, em 1938

Construído e lançado à água em 22 de setembro de 1938 em Hamburgo, nos Estaleiros da Blohm & Voss, este navio armado em barca, foi concebido sob os mesmos planos do GORCH FOCH I, sendo o quarto navio-irmão de um conjunto de cinco navios escola. Em 27 de abril de 1939 a bandeira nacional da Roménia foi içada pela primeira vez.

Cerimónia de lançamento do navio à água em 22 de setembro de 1938 nos Estaleiros da Blohm & Voss, em Hamburgo (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
Cerimónia de lançamento do navio à água em 22 de setembro de 1938 nos Estaleiros da Blohm & Voss, em Hamburgo (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

Na sua proa o NS MIRCEA ostenta orgulhosamente a carranca do seu patrono, o Mircea cel Bãtrãn, que reinou a Valáquia (uma das regiões da atual Roménia) entre 1386 e 1418. O seu nome significa “Mircea o velho”, de forma a não ser confundido com o seu neto, que possuía o mesmo nome. Enquanto governou Mircea organizou e promoveu o desenvolvimento económico da Valáquia, ao mesmo tempo que organizou o exército e criou um sistema de alianças que lhe permitiu defender independência do país e suster as investidas o Imperio Otomano. Foi no seu reinado que as voláteis fronteiras da Valáquia atingiram a sua maior dimensão e graças ao seu fomento económico os seus navios navegaram não só no Mar Negro mas também no Mar Mediterrânio e Mar Egeu, o que lhe valeu o nome de “líder até ao grande mar”.

 Na sua proa o NS MIRCEA ostenta orgulhosamente a figura de proa do seu patrono o Príncipe Mircea cel Bãtrãn, (foto do autor).
Na sua proa o NS MIRCEA ostenta orgulhosamente a figura de proa do seu patrono o Príncipe Mircea cel Bãtrãn, (foto do autor).

Este veleiro não é primeiro navio que a Marinha de Guerra Romena possui com o nome de MIRCEA. Com a conquista da independência ao Imperio Otomano em 1877 e a criação, em 1881, do Reino da Roménia, foi mandado construir em Inglaterra, em 1882, um navio aparelhado em brigue para a então Marinha Real Romena, batizado de MIRCEA.

O atual MIRCEA possui, desde a sua construção, as amuradas do castelo de proa e do castelo de popa pintadas de amarelo, característica que facilmente o diferencia dos restantes navios da classe, facilitando a sua identificação.

 NS MIRCEA a navegar à vela (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
NS MIRCEA a navegar à vela (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

Five Sisters, as cinco irmãs.

A classe de navios a que o NS MIRCEA pertence é constituída pelos seguintes veleiros: O GORCH FOCH I, construído em 1933, (ex-navio escola TOVARISHCH da ex-URSS e da Ucrânia) é atualmente um navio museu da Associação Alemã dos Amigos dos Grandes Veleiros, encontrando-se atracado em Stralsund, na Alemanha; o HOST WESSEL em 1936 (atual USCGC[3] EAGLE da Guarda Costeira dos Estados Unidos); o ALBERT LEO SCHLAGETER, construído em 1937 (atual NRP SAGRES da Marinha Portuguesa); o NS MIRCEA, construído em 1938, numa encomenda destinada à Marinha Romena e o GORCH FOCH II, construído em 1958, sendo o atual navio escola da Marinha de Guerra Alemã[4].

Todos estes navios foram construídos nos Estaleiros da Blohm & Voss em Hamburgo, sendo o NS MIRCEA o único que não foi construído com o intento de servir a Marinha de Guerra Alemã. O GORCH FOCH I e o NS MIRCEA tem ainda a particularidade de possuírem um casco cerca de 7 metros mais curtos do que os restantes navios.

Em 1939, possuindo já três navios escola, a Alemanha inicia a construção de um quarto ainda antes de se iniciar a II Grande Guerra Mundial, estando previsto batiza-lo de HERBERT NORKUS. O seu casco é lançado à agua ainda em 1939 mas, devido ao conflito, nunca a chega a ser concluído. Acaba por ser afundado em 1947 ao largo da Dinamarca, no Skagerrak.

De realçar que com o fim da II Guerra Mundial e a perda, em 1945, dos seus 3 navios escola como despojos de guerra, a Alemanha, ciente da importância de um veleiro na formação marinheira dos seus cadetes, constrói em 1958, mais uma vez, um navio escola sob os mesmos planos dos seus antigos navios escolas e do NS MIRCEA, o que atesta o sucesso deste projeto e as boas qualidades náuticas destes veleiros.

No final da Segunda Guerra, o HORST WESSEL (atual EAGLE) atracado no destruído porto de Bremerhaven (foto USCG)
No final da Segunda Guerra, o HORST WESSEL (atual EAGLE) atracado no destruído porto de Bremerhaven (foto USCG)

Em 1976, no âmbito das celebrações do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América (EUA), foi organizado um encontro de grandes veleiros, denominado Operation Sail´76 (vulgarmente conhecido como Op. Sail´76). Aproveitando a regata entre Hamilton, na Bermuda e Newport, nos EUA, foi criado um troféu exclusivamente para estes cinco navios irmãos, denominado Five Sisters, nome pelo qual são conhecidos internacionalmente. Após uma largada atribulada e uma renhida competição entre o então TOVARISHCH (atual GORCH FOCK I), o USCC EAGLE, o NRP SAGRES, o NS MIRCEA e o GORCH FOCK (atual GORCH FOCK II) o troféu foi conquistado por este último. Tendo ficado estipulado que sempre que os cinco navios irmãos se encontrassem em regata este troféu voltaria a ser disputado. Tal não voltou a acontecer até aos dias de hoje! As Five Sisters nunca mais se reencontraram, nem em regata, nem em nenhum porto. Curiosamente os únicos portos onde estiveram juntos foram os portos de Hamilton, Newport e Nova York, praticados durante a Op. Sail´76.

O MIRCEA passando a ponte Verrazzano-Narrows, no porto de Nova Iorque, durante a Op. Sail’76 (foto Mark RochKind, Creative Commons)
O MIRCEA passando a ponte Verrazzano-Narrows, no porto de Nova Iorque, durante a Op. Sail’76 (foto Mark RochKind, Creative Commons)

Sendo o GORCH FOCK I atualmente um navio museu, dificilmente o troféu Five Sisters voltará a ser disputado e os cinco navios-irmãos voltarão a reencontrar-se. No entanto os reencontros entre dois ou três irmãos ocorrem esporadicamente. Na última escala que o NS MIRSEA fez em Lisboa, no dia 20 de agosto de 2017, voltou a encontrar-se com o NRP SAGRES. Estando o navio escola romeno atracado no Cais da Rocha e o irmão português a iniciar uma Viagem de Instrução com os cadetes do 1º ano da Escola Naval, o NRP SAGRES passou ao largo do NS MIRCEA, tendo-se efetuado o tradicional cumprimento estipulado no cerimonial marítimo.

A bordo do NRP SAGRES saindo o porto de Lisboa, em agosto de 2017, o comandante Maurício Camilo cumpre o cerimonial marítimo ao passar frente ao NS MIRCEA que se encontrava atracado no cais da Rocha (foto do autor).
A bordo do NRP SAGRES saindo o porto de Lisboa, em agosto de 2017, o comandante Maurício Camilo cumpre o cerimonial marítimo ao passar frente ao NS MIRCEA que se encontrava atracado no cais da Rocha (foto do autor).

Cientes que não vai ser possível juntar os cinco navios irmãos num futuro próximo, esperemos que o NS MIRCEA regresse novamente a Lisboa já em 2020, para participar na Tall Ships Race que irá decorrer de 2 a 5 de julho, em Santa Apolónia.

NS MIRCEA a navegar à vela visto da amura de bombordo (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).
NS MIRCEA a navegar à vela visto da amura de bombordo (foto gentilmente cedida pelo NS MIRCEA).

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[1] Nava Scoala (Navio Escola em romeno)

[2] Navio da Republica Portuguesa

[3] Uneted Coast Guard Cutter

[4] A Marinha de Guerra Alemã teve as designações de Reichmarine, entre 1919 e 1935, de Kriegsnarine, entre 1935 e 1945, de Bundesmarine, de 1955 até 1990, quando a Marinha da Alemanha Federal se funde com a Marinha da Alemanha de Leste, passando-se a designar de Deutshe Marine, desde 1995 até aos dias de hoje.